Sobre juros e inflação

Do leitor Paulo de Albuquerque

Prezado Nassif,

Discussão interessante. E bastante esclarecedora. Se você me permitir, tenho alguns comentários a fazer :

a) o custo de captação dos bancos situados no Brasil, em sua maior parte, é aproximadamente do mesmo nível da taxa básica de juros, de vez que cerca de 60% dos recursos captados (boa parte não remunerados) são aplicados em títulos do Governo;

b) o uso da taxa de juros como instrumento de combate à inflação não se constitui em remédio infalível, principalmente no caso do Brasil. Funciona muito bem quando as taxas de captação dos bancos e as taxas de empréstimo têm uma diferença não muito grande, conforme acontece em países como os E.E.U.U., o Japão, a Alemanha e outros do chamado “Primeiro Mundo”, e em lugares onde os consumidores conseguem avaliar o custo real e efetivo dos empréstimos, dos financiamentos imobiliários e da compra de produtos tais como televisores, refrigeradores, móveis, etc.

Caso existisse uma correlação simples e direta entre as taxas de juros e as taxas inflacionárias, o Japão e muitos outros países estariam sofrendo de hiperinflação, por estarem mantendo taxas reais próximas de zero há muitos anos.

O que atua mais rapidamente sobre os índices inflacionários é a abertura dos mercados, com a ampliação da concorrência. Em particular no caso brasileiro, a taxa de câmbio é o fator que tem atuado com maior impacto sobre os índices inflacionários. De forma indireta, além da abertura comercial, o que o nível da taxa de juros proporcionou foi a entrada de recursos destinados às aplicações financeiras, gerando um ganho inusitado em moeda estrangeira e a valorização concomitante da moeda nacional.

A título de exemplo, por volta de 2003 uma aplicação de menos de 1 ano, feita com valores trazidos do exterior, provocava ganhos, em moeda estrangeira, superior àqueles obtidos em 10 anos nos países de origem. Tal fato, além, naturalmente, do acúmulo de reservas em moeda estrangeira derivado do saldo crescente de nossa balança comercial, provocou e continua provocando uma forte tendência de valorização do real, com impacto direto sobre a queda de nossos índices de preços. Mas se alguém ganha, alguém perde com isso: e esse último alguém somos nós, os brasileiros;

c) não precisamos divagar tanto quanto alguns fazem, para reduzir as taxas de juros, pois trata-se de um mercado onde existem a oferta e a demanda, como qualquer outro: se reduzirmos um pouco mais as nossas taxas, ainda que mantendo as mais elevadas do mundo, será que os aplicadores irão desistir de adquirir os títulos brasileiros e preferir aplicar seus recursos no Afeganistão, ou na Coréia do Norte?

d) por todas as razões acima, nosso companheiro de Conselho, professor Yoshiaki Nakano, merece a minha admiração e tem o meu apoio irrestrito.

Um grande abraço.

Paulo de Albuquerque

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