Subdesenvolvimento e preconceito

Coluna Econômica – 29/12/2006

Um dos fenômenos mais lamentáveis surgidos nos últimos anos foi a volta do elitismo rastaquera, preconceituoso, no bojo da crise política. Houve outros exemplos históricos. No início do século, o afrancesamento da elite cafeeira era de um ridículo atroz, visto agora, e provavelmente visto na época por estrangeiros.

O próprio Rio de Janeiro criou um tipo elitista preconceituoso na fase do famoso “café society”. Esse elitismo de colunas sociais nada tinha a ver com os verdadeiros empreendedores, Augusto de Azevedo Antunes, Walther Moreira Salles, João Pedro Gouvêa Vieira, que a rigor o desprezam como fútil.

Essa identidade elite-povo é fundamental para qualquer projeto de país. Foi ao conseguir promover a aproximação nação-povo que Franklin Delano Roosevelt consolidou o maior país capitalista do século.

Por aqui, esse elitismo desagregador, irresponsável, retorna como um drácula permanentemente ressuscitado. Nos últimos anos ficou patente esse processo nas loas que a imprensa paulista tecia à Daslu, ao Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos. Pergunte ao Márcio Fortes quem era Edemar. Um tremendo malandro, conhecido desde antes do governo Collor, que de repente foi incensado pelo “neo-elite” paulistana. Os convites para seus jantares eram disputados a tapa, mesmo sabendo-se quem ele era. Nem o primeiro dos sistemas de controle social – o meio repudiar práticas condenáveis de seus membros – foi armado para conter a esbórnia de Edemar.

No Rio, esse elitismo passou a se manifestar através de alguns colunistas que transformaram a necessária crítica política ao governo Lula em fonte de preconceito. Passaram a caçoar das festas juninas, da falta de modos da primeira dama, da falta de estudos do presidente, do nordeste “atrasado”, da falta de cultura das classes D e E, com uma prepotência absurda. A crítica não era apenas aos métodos políticos questionáveis do PT, mas a todo um conjunto de hábitos e tradições populares. Como se fosse possível construir uma nação sem povo.

E não se pense em um quadro melhor do lado do PT. Grande parte dos quadros que se infiltraram na máquina pública acalentava o sonho de poder entrar para essa “elite”.

A classe média, há doze anos esmagada por um modelo econômico espúrio -inaugurado por Fernando Henrique Cardoso, aprofundado por Lula—de repente foi desviada do foco central dos problemas graças ao ferramental do preconceito. O Ministro Antonio Palocci matou a chance de recuperação da economia em 2003 e 2004. Mas manteve juros escorchantes, tentou aumento de impostos e concentrou mais a renda. Mas sua imagem – passada pelos colunistas, principalmente através desse preconceito de classe—era a do sujeito moderno em meio a uma tribo de trogloditas.

Nesse meio tempo houve a ascensão das classes populares. De repente, passou-se a atribuir as intempéries da classe média às políticas sociais, ao salário mínimo, deixando de lado juros e câmbio, numa demonstração escandalosa de falta de pesos e medidas.

Como dizia Nelson Rodrigues, o subdesenvolvimento é um trabalho de séculos.

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