Um diagnóstico da crise

Estou na apresentação, no IEDI (Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial), do novo sensor econômico criado pelo IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).

A abertura foi do Ministro Roberto Mangabeira Unger. Vale a pena um resumo, pois, apesar de um tanto generalista quanto às conclusões finais, foca os principais aspectos da crise internacional, aqueles efetivamente relevantes.

Relevem erros de digitação, já que o material está saindo em tempo real.

Apresentação de Roberto Mangabeira Unger

Brasil na primeira ordem da discussão mundial e seu destino entrelaçado com a nova ordem mundial.

Agora não se trata de construir um parque industrial, mas de reconstruí-lo e democratizá-lo ao mesmo tempo, nas circunstâncias da crise.

O cerne do sistema industrial brasileiro, construído em meados do século passado, é a produção em larga escala de bens e serviços padronizados, por processos rígidos e mão de obra semi-especializada e relações de trabalho hierárquica e muito especializada. O fordismo já tardio, com padrões de excelência fabril mas retrógrado no paradigma tecnológico e gerencial.

Duas tarefas simultâneas de reconstrução. No centro industrial, acelerar a passagem rumo a um paradigma de construção mais flexível e mais vocacionado à inovação permanente.

Uma segunda tarefa, menos conhecida e mais difícil: organizar no resto do país, fora do centro industrial, uma travessia direta do pré para o pós-fordismo, sem passar pela etapa intermediária.

Em todos lugares do mundo, as maiores empresas cercadas por uma penumbra de empresas menores e inovadoras. Quando inovações dão certo, assimiladas por empresas maiores, ou pela compra das menores pelas maiores. Falta ao Brasil essa penumbra das pequenas inovativas.

Podemos executar tarefas com efeitos da crise.

Para isso, participar ativamente da discussão da crise e reorientar o rumo do debate.

Nada é mais impressionante no debate do que a pobreza das idéias que o orientam. Não há nenhuma idéia disponível, a não ser um keynesianismo mumificado.

1.    Necessidade de regular mercados financeiros.

2.    Necessidade de adotar políticas fiscais e monetárias expansionistas.

A eficácia depende de avanço em três outras áreas que mal afloraram:

1 Necessidade de enfrentar e superar desequilíbrios estruturais na economia mundial, entre países superavitários em comércio e poupança (China) e os deficitários (EUA). Nos anos 90 o motor foi o acerto implícito entre China e EUA. Esse motor destroçado.

2, Relação entre sistema financeiro e produção. A tarefa de regular tem que ser entendida apenas como vanguarda para tarefa maior de organizar relações entre finança e produção.

Hoje em dia o sistema produtivo se auto-financia. Mais de 80% do financiamento da produção se baseia nos lucros reinvestidos. Para que, então, serve todo aquele dinheiro que está nas bolsas e nos bancos?

Teoricamente, para financiar produção. Na realidade, relação episódica com produção. Grande parte do potencial produtivo da poupança se dissipa no cassino.

O desafio é reorganizar institucionalmente relação entre sistema financeiro e produção.

3.    Relação entre redistribuição e recuperação. Caso dos EUA. Todos admiramos a construção de um mercado de consumo de massa nos EUA na segunda metade do século 20. Em princípio, exigiria a democratização do poder aquisitivo, portanto a redistribuição da renda e da riqueza. Não houve nos EUA. Nas últimas décadas do século 20, violenta concentração da renda e da riqueza. Como foi possível? Parte, na supervalorização do imóvel, servindo de lastro a uma democratização postiça do crédito que fez as vezes da redistribuição da renda e riqueza que não houve.

Essa base precária precisará ser substituída por uma verdadeira distribuição da renda e da riqueza.

Desafio aqui é enfrentar crise pensando no Brasil e no mundo e tomar dianteira no redirecionamento da discussão, que os dois temas superficiais sejam interpretados à luza dessa problemática suprimida.

Necessidade de união entre Estado e empresariado, de forma totalmente diferente da que prevalece no mundo.

Há o modelo americano, de um estado que apenas regula as empresas à distância; e do nordeste asiático, do Estado que formula política comercial e industrial e empurra de cima para baixo.

Precisamos de um terceiro modelo, de uma forma de coordenação estratégica que seja descentralizada, pluralista, participativa.

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