GGN

Sofismas em torno do câmbio

Coluna Econômica – 13/09/2006

Um dos piores vícios da discussão econômica no país é a perda de foco. O analista tem interesses a defender e vai desenvolvendo argumento em favor das suas idéias. Em determinado momento os argumentos ganham vida e se despregam da realidade, deixam de considerar aspectos fundamentais da própria ciência econômica.

É o caso da discussão apreciação versus desvalorização do real. Há um grande conjunto de economistas contra a desvalorização, porque significaria perda para os investidores e tomadores de empréstimos em dólares. Então, tratam de conseguir argumentos em favor da apreciação do real, que acabam atropelando princípios básicos de bom senso.

Como se sabe, quando o real se aprecia os produtos brasileiros ficam mais caros em comparação com os estrangeiros. Fica mais difícil para a empresa brasileira não apenas exportar como competir com os produtos importados.

Mas a apreciação traz vantagens também. O sofisma é não comparar adequadamente o peso dos argumentos contra e a favor da apreciação.

Um dos argumentos a favor é que a apreciação aumenta a capacidade de compra dos salários. De fato, com o real apreciado pode-se comprar produtos estrangeiros, ou mesmo viajar para o exterior gastando menos reais.

Mas esse benefício é de curto prazo. Se a apreciação tira o dinamismo das exportações e da produção interna, em um segundo momento haverá redução do lucro das empresas e dos empregos que proporciona.

Um segundo argumento a favor da apreciação do real é que a desvalorização produzirá inflação. Trata-se de mais um sofisma. Inflação é um processo continuado de aumento de preços. Quando ocorre uma desvalorização cambial, em um ambiente econômico não indexado (como é atualmente a economia brasileira) em um primeiro momento há uma mudança no patamar de preços dos produtos importados e exportados. Depois do primeiro salto, se houver uma condução eficiente da política monetária, não haverá a continuidade do processo de reajustes.

O terceiro argumento é que, com o real valorizado, fica mais barato para as empresas importarem máquinas e equipamentos e ampliar sua capacidade de produção. Ora, um equipamento é caro ou barato em função do faturamento que a empresa irá obter com ele. Se a desvalorização cambial aumenta o preço do equipamento, em reais, mas aumenta o faturamento da empresa, a comparação a ser feita é entre o novo poder de pagamento da empresa e o novo preço da máquina. Se uma empresa não encontra espaço para aumentar sua produção, não terá porque adquirir máquinas, estejam elas mais caras ou mais baratas.

O quarto argumento é que, em vez de ficar pensando em câmbio, o país deveria melhorar as condições de infra-estrutura, tributação etc. É evidente que o preço final de um produto exportado corresponde ao preço interno corrigido pelo câmbio. Ocorre que, se você não tem objetivamente, condições internas mais competitivas, não tem infra-estrutura adequada, tributação competitiva, acesso a crédito, a única compensação é através do câmbio. Se, em cima de todos esses problemas, ainda se tem um real apreciado, a empresa morre.

Mas pouco importa para o analista. A realidade que se adapte ao seu argumento.

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