Sobre a “novidade” Macron, por Wagner Sousa

Foto – France 24

Sobre a “novidade” Macron

por Wagner Sousa

A vitória do “centrista” Emmanuel Macron na eleição presidencial francesa fez, nas palavras da mídia hegemônica, o mundo (especialmente a Europa) “respirar aliviado.” Venceu o europeísta, aquele que, nas palavras do colunista Clovis Rossi, da Folha de S. Paulo, trouxe ” ar fresco no esclerosado ambiente político”. O ex-banqueiro da Casa Rothschild e ex-ministro da Economia de François Hollande, que se declara “nem de direita, nem de esquerda” seria o nome ideal a superar as clivagens ideológicas tradicionais. Não foi a única análise nessa linha.

Mas há também os preveem a volta de Marine Le Pen nas eleições de 2022, como favorita para o pleito. A vitória da extrema-direita teria sido apenas adiada.

O que, afinal, significa a vitória de Macron e de seu “En Marche”?

O primeiro ponto a se destacar é a divisão da sociedade francesa, os quatro primeiros colocados no primeiro turno, da esquerda representada por Jean-Luc Mélenchon à extrema-direita de Marine Le Pen, situaram-se em torno dos 20%, sem uma diferença expressiva entre eles.

O segundo ponto é a desestímulo do eleitor em comparecer neste segundo turno, registrado na alta abstenção, a maior em décadas, em face às opções apresentadas. Ou seja, o “novo” venceu, mas não despertou muito entusiasmo. Foi vitorioso devido ao rechaço à extrema-direita no segundo turno e teve ligeira vantagem ante às demais opções no primeiro turno.

O terceiro e último ponto é que Macron foi o candidato, agora presidente eleito, do establishment econômico francês e global. É também o presidente desejado também pelo establishment político alemão e europeu. Foi apoiado pelos socialistas e republicanos, a centro-esquerda e a centro-direita tradicionais da França no segundo turno e teve apoio informal da Hollande no primeiro turno, às custas do candidato de seu próprio partido, Benoit Hamon, mais à esquerda, mas que carregou na campanha o fardo da impopularidade dos socialistas no poder. Mas, para tanto, Macron teve de se apresentar como crítico a estas mesmas elites, portando uma mensagem de “renovação” política e aprofundamento da integração europeia.

Apesar da boa vontade da mídia com o novo presidente o entusiasmo já bastante contido não deve demorar muito tempo em se transformar em impopularidade. Não há razões para crer que Macron terá desempenho, com o passar do tempo, muito melhor do que François Hollande e Nicolas Sarkozy, que amargaram alta impopularidade.

As razões principais para o desalento francês estão na moeda comum e no projeto europeu, o mesmo que Macron se propõe a revitalizar. E por quê? Façamos um retorno no tempo para compreender.

O último governo francês que propôs e executou política econômica nacionalista e não convergente com a Alemanha foi o de François Miterrand, no início da década de 1980. Nacionalizações, protecionismo e subsídios estavam no cerne da estratégia econômica. A integração europeia era também questionada e se propunha inclusive algumas medidas de retorno à soberania nacional.

Estas políticas resultaram em melhor desempenho em termos de crescimento econômico, comparado aos vizinhos europeus, no cenário de recessão global daquele momento, induzida pela política de juros altos e dólar forte dos EUA. Membro, no entanto, do Sistema Monetário Europeu, o mecanismo que definia as paridades entre as moedas da então Comunidade Econômica Europeia, a França também apresentou taxas um pouco mais elevadas de inflação e “contribuiu” para certa instabilidade cambial, em um ambiente de consolidação da políticas de corte ortodoxo, que tinham na Alemanha o principal defensor no continente. A instabilidade cambial fazia com o que o objetivo do Sistema Monetário Europeu, justamente estabilizar as paridades, não ocorresse. Ou seja, foi enorme a pressão para que os franceses “se adaptassem”. Em 1984, em linha com o defendido pelo então Ministro da Finanças e futuro Comissário Europeu Jaques Delors, a França adota o receituário ortodoxo na economia, com medidas de austeridade fiscal e se lança na defesa do fortalecimento das instituições europeias e das competências comunitárias. Tal movimento teve sua expressão maior com o Tratado de Maastricht (1993), a criação da União Europeia e da moeda comum, o euro.

A partir da guinada promovida pelo governo Miterrand, em 1984, a política europeia francesa consistiu essencialmente em europeizar as instituições econômicas, o que significava promover liberalizações, mas fundamentalmente europeizar o marco alemão e o banco central da Alemanha, o que se expressou na criação do euro e do Banco Central Europeu.

Diferentemente do que imaginavam os formuladores franceses a criação de um banco central e de uma moeda em nível europeu, funcionando nos moldes desejados pelos alemães ( o estatuto do BCE foi copiado do estatuto do Bundesbank, por exemplo) aprofundou as assimetrias em vez de reduzi-las. A Alemanha assumiu posição de liderança regional, o que ficou explicito após a crise de 2008 e a imposição germânica aos demais europeus da austeridade como o “remédio” para enfrentá-la. A França, cada vez mais, passou a lugar secundário na definição dos rumos do bloco, embora seja um país fundamental para a continuidade da UE.

Como a União Europeia está longe de ser um Estado (é um acordo entre nações com áreas de ação política comum) não possui as instituições adequadas para que a política monetária possa ser instrumento de uma política em prol do crescimento. A União Europeia possui orçamento pequeno (em torno de 1% do PIB regional, no Brasil a União federal tem em torno de 25% do PIB), não possui Tesouro, títulos de dívida, previdência, legislação tributária, legislação trabalhista, dentre outros, em nível europeu. Os fundos regionais de auxílio às áreas menos desenvolvidas são claramente insuficientes. Portanto os Estados Nacionais abdicaram do controle da política monetária em nome da instituição regional e se vêem, o que está associado a isto, constrangidos a executar política fiscal bastante restritiva.

A promessa de Macron de “revitalizar” a integração com, por exemplo, o estabelecimento de um Ministério das Finanças europeu terá pouco efeito se não houver de fato europeização de muitas questões, como as elencadas logo acima.

O problema para os “europeístas” é que projeto europeu, como explicou historiador britânico Alan Milward em “The European Rescue of the Nation State” nunca foi, de fato, o projeto de uma federação supranacional e sim a concepção de uma nova arquitetura política europeia que permitisse a volta da atuação política dos Estados Nacionais europeus no pós-guerra.

A França do novo presidente deve insistir no caminho percorrido nas últimas décadas pelas administrações socialistas e republicanas (gaullista) das políticas liberalizantes. Só uma profunda reforma verdadeiramente europeizante poderia significar alento para a União Europeia e seus povos. Mas isto significaria transferir poder para Bruxelas e os Estados, principalmente os mais poderosos, em especial a Alemanha, não estão dispostos a fazê-lo. Nem mesmo a França, que sempre buscou a europeização para conter os alemães.

Na impossibilidade da reforma europeia a saída seria a volta ao Estado Nacional, não a versão xenófoba proposta por Le Pen mas a ousadia de uma “Sexta República” defendida pela “França Insubmissa” de Mélenchon, com profundas reformas visando atacar a desigualdade, o desemprego estrutural, a precarização, com a defesa de um papel mais ativo para o Estado.

Mas esta proposta, embora tenha tido mais adeptos que em 2012, não foi ao segundo turno.

Talvez no futuro se diga que a União Europeia e o euro ganharam cinco anos de sobrevida neste 07 de maio de 2017.

Wagner Sousa – com formação na área de Economia Política Internacional, pelo Instituto de Economia da UFRJ. Sua tese de doutorado versou sobre as relações franco-germânicas e o surgimento da moeda comum europeia

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4 Comentários

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Felipe Pait

- 2017-05-12 13:56:46

Banqueiro do Rothschild,

Banqueiro do Rothschild, entenderam? Internacionalista, liberal, cosmopolita. Do Rothschild. Rothschild! 

Entenderam ou precisa escrever mais umas palavras em código?

Let's Rock (the rats)

- 2017-05-11 20:39:25

como o Andy Araújo, o WagnerSousa enfeita e não dá nome aos bois
Wagner, Editoria Internacional deste Blog e demais colegas, O Wagner fez um "belo" (bem escrito... só!) artigo sobre a frança, à la Andy Araújo, "nosso" americanófilo favorito, ou à la Reginaldo Nasser sobre a Síria... Andy sempre argumentando que a C!A, DoS, N$A, NAT0 e Pentágono nunca estão envolvidos em sabotagens, golpes de estado, primaveras árabes, revoluções coloridas, guerras diretas e indiretas, espionagem e nas "trocentas" intervenções pelo mundo afora... sei! Então, quando quando constatamos: - o conhecido caixa 2 da C!A ($ obtido vendendo drogas para quem comprar, inclusive sua própria população) e armas para quem puder pagar) para fugir do controle do congresso e financiar operações "ilegais"; - 800 (aproximadamente) bases militares no estrangeiro; - embaixadas trabalhando como centros de espionagem e SABOTAGEM; será só coincidência pura e simples??? A culpa, segundo Andy, pelos golpes, massacres e sabotagens foi exclsivamente da população nativa de (abordarei guerras e sabotagens mais recentes; não vou considerar fatos mais antigos ocorridos na Ásia: Vietnã, Coréia, Camboja, etc): - afeganistão (livrar o povo afegão da "exploração russa" e do talebã, mas... ninguém fala que a produção de drogas, principalmente heroína, EXPLODIU sob a "proteção"(?) dos USraHell, além de "afanarem" minérios estratégicos, como urânio, sem controle oficial afegão; - Iuguslávia (arrebentaram o país com o pretexto de "massacre étnico" sobre muçulmanos trazidos da albania e "responsabilidade para proteger", R2P; só pretexto para diminuir a influência e se aproximarem da fronteira russa; na verdade, massacraram a população eslava; tbém criaram a excrescência "kosovo" com população muculmana importada da albania e balcanizaram a Iuguslávia em 5, acho, paisecos, maioria dominada por nato e USraHell, doutrinados exaustivamente à russofobia); - honduras; - paraguai; - argentina (imposição da marionete pró USraHell macri); - bréZil (imposição da marionete verme GOLPISTA temer); - Venezuela (sabotagem constante desde Chaves; ainda não dominada); - Equador (quase conseguiram emplacar outra marionete pró USraHell); - líbia ("abaixo ditador" e "primavera árabe); - Egito ("primavera árabe" e quase conseguiram emplacar a "irmandade muçulmana", irmã siamesa do isis); - iraque ("abaixo ditador" e "armas química", "matar bebês", etc); - Síria ("primavera árabe", "abaixo Assad ditador"... só que não! Assad tem umas bolas deste tamanho, a população percebeu o truque e a Rússia resolveu manter interesses estratégicos e limpar os vermes terroristas moderadamente extremistas antes que "franquia" isis (e mais 200 nomes para o mesmo "modelo") fosse "exportado" para suas fronteiras); - ucrânia ("revolução laranja", "contra a corrupção", etc; totalmente dominada por interesses externos); - Bielorússia ("revolução colorida", "integração européia", só que não! o presidente, que tbém tem "cojones", conseguiu frear a 5a. coluna interna "atlanticista"-entreguista e prender um monte de agentes sabotadores treinados no exterior; e muitos outros exemplos de países que já tiveram eleições dirigidas e tentativas de golpe, ainda não implementados ou em andamento... A LISTA É ENORME! obs.: USraHell = U$A, país (ou rica colônia hospedeira de parasitas?) gerenciado pela aipac (lobby para impor os interesses da CASTA PARASITA, e que, com o sacrifício da própria população, prioriza remunerar os outros lobbies liderados pela CASTA PARASITA (financeiro, FED, segurança(?) interna, bélico, farmacêutico e transgênicos), depois vem "apoiar" israHell (o rabo que abana o cachorro) e, quando sobra algum pequeno resto de $, só aí se atende a população interna, também inerte, zumbificada e bovinizada como a população do bréZil. obs. 2) letras mínusculas para países ocupados (através de políticos serviçais locais 5a. coluna) por USraHell Temos neste artigo, muitas referências "enciclopédicas" (montes de detalhes não relevantes) para impressionar os mais incautos e dar um "ar" acadêmico, de credibilidade, ao artigo, mas contém poucas ou nenhuma referência aos nomes dos bois ou aos processos de engenharia social utilizados... O artigo do Wagner sobre a frança parece (praticamente idênticos em conceito) com os artigos do Reginaldo Nasser sobre a Síria... Aparentemente informativos, mas depois de peneirados, o leitor não consegue perceber que é o mocinho ou bandido da história (pois esses dois autores pendem bem mais para o lado do bandido ao tentarem manter a "isenção" na narrativa); Destacar, por ex., quais são todos os atores envolvidos na crise síria ou quem fez a sabotagem do processo eletivo da frança... Não são dados os destaques necessários para tornar o texto mais assertivo, facilitando a interpretação. Volto a reiterar (como escrevi em outros comentários), não acho, para dar um exemplo de objetividade da informação, o Assad (ou o Trump, em outra abordagem) uma maravilha, o melhor lider para a Síria, mas tirá-lo agora seria transformar a Síria em um afeganistão, líbia ou iraque. A política normalmente não tem soluções ideiais, justas para a população e para conviver em harmonia com os demais países, pois a maioria dos grandes países joga sujo para influenciar outros países menores, mas alguns são muito mais psicopatas que outros. Normalmente, só existem soluções "menos piores" dentre as de possível escolha... quase nunca existe "melhor escolha". Há países que são abertamente violentos, outros preferem usar os bastidores (economia, engenharia social, 5a. coluna, por ex.), outros preferem não se envolver, mas são envolvidos mesmo sem querer. Então, os artigos escritos por "especialistas" precisam mostrar quem manobra quem, quem puxa as cordas de quem, quem injeta dinheiro onde, e não ficar divagando academicamente sobre um monte de dados e fatos não essenciais ao processo em questão. Tbém não acho o Irã um modelo de democracia, mas o povo, com tudo que sofreu com os bloqueios financeiro e comercial, vive muito, muito melhor que afeganistão, líbia e iraque, que foram "ajudados" por USraHell e nato e agora são "democráticos" (quá quá quá). Só para não esquecer da unha encravada do oriente medio, acho que a política interna e externa da entidade israHell são um desastre anunciado e não poderiam ser piores. Tenho muita consideração e dó dos judeus de boa índole (sejam saarianos, semitas ou ashkenazi), defensores do respeito e da boa convivência com os semitas palestinos (e tbém com persas e árabes... os bons árabes, não radicais), humanistas, mas há muitos anos sob a má liderança sionista dos khazares (tbém chamados ashkenazis - goyim europeus que adotaram tardiamente o judaísmo, mas rapidamente dele se apropriaram). Ou seja, Wagner e Editoria Internacional do Blog, esses artigos aparentemente detalhados, essencialmente acadêmicos, politicamente corretos, coisa e tal, mas focam em fumaça, miçangas e espelhos, e são intelectualmente desonestos, pois muitas vezes iludem o leitor menos preparado a pensar que, por ex., tirar Assad é melhor que deixar a guerra continuar. Pelo contrário, manter Assad e derrotar os extremistas moderadamente terroristas é a "menos pior" das soluções. Peneirando esse artigo do Wagner, o mesmo peca pela não apresentação nenhum nome (de pessoas, empresas ou outros países) responsável pela palhaçada que foi a eleição francesa e comparar como seria menos pior implantar o plano de Le Pen do que o plano de macron para a grande maioria dos franceses. Quanto à minoria francesa (rica e poderosa), essa apoiou de TODAS as formas possíveis a vitória de macron, que vai fazer as mesmas barbaridades que o verme golpista temer está fazendo no bréZil. Faltou abordar em profundidade o plano político de Le Pen pelo lado do benefício à população, proteção dos postos de trabalho, vantagens da saída do euro, restabelecimento de relações comerciais plenas com a Rússia e proteção das fronteiras (pois o caos migratório foi pensado fora da europa para gerar o enfraquecimento dos estados membros europeus), ao contrário de macron que vai manter os privilégios dos muito ricos e perdas de direitos sociais, rebaixamento dos salários, maior controle do Estado sobre o cidadão (quase beirando o fascismo, à la 11set), etc. Sugiro ao Wagner (e Editoria Internacional do Blog), antes de publicarem ou "upparem" artigos sobre política externa, a leitura, dentre outros, de artigos sobre a frança (ou Síria, ou Rússia) em: - http://blogdoalok.blogspot.com.br/ (vários artigos sobre frança) - http://www.voltairenet.org/pt ou http://www.voltairenet.org/es - http://www.globalresearch.ca/ - http://www.orientemidia.org/ - http://en.farsnews.com/ - https://www.almasdarnews.com/ - www.thesaker.is (Ghassan Kadi sobre frança) - http://www.veteranstoday.com/ - https://mundo.sputniknews.com/ - https://actualidad.rt.com/ Assim o Wagner, o Nasser e a Editoria Internacional do Blog terão mais base, mais conteúdo, mais versões, para escrever um artigo ou avaliar se um artigo é bom, consistente, revelador, antes de uppar esse artigo no GGN ou no Blog do Nassif.

Maria Luisa

- 2017-05-11 17:35:08

Vem ai a sexta republica....

Macron virou consenso depois de certo tempo. Ele não era o candidato do establishment, era um paraquedista - certo com bagagem intelectual e econômica, mas sem tradição politica - que caiu numa campanha presidencial. O candidato era Fillon, que se queimou no inicio de sua campanha.

Macron vira com um primeiro ministro da direita, provavelmente um jupeniste e vai partir com tudo ja no inicio de governo com as suas famosas reformas. Enquanto classe média trabalhadora não espero nada de bom, apenas diminuição do desemprego com mais precariade trabalhista. Se ele falhar, Marine Le Pen dara gargalhadas. Eh tudo o que ela e seu partido (que também não vai la essas coisas) espera.

João Doria é soh mais um jeca-imbecil do meio politico brasileiro. Mas a classe média acha o maximo, não é mesmo?

 

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