Estado de sítio na educação, por Guilherme Boulos

Jornal GGN – Em sua coluna de hoje na Folha de S. Paulo, o membro da coordenação nacional do MTST, Guilherme Boulos, comenta sobre os protestos nas escolas públicas do estado de Goiás contra a proposta de passar 30% das unidades de ensino para gestão das Organizações Sociais.

Para Boulos, a proposta é uma evidente privatização “branca”, ressaltando que o Ministério Público do Estado recomendou que o edital fosse adiada porque estava com irregularidades. Ele também comenta sobre as 26 escolas goianas que são administradas pela Polícia Militar, e diz que o governador Marconi Perillo  segue o exemplo de seu colega de partido Geraldo Alckmin, ao tentar remodelar o ensino “sem qualquer debate com a sociedade”. Leia mais abaixo:

Da Folha

 
Guilherme Boulos
 
Neste momento há 31 estudantes e professores presos em Goiás por protestarem pela educação pública. Dentre eles 13 menores. Na última segunda-feira (15), a PM goiana entrou violentamente na Secretaria de Educação – que estava ocupada – e prendeu o grupo.
 
Antes disso, o governador Marconi Perillo (PSDB) já havia despejado os estudantes secundaristas de 28 escolas ocupadas em uma onda de protesto contra a privatização do ensino estadual.
 
Tudo começou com um decreto do governador no final do ano passado repassando 30% das escolas goianas para gestão das famigeradas Organizações Sociais (OS). A iniciativa prevê a terceirização de serviços escolares, a contratação privada (sem concurso) de até 70% dos professores e 100% dos funcionários, dentre outras medidas.

 
Trata-se evidentemente de uma privatização “branca” do ensino. O próprio Ministério Público do Estado recomendou nesta semana o adiamento do edital das OS, por estar repleto de ilegalidades, incluindo o repasse de recursos do Fundeb para a iniciativa privada. Nas palavras do promotor Fernando Krebs: “Chegamos à conclusão que o projeto referencial é inconstitucional. Vai piorar a qualidade da educação. Vai promover a terceirização, a privatização às avessas da escola pública”.
 
Foi este despautério que motivou a mobilização de estudantes e professores, reprimidos com violência e prisões pela PM.
 
Mas não é de hoje a paixão do governador Marconi Perillo por tratar a educação como caso de polícia. Desde 2014, seu governo tem implementado um inacreditável processo de militarização das escolas, que também foi alvo das manifestações.
 
A polícia militar já havia assumido até o ano passado a gestão de 26 escolas, tornando Goiás o Estado com o maior número de colégios militares no país. Sob os princípios da “hierarquia e da disciplina”, oficiais da PM estabelecem a regra do medo, mandam e desmandam no ambiente escolar.
 
Nas escolas militarizadas passou a ser exigido o uso de farda militar por todos os alunos. Os meninos precisam ter cabelo curto e as meninas são obrigadas a prendê-los. As gírias foram proibidas, assim como o esmalte de unha, o beijo e os óculos com armação “chamativa”. A continência tornou-se obrigatória na entrada, para os professores e também entre os alunos.

Para completar foram inseridas novas disciplinas no currículo, como a “Ordem unida” – sabe-se lá o que seja isso, coisa boa não é. Assim como a “sugestão” de uma taxa de matrícula de R$ 100 e de mensalidade de R$ 50, em valores de 2014, possivelmente já reajustados nos dias de hoje. O governo pretende militarizar mais 24 escolas neste ano.

O capitão Francisco dos Santos, diretor da escola Fernando Pessoa, exalta numa matéria da BBC o fim da violência no colégio. Também pudera. Impondo estado de sítio e intimidação permanente o resultado seria esse. O preço é rifar o futuro, jogando o pensamento crítico e a democracia na lata do lixo. A gestão militar da escola adestra os jovens de hoje para a gestão militar da sociedade.

A repressão ao movimento dos estudantes secundaristas por essa mesma polícia é expressão cabal disso.

Perillo seguiu o exemplo de seu colega de partido Geraldo Alckmin ao tentar remodelar o ensino à força, sem qualquer debate com a sociedade. Que, enquanto é tempo, siga novamente Alckmin, desta vez para recuar das medidas perante o rechaço da comunidade escolar. É preciso libertar imediatamente os 31 presos e recuar do projeto de privatização e militarização das escolas.

Caso contrário, Goiás será lembrado como o laboratório da barbárie na educação brasileira. 

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4 comentários

  1. Como diria o Tom: é o fim da picada!

    Como em SP, o governo de Goias esta passando a força essa reorganização autoritaria e fascista da educação estadual. Um horror total o que estão fazendo nos dois estados e vai saber como esta a coisa nos outros estados. O Governo Federal, através do Ministério da Educação tem que intervir. E os intelectuais desses estados? Vamos dar apoio aos professores e estudantes que estão nos alertando para essas reformas que tendem a tornar a educação publica ainda pior do que ja é. Até conseguirem acabar de vez com ela.

    Eh preciso sim uma reforma na Educação Brasileira, mas o que tem feito Geraldo Alckmin e Marconi Perillo é precarizar ainda mais a educação e excluir as familias que não podem pagar 100 reias numa matricula e pior ainda, mensalidade todo o mês.

    E essa de escola publica nas mãos de militares? Quem quer entrar para uma escola militar, muito bem, mas quem não tem nada com isso e precisa estudar numa escola proxima de seu endereço ou do trabalho, deve ser forçado a essa totalização dentro de um escola publica que se deve ser laica e plural ?!

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