Deficientes que atrapalham a escola? Ou a boca fala do que está cheia o coração? Por Pedro Pagni e Alexandre Filordi

Para quem possui sensatez, tal como a fé, ao menos do tamanho de um grão de mostarda, é impossível não se importunar com essa política de choque

Ministro da Educação, Milton Ribeiro. | Foto: Agência Brasil

Por Pedro Pagni (UNESP – Marília/CNPq) e Alexandre Filordi (UFLA/CNPq)

(Extraído do blog da Université de Angers: http://blog.univ-angers.fr/handicapsociete/page-d-exemple/)

Em dias recentes ouvimos três frases enunciadas pelo Ministro da Educação que nos fazem recordar os termos de Chico Buarque, na canção Rosas dos ventos: “E na gente deu o hábito de caminhar pelas trevas”. Tudo se articula como parte da estratégia de escudeiros fiéis do caos, onde cada partícipe do governo federal entrega, sem pudor, seu rosto à tapa para que o do presidente permaneça protegido.

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A primeira frase dizia que a “universidade deveria ser para poucos”. A segunda anunciava que “o aluno com deficiência atrapalha a educação dos demais na escola”, afinal lá estariam por uma concessão, dando o nome a ela de “inclusivismo”. E a última, do alto da sapiência do conselheiro Acácio, anunciou que diploma de universidade não adianta mais porque não há emprego. Neste último caso, o diagnóstico do poço sem fundo ao que eles conduzem o Brasil ganha corpo e alma.

Essas frases podem até circular no cotidiano de certas cabeças ocas, mas ditas pelo Ministro da Educação funcionam como metástase de delírio e de falta de respeito litúrgico ao cargo para o qual foi investido. Entretanto, sabemos que o senso comum vive dias glutões, dando voz e vez ao tom denotativo, a fim de fantasiar incompetência atroz com vestes de artifícios verbais. Ao cabo, o que se evidencia é o fato de quão está pouco preparado para exercer esse cargo, ou exercê-lo condicionado à sincronia dos demais partícipes desse governo míope, que apenas enxerga um pequeno público com seus respectivos cercadinhos.  

Para quem possui sensatez, tal como a fé, ao menos do tamanho de um grão de mostarda, é impossível não se importunar com essa política de choque. Já desejamos ser uma “Pátria educadora”, agora somos o quê? Em termos de educação, a paquidermia neoliberal, com sua insensibilidade ao que é humano, não se comove por destruir políticas da educação democrática e de inclusão. Os ataques verbalizados à educação são vômitos sulfurosos na pele das conquistas históricas de setores sociais importantes: do acesso à universidade pública à integração de diversas comunidades que compreendem as pessoas com deficiência como capazes de serem também eficientes a partir de suas singularidades. Afinal, educar é isto: permitir que a multiplicidade humana se efetive como humana, indistintamente da presumida eficiência mercadológica do corpo, da cor, do gênero, da etnia, da riqueza etc.

Como professores que somos, não poderíamos pensar na educação sem uma indagação, ou melhor, duas. A primeira: a quem interessa uma educação para poucos ou retomar essa política educacional com odor de império elitista com seus mandarins e seus bestializados? A segunda indagação: a quem atrapalha a presença dos alunos e das alunas com deficiência na escola? E para além de qualquer pergunta retórica, fazemos essa pergunta como pais de alunos em idade escolar e de uma aluna com deficiência intelectual.

A primeira pergunta é mais fácil de responder, uma vez que a formação elitista de nossa universidade vinha sendo modificada gradativamente com políticas afirmativas de cotas e inclusivas. Tais políticas, sobretudo, estavam num momento em que já se tornava absolutamente questionável a afirmação de que os alunos e as alunas cotistas eram privilegiados, até porque a sua maioria demonstrava ter maior desempenho, por vezes, maior criatividade, trazendo para o interior das universidades práticas que as faziam se rever; temas que ganhavam novos contornos e pesquisas que colocavam a comunidade inteira dentro da universidade. Obviamente, essas conquistas puseram em xeque, ao menos parcialmente, o elitismo da universidade brasileira com seu cancro de assujeitamento social, historicamente consolidado no Brasil sob inúmeras perversões. Aos poucos, a cultura catedrática hierarquizada das universidades e, nas últimas décadas, a meritocrática, passaram a ser tensionadas por uma vida sedenta em ir além da educação bancária e do “canudo” como mero capital elitista, fazendo da universidade também um laboratório da democracia. Mas isso nunca foi conveniente os poderes dominantes.

A segunda  pergunta é um pouco mais complexa, pois além de nosso interesse efetivo nela como campo de investigação, há um componente paradoxal, a saber: quem diz que “os alunos com deficiência atrapalham” é quem deveria estar oferecendo as condições para que não fossem vistos assim, insistindo numa melhor formação, qualificação e remuneração dos professores e das professoras para lidar com essa e outras diferenças na educação básica, elaborando políticas pertinentes ao setor (e não aquela suspensa por sua inconstitucionalidade pelo STF) e dando relevo, em um país como o nosso, à sua diversidade cultural, em vez de se hostilizar aqueles e aquelas que tanto prezaram por ela, como, por exemplo, Paulo Freire.

É curioso que se o Ministro pudesse perguntar aos presumidos alunos e alunas com deficiência – quem atrapalha o quê? – ou até mesmo aos seus pais, às suas mães e responsáveis, seguramente, iria ouvir: quem tem atrapalhado é o governo federal, com sua omissão e falta de quadro especializado, inclusive incapaz de, minimamente, conhecer os princípios constitucionais e das políticas públicas para esse campo. O que atrapalha também é a ambição para uma política que, como sobejamente sabemos, flerta com o genocídio diuturnamente. Por isso mesmo é tão normal fazer do juízo da exclusão o valor universal para a educação.  Mas também poderíamos perguntar aos demais alunos e alunas se os deficientes lhes atrapalham.  Como já testemunhamos várias vezes no chão das escolas, a grande maioria diria que tem aprendido muito com seus colegas com deficiência: aprendido o quão são resilientes; o quanto a norma é excludente, tendente à eugenia; que o convívio com as diferenças os torna muito melhor, mais sensíveis, democráticos e tolerantes, reconhecedores também de seus déficits e limites, dentre outras coisas.

A impossível convivência com as deficiências também pode ser situada no próprio lineamento da instituição escolar;  na dificuldade de seu corpo docente sobrecarregado de trabalho e com salários de fome, tocados por um formação precária, pois desinvestida pelo Estado; este, por sua vez, girando a roda  do desinvestimento na educação e em toda política de inclusão social.

Educar demanda coragem, ousadia, inteligência, criatividade e sensibilidade. O movimento de uma educação inclusiva, democrática e sensível às singularidades humanas não tem volta. E se comparássemos o Brasil com outros países em desenvolvimento ou desenvolvidos, veríamos que estamos anos luz distantes deles nas práticas educacionais inclusivas. Para um governo negacionista, esperar reconhecer o que ele mesmo nega seria um delírio de nossa parte.

Em tudo isso, porém, uma verdade, deve reconhecida. Como disse Jesus de Nazaré, que sabia muito bem o que era incluir os excluídos de todas as esferas: cegos, coxos, leprosos etc., e que o Ministro da Educação como pastor admira e prega: “raça de víboras, como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas? Pois a boca fala do que está cheio o coração”.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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