Um país sem sorte

Coluna Econômica – 05/04/2007

No início do ano entrevistei o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, como fecho para meu livro “Os Cabeças de Planilha”, que será lançado na próxima semana.

FHC admitiu os profundos erros de câmbio de 1994 a 1998. Apresentou várias desculpas para não ter corrigido o errado. A principal é que “não havia pressão da opinião pública”. Criou-se uma unanimidade, um pacto de silêncio na mídia, que, segundo ele, amarrava qualquer iniciativa do governo.

A desculpa não basta para absolvê-lo. Os indicadores eram claros sobre a não sustentabilidade do câmbio na época. Sabia-se que a manutenção de tal política aumentaria a dívida pública em tal nível que comprometeria por mais de uma década as contas públicas. FHC vaticinava que o mesmo ocorreria agora com Lula. Ele seria iludido pelo canto de sereia do mercado e só quando a crise explodisse haveria mudanças.

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É o Brasilsão velho de guerra, com absoluta carência de estadistas. Ambos – FHC e Lula – são extraordinariamente parecidos no acomodamento político, em transformar a política na “arte do possível” e a política econômica em mero processo de acomodamento de pressões. A cada dia que passa o dólar vai descendo a ladeira. Já está batendo em R$ 2,00. Em breve estará em R$ 1,90.

Ontem houve a demissão do Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio Sérgio Gomes de Almeida, porque resolveu tornar públicas suas preocupações com o nível do câmbio.

Enquanto isto, o Banco Central continua trabalhando com estimativas de inflação muito acima das do mercado, para preservar o poder de matar a atividade econômica com essa taxa de juros.

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Na mídia, a pressão é mínima. Saúda-se o aumento das importações, como se não tivesse efeito nenhum sobre produção e emprego domésticos. Permite-se a abertura da poupança interna para aplicar no mercado internacional, como se o país tivesse abundância de capital. Não há cobertura dos setores massacrados pelo câmbio.

Não há um projeto de país em nenhuma parte, nem na oposição nem no governo. O mercado está satisfeito porque consegue ganhar com os juros e com a apreciação do câmbio. Grandes empresas compensam no mercado financeiro eventuais perdas de rentabilidade em sua produção.

Todo o mercado sabe que a apreciação cambial é fruto da política de juros do BC, que atrai dólares através da conta capital. Mas apenas se constata, não se protesta porque todos estão ganhando, hipotecando mais um pouco o futuro do país.

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Enquanto isto, comemora-se a nova metodologia do PIB, sem levar em conta que, qualquer que seja ela, o crescimento é medíocre, ainda mais em uma quadra da história em que a economia mundial experimenta as mais altas taxas de crescimento.

Bate um desânimo com a falta de rumo, com a falta de grandeza de Lula agora que, completada a reforma ministerial, fica-se com mais do mesmo.

A cada dia fica mais claro que o Brasil não foi bafejado pela boa sorte. Na maior oportunidade da história, esse longo período que começa em 1994 e se estende até os dias de hoje, um estadista teria conduzido o país para o grande salto.

Infelizmente o destino do país foi entregue a dois presidentes sem grandeza.

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