A ocupação nos libertou, por Gislane de Almeida Gomes, 17 anos

Enviado por Leo V

Do Brasil Post

A ocupação nos libertou

Por Bianca Santana

Colunistas de diversos meios estão abrindo seus espaços para que estudantes de São Paulo possam falar — com suas próprias vozes — sobre a experiência que estão vivendo ao se juntar e lutar contra o projeto de reorganização de escolas de rede pública de ensino do Estado de São Paulo.

Todos os textos serão reunidos pela hashtag #ocupaestudantes. Tenho a honra de abrir meu espaço aqui no HuffPost Brasil para Gislaine de Almeida Gomes, de 17 anos, aluna da Escola Estadual Plínio Negrão, que fica na Vila Cruzeiro, zona sul de São Paulo.

Um mês antes de iniciar as ocupações, eu li um título que era mais ou menos assim: “a geração que idealiza tudo e nada faz”. Aquilo ficou na minha cabeça, porque eu faço parte desta geração e meus amigos e colegas também. De alguma forma precisávamos provar o contrário! Precisávamos mudar isso!

Quando iniciaram as ocupações, eu fui a muitas escolas para ver como as coisas estavam sendo e acontecendo na prática. Poxa, foi lindo ver a minha galera, os estudantes, assim como eu, ali, reunidos, se ajudando… E foi aí que me dei conta: nós estamos fazendo alguma coisa, sim, uma coisa grande: estamos lutando por uma escola melhor, pela nossa escola, e estamos gritando para o Brasil o que queremos.

Foi pensando e sentindo tudo isso que me reuni com mais três colegas para planejar a nossa ocupação, da EE Plínio Negrão, que fica na Zona Sul de São Paulo. Nossa diretora é autoritária, nunca nem permitiu a atuação do grêmio na escola. Minha chapa foi impugnada. Levei uma advertência por estar querendo um Grêmio Livre, assim como a lei nos mostra. E isso era mais um motivo para os alunos se reunirem e dizerem: espera aí, eu tenho direito de escolher, de pensar, de agir…

Ocupamos! Nosso maior medo era a polícia. E nossa diretora ligou para a polícia dizendo que a nossa escola havia sido invadida. Mas estávamos tão orgulhosos de nós mesmos que continuávamos lá, fizemos assembleia, discutindo, conversando, se entendendo. E a coisa foi crescendo. Pessoas que eu nunca nem vi na escola nos apoiaram! Foi lindo. No decorrer do tempo fomos criando laços, laços esses que em 200 dias letivos nunca haviam sido criados.

Viver na ocupação parece uma guerra. Claro que tem seus momentos bons, momentos ótimos, momentos que vão deixar saudades… Mas tem a repressão. A violência por parte do governo, que manda a polícia nos aterrorizar na escola e nas ruas da cidade, que manda os alunos e os pais que não entendem a ocupação nos ameaçar.

Mas em compensação, durante a ocupação, muitos de nós pararam de olhar pro seu próprio umbigo. Passamos a nos preocupar uns com os outros porque um só não vence a luta! Nesse caso: a união faz a força. Na ocupação, os garotos passaram a querer cozinhar, pra ajudar, e perceberam que isso não é coisa de menina. As meninas passaram a jogar bola e jogar baralho… Nos libertamos!

Na ocupação percebemos que todos podem ajudar! Que não existe o mais inteligente, o mais forte, o mais legal. Todos se uniram! E o melhor de tudo é que nos unimos com estudantes de outras escolas: do Centro, da Zona Leste e até com escolas que ficam aqui do lado, com as quais nunca havíamos tido contato. E uns passaram ajudar os outros. Quando precisamos de qualquer coisa das outras escolas, sejam alunos para dormir, para limpar a escola, para debater algumas coisas, tá todo mundo sempre pronto pra colaborar!

Há muitas coisas que só percebemos na ocupação. O descaso que os dirigentes têm com a preservação escola, por exemplo. É quase impossível dormir aqui por causa dos milhares de insetos, baratas e até de ratos que encontramos. E nós, estudantes, estamos fazendo de tudo para manter tudo limpo e sem esses bichinhos. Achamos tintas guache que venceram em 2009.

A nossa horta que foi criada esse ano estava jogada no estacionamento da escola, ela quase toda já morreu. Não conseguimos recuperar. Os armários tinham baratas mortas. Achávamos ratos da cozinha.

É triste, não? É muito triste ver que a diretora da sua escola não liga para os alunos, como ela mesma diz, e chama os outros alunos para nos atacar. Incita o ódio, a compatição, a desunião. Isso é triste. Isso é horroroso. Isso não deveria acontecer… mas acontece!!!

Assim como aconteceu uma tremenda repressão policial. Dizem que a polícia é para servir e proteger, mas um policial me machucou. Sim, me machucou, e eu nunca tive tanto medo na vida. Na hora em que ele pegou no meu braço e quis me levar à força para a delegacia de polícia, só porque eu estava ocupando. Estava dentro da escola. Ele queria me tirar a força para fora da escola. Me senti invadida. E senti medo. Muito medo! Sempre fui corojosa, até mesmo que para estar ocupando isso é preciso, mas naquela hora senti medo. Mas isso só me instigou a lutar mais. E não houve motivo para ele ter feito aquilo. Estou lutando pela Educação. E o mais engraçado ou terrível é que acho que não deveríamos ter medo da Polícia Militar, porque ela é para proteger a gente, não é? Mas eu percebi que não. Eles machucam o corpo e a alma da gente. Acontece que o efeito foi o contrário, o medo e a descrença na PM me motivaram mais – a lutar mais, a me preparar mais, a conhecer mais.

Começamos querendo o cancelamento da reorganização. Hoje somos milhares e temos milhares de vontades: queremos mais aulas culturais e artísticas. Os meninos querem aulas sobre feminismo, as meninas de defesa pessoal. Os meninos pedem mais aulas de gastronomia, para aprenderem a cozinhar. Nós aprendemos a fazer poesia, aprendemos movimentos literários em um dia. Porque queremos, não porque o governo impôs na programação escolar. Caramba, eu me sinto feliz 🙂

E mais uma coisa importante que descobrimos também, curiosamente, enquanto estávamos sem aula normal: o papel do professor é mágico, é lindo. Mesmo com a gente na ocupação, eles não dando aula, muitos apareciam no portão, com alimentos ou apenas com um “vocês estão bem?”. Nos ligam para falar “CUIDADO!!!”. Sabe, eles são os que mais compareceram para nos dar força. E, fiquei pensando: eles merecem mais do que ganham. E o governo menospreza essa profissão linda. Essa profissão que nos fez estar aqui, hoje, lutando!

E aproveito esse espaço para responder uma pergunta recorrente, que tem sempre alguém me fazendo: “você já está no terceiro ano do Médio, por que você está ocupando?” Eu sempre digo que não olho só pra mim, não penso só em mim. Eu consegui mudar devido a alguns ensinamentos de professores e eu pretendo fazer o mesmo, inclusive lecionar numa escola.

E uma coisa que não quero é ter alunos com medo, achando que são menos, porque o governo os aterroriza. Não quero nunca que eles pensem que não são dignos de luta. A ocupação é só o começo de uma grande História (sim, com H maísculo). Aprendemos sobre política, sobre problemas sociais, sobre nós mesmos, desconstruímos preconceitos… Podemos estar cansados, porque a ocupação cansa. Mas a lição que vamos levar daqui é maior do que qualquer coisa que já aprendemos na vida.

Gislane de Almeida Gomes, 17 anos, estudante da E.E. Plínio Negrão

 

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11 comentários

  1. Tentaram desligitimar o

    Tentaram desligitimar o protesto infatilizando as pessoas, como se a idade significasse ignorância ou vandalismo; mesmo que talvez seja esta a intenção com a destruição da educação. A intenção das pessoas darem risadas delas mesmas e das suas condições deploráveis alimentadas por um estado de excessão. Me parece que há no Brasil um processo de descreditamento do povo. Ou seja, tudo que ocorrer no Brasil não tem valor se não houver um apoio da classe dominante ou exteriorizada. O país vive com os olhos para as multinacionais, intelectuais e políticas exteriores. O que há por aqui não importa, ainda mais se vier de classes menos abastadas ou sucateadas pelo estado tomado pela elite. O povo também não ajuda, votando nos cadidatos mais pomposos e mais insesíveis quanto a eles mesmos. Esses candidatos acabam por utilizar a própria pompa para descreditar o povo sucateado dizendo: “Olhe pra mim, sou pomposo, tenho títulos da sociedade e este foi o maior motivo para votarem em mim; a inveja! Como podem acreditar que têm mais direitos do que eu? São apenas restos deseducados pelo sistema que criamos juntos, um sistema que privelegia aquilo que é pomposo e sucateia aquilo que não tem pompa e se depender de mim; nunca terá.”

  2.  
    Ai que a elite de merda se

     

    Ai que a elite de merda se desespera. Nada pior para a classe dominante que a concietização dos espoliados, dos roubados.  

    A educação para aprimorar a qualificação para o trabalho, tudo bem. Mais educar para pensar é um grande perigo. Esta é a razão para usar a polícia e reprimir a subversão da ordem democrática das oligarquias.

    Alckmin, estúpido! Esta meninada, é o futuro. Tú, e os teus, já são o passado. Apodreceram.

    Orlando

  3. Impressiona como so

    Impressiona como so comentários aqui no GGN mudam completamente na média quando se trata de uma luta de trabalhadores e estudantes sob uma administração do PT ou do PSDB.

  4. a ocupação nos libertou

    Nassif: as instituições públicas escolares no Estado de São Paulo, a partir de 1995, vem sofrendo uma “guerra” de desqualificação dos alunos e professores. Com o Sr. Mário Covas e a secretária da educação da época, Tereza N. da Silva, impuseram uma reorganização exatamente como esta. Os professores em greve, na Paulista, por ordem do governador, já falecido, tiveram que enfrentar a cavalaria e sofreram violências e humilhações, coisa que durante o golpe militar de 64, jamais existiu e era Secretário o sr. José Bonifácio Coutinho Nogueira e o governador era o sr. Paulo Egídio Martins. Os professores estavam nas ruas aos milhares, fazendo democraticamente as suas exigências. Na gestão Covas, os professores foram até o palácio do governo e o “general” intrépido, enfrentou a multidão e recebeu ovos na cara. Este governador autoritário não sabia nada de democracia e não conseguiu falar, pois foi vaiado o tempo todo. “êta homem macho”. A Secretaria da Educação, na praça da Republica, estava apinhada de professores, e o prédio da Secretaria estava fechado pelos grevistas que exigiam a presença de Rose da Silva.Amendrotada, ela entra em contato com seu chefe, o governador, que imediatamente e num grande rompante, escolheu enfrentar a multidão raivosa dos professores. Infelizmente, uma turma de grevista, radicais partiram para enfrentar o sr Covas que estava rodeado de guardas. Ele foi ferido e atacado por alguns grevistas. Covas enfrentou a turba irada e radical, que queria dialogar com as autoridades. Bombas de gás para todos os lados e o governador apareceu ferido na televisão global e se apresentou como herói. Tornou-se o governador que perseguiu o magistério durante todos os anos até à morte e durante o seu tratamento, apareceu na tv global e chorou. Lembrei- do poema de Gonçalves Dias, I Juca Pirama, em que o grande poeta romântico, narra o diálo do pai com o filho, numa cena dramática: “Tu choraste em presença da mort? Em presença de estranhos choraste? … Tu, meu filho não és…”  Agora nestes anos quke se seguilram, os demais governantes do psdb, têm promovido guerras contra os professores, e portanto, contra os alunos que frenquentam escolas públicas, e que são filhos de operários e trabalhadores das classes C, D, E. Abraços a todos e desculpem-me pelo longo stexto. FSabiano

  5. quando a Globo colocou na

    quando a Globo colocou na tela a cara do primeiro cara pintada collorido, não explicava de onde tinha vindo os milhões que gastaram com tinta e eu disse aos colegas que desse grupo iria nascer uma subraça politicamente corrupta bilhões de vezes pior do que a turma de Collor. De fato iriam reconhecer que Collor  foi era besta ante a capacidade de roubalheira que iriam implantar. Agora digo: dessa turma ocupadora de escola, irá produzir politicos que mais do que fechar , quiçá derrubar escola pública com todos dentro. Aguardem!!!!!

  6. ….

    Sem palavras! Uma geração de líderes está desabrochando! Interessante que ela praticamente, no meio do texto, citou a letra de comida dos Titãs (a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”)

     

  7. Oh tadinha, teve medo

    Oh tadinha, teve medo de apanhar da polícia? Vai lá tirar selfie com ele quando for nos protestos sabe-se lá do que contra a corrupção e tudo o que está aí. Tá com raivinha porque o tio Alckmim vai FECHAR (e não reorganizar) dezenas de escolas? Então pergunte para o papai, a mamãe e família em quem eles votaram nos últimos 20 anos, porque a destruição do sistema de ensino já vem acontecendo a mais de duas décadas em São Paulo, não começou da noite para o dia como esses jovens cabeça ocas acham. Assim como aqui no Paraná, o povo tem que sofrer muito mesmo na pele para quem sabe, talvez, começarem a levar a política mais a sério e não elejam e reelejam em primeiro turno os mesmos bandidos de sempre que até o reino mineral sabe que eles tem como único objetivo foder com o povo e encher seus bolsos.

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