Educação e saúde: Será que é a hora de reabrir nossas escolas? por Anielle Franco

Para a professora "colocar a vida dos profissionais de educação, alunos e suas famílias em risco neste momento é desleal"

Reprodução

Jornal GGN – A professora Anielle Franco discute a situação da educação brasileira em meio a pandemia da Covid-19 no seu último artigo, publicado no Portal Geledés. O debate das voltas às aulas em meio a crise sanitária tem dividido opiniões, mas, para ela, o caos no setor não é novo e reforça que “colocar a vida dos profissionais de educação, alunos e suas famílias em risco neste momento é desleal”. Confira.  

do Geledés

por Anielle Franco

Esta semana, no Rio de Janeiro, fomos surpreendidas com a notícia que as escolas serão reabertas neste que é o pior momento da pandemia no Brasil. Após uma forte disputa, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro decidiu que mesmo o Rio de Janeiro registrando pessoas morrendo à espera de leitos de UTI, nós, professores e alunos, devemos retornar à sala de aula. O cenário onde a justiça toma tal decisão não poderia ser pior.

A determinação aconteceu na mesma semana em que pela primeira vez na história do país, o número de mortes ultrapassou o número de nascimentos na região sudeste, foram 13.998 nascimentos contra 15.967 óbitos no mesmo período. Nessa mesma semana, batemos mais um recorde de mortes, com mais de 4 mil óbitos por covid-19 em 24 horas e com a vacinação só agora chegando a 10% da população tendo tomado a primeira dose, e menos de 3% de fato imunizado. Nos dias onde os sistemas de saúde nas principais cidades do país estão em colapso, com profissionais de saúde exaustos e famílias inteiras morrendo na fila de espera por um leito de UTI.

A discussão sobre ensino e pandemia sempre foi complexa, eu, também enquanto professora, entendo que um dos sistemas mais desiguais do mundo é o da educação. No nosso país falta investimento, infraestrutura e condições de acesso e permanência igualitários para alunos pobres, negros, moradores de periferias e do campo.Desta forma, sabemos que as salas de aula fechadas trazem prejuízo para nossa população e para toda uma geração de jovens que tem na educação sua esperança de mudança de vida, mas este problema não é novo, e colocar a vida dos profissionais de educação, alunos e suas famílias em risco neste momento é desleal, e vai de contramão ao que muitos países do mundo estão fazendo agora, para frear a contaminação e o número de óbitos por covid-19.

Vale lembrar que mesmo após mais de um ano da pandemia no Brasil, o Ministério da Educação pareceu não ter tido tempo de se organizar para garantir, se assim fosse decidido, um retorno para a sala de aula com segurança para alunos e professores. Em 2020, a pandemia levou cidades a fechar escolas e adotar o ensino remoto, o Programa Educação Conectada, do Ministério da Educação, que tem o objetivo de ampliar a conexão de internet nas escolas, teve menos da metade das verbas do ano anterior, quando não havia pandemia, segundo levantamento da Comissão da Câmara dos Deputados que trata de educação.

Além disso, ao invés do governo federal ter aproveitado o período em que as escolas estavam fechadas para as aulas, para realizar melhorias na infraestrutura e adequação para um retorno seguro, ele apenas reduziu a verba destinada a investimento em infraestrutura das escolas do Ministério da Educação. Sendo assim, com que segurança nós, professores, vamos retornar para a salas de aulas que já eram precárias em condições normais e agora, são impossíveis.

Segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), no início da pandemia, o fechamento total das escolas foi uma medida adotada em praticamente todos os países do mundo, buscando reduzir a transmissão da covid-19 com base principalmente no conhecimento e experiência de pandemias anteriores, como as epidemias de influenza e de outros coronavírus, e considerando o fato que as infecções respiratórias virais eram importantes causas de adoecimento nas crianças. Apesar de inicialmente haver uma ideia de que crianças e adolescentes por desenvolverem sintomas graves da doença, não representavam um verdadeiro risco para a disseminação do vírus, já sabemos que com o surgimento de novas variantes esse cenário mudou.

A decisão de reabertura das escolas não deveria ser associada a uma demanda somente política e social, mas também alinhada com a saúde pública. Vários organismos internacionais consideram que o momento certo de reabrir escolas é quando as instituições públicas desenvolvem capacidades de identificar e bloquear cadeias de transmissão comunitária, onde o vírus não se espalhe tão rapidamente entre as pessoas da cidade. Hoje, só no Rio de Janeiro, segundo a Fiocruz, mais de 80% dos casos de covid-19 identificados são da variante P1, de origem amazônica, uma cepa em que os dados comprovam que têm maior capacidade de transmissão e podem atingir pessoas mais jovens e inclusive crianças.

No final, toda essa discussão mexe muito com nosso dia a dia, são nossas crianças e famílias em risco. O enfrentamento às nossas epidemias da fome, do vírus, da morte cotidiana deve ser baseado em políticas públicas de responsabilidade. Proteção social e de saúde pública engloba saber que a nossa vida tem valor! Precisamos sim reduzir as desigualdades educacionais, mas para isso, precisamos estar vivos, vacinados, para termos possibilidade – aí sim – de ajudar na produção de uma geração que transformará nossa sociedade.

Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, “Cartas para Marielle”, e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

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