Um pensador contemporâneo

Coluna Econômica – 12/04/2007

O relatório das mudanças ambientais, a questão da auto-sustentabilidade adquiriram tal dimensão nos últimos meses, que, de repente, fica parecendo que todos os paradigmas de análise da globalização -tanto dos defensores quanto dos críticos ficaram defasados, como se toda tradição da análise econômica e sociológica, que remonta o século 19, tivesse ficado inexoravelmente velha.

Ontem, durante o 15o Seminário Internacional “Em Busca da Excelência”, da Fundação Nacional de Qualidade, tive o prazer de mediar uma mesa que contava, entre outros peso-pesados, com o economista-ecologista chileno Manfred Max-Neef, 70 anos, vencedor do Right Livelihood Award, conhecido como Prêmio Nobel alternativo. Foi professor em Berkeley, Califórnia, morou em Tiradentes durante a ditadura de Pinochet, é pianista e compositor.

Algum tempo atrás, o que diz poderia ser considerado uma excentricidade da contra-cultura. Agora, se tornou instantaneamente atual.

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Manfred questiona o modelo econômico atual, baseado na exacerbação do consumo, na explosão das cadeias produtivas, e no livre comércio. Não se trata de uma crítica marxista ou de qualquer outra categoria de pensamento convencional.

Um dos pontos centrais de sua crítica é que, quando se incluem as externalidades na avaliação do processo produtivo, o que era eficiente pode se tornar perdulário. Hoje em dia, é visto como maravilha que o leite saia da Áustria, vá para a Itália onde será convertido em yougurte, com embalagem produzida na Alemanha e a fita em outro país (estou dando o exemplo de memória). Quando se calcula o consumo de combustíveis, a geração de carbono, o modelo torna-se totalmente anacrônico e perdulário.

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Não apenas isso. Até 1949, diz ele, não se falava em economias subdesenvolvidas. Cada país tinha suas particularidades, características. Quando Truman falou pela primeira vez em país subdesenvolvido, todos foram colocados na mesma vala comum e submetidos ao mesmo tratamento por parte do FMI (Fundo Monetário Internacional). Depois disso, houve uma globalização intensa que desperdiçou a riqueza das culturas nacionais.

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Uma das posições mais provocativas de Manfred é em relação ao desenvolvimento. A partir de um certo nível de desenvolvimento, o crescimento passa a ser improdutivo para o que deveria ser o objetivo final da economia: a busca do bem estar dos cidadãos. Há uma saturação da infra-estrutura, obrigando a novos investimentos, uma busca incessante de eficiência, gerando desemprego. Mas a crítica é apenas para países desenvolvidos.

Outra, é em relação à incapacidade do planeta de manter o ritmo atual de crescimento, em cima de um modelo baseado no supérfluo.

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Manfred é um crítico permanente de alguns pilares da economia. Diz que a “mão invisível” do mercado nunca foi uma idéia central na obra de Adam Smith. Das mil páginas da “Riqueza das Nações”, há apenas uma menção, sequer um capítulo dedicado à tal mão.

Ironiza a teoria do equilíbrio – uma utopia perseguida por todo economista. Equilíbrio é cemitério, diz ele. O que impulsiona a economia são os desequilíbrios, um excesso de demanda aqui, um choque de oferta ali.

Dá para discordar de muito do que ele diz. Mas o homem obriga a pensar.

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