Um Ministro que não conhece Economia, e um BC subserviente ao mercado, por Luis Nassif

Não haverá a menor chance de sucesso uma política econômica conduzida por um Ministro ignorante em relação aos mecanismos da economia real, e um Banco Central incapaz de afrontar minimamente o mercado.

Para quem tem a menor veleidade de que o governo Bolsonaro irá tirar a economia da estagflação.

1. Um Ministro da Economia sem a menor noção sobre instrumentos de política econômica, dominando precariamente conceitos de política monetária.

2. Um Banco Central que, em nenhuma hipótese, adota qualquer medida que possa prejudicar o sistema financeiro e, especialmente, o sistema bancário.

Cria-se a seguinte barafunda.

O BC permite uma explosão do câmbio. Ao mesmo tempo, a liquidez internacional – em uma economia global estagnada e financeirizada -, mais o aumento da demanda da China, faz explodir as cotações das commodities.

A soma de câmbio mais cotações provocou uma enorme pressão de custos na economia. Ao mesmo tempo, o fim da renda emergencial derrubou a demanda, promovendo um misto de inflação com recessão – a chamada estagflação.

Aí entram as vulnerabilidades da política econômica.

Há um conjunto de instrumentos não monetários para trabalhar os problemas. Por exemplo, imposto de exportação, cotas de exportação sobre commodities, estoques reguladores.

Há enormes problemas na quebra de várias cadeias produtivas. Uma política econômica pró-ativa convocaria empresários do setor, identificaria os nós e atuaria para resolver. Mas o mundo real não entra nas avaliações de Paulo Guedes-Roberto Campos. Com cabeças de planilha, só conseguem trabalhar com política monetária e fiscal.

E aí entra o segundo nó, um BC subserviente ao mercado e ao sistema financeiro.

A política monetária prevê duas ferramentas para controle de inflação: o enxugamento da liquidez, através do aumento do compulsório (o percentual dos depósitos bancários que precisa ficar depositado no BC); ou através das chamadas operações compromissadas (pelas quais o BC vende títulos aos bancos, com o compromisso de recompra, pagando taxa Selic).

Esqueçam as críticas aos métodos exclusivamente monetários. Vamos analisar apenas as duas alternativas.

O aumento do compulsório enxuga a liquidez do mercado, sem custos para a dívida pública. O BC manteve o compulsório reduzido e recursos no caixa do banco. Com a economia estagnada, os bancos não ampliarão os empréstimos. Para enxugar a liquidez, o BC terá que recorrer às chamadas operações compromissadas –  pagando juros Selic.

Nas próximas rodadas, o mercado pressionará pelo aumento da Selic. O que impactará diretamente a dívida pública, os juros futuros.

Essas mesmas limitações impedem reformas fiscais progressivas, permitindo taxar os setores mais rentáveis. O sistema levanta argumentos contra a tributação do sistema financeiro: como os bancos repassam os custos, o aumento de tributação resultará em aumento do custo do crédito. É um falso argumento, já que a alternativa – impostos indiretos – impacta todos os bens de consumo, afetando diretamente a população de baixa renda.

Portanto, não haverá a menor chance de sucesso uma política econômica conduzida por um Ministro ignorante em relação aos mecanismos da economia real, e um Banco Central incapaz de afrontar minimamente o mercado.

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