Liberdade para a educação, mas não império do lucro, por Weden

Por Weden

Liberdade para a educação, mas não império do lucro

Ref. ao post: Por mais liberdade de escolha na Educação, por Gunter Zibell

Em resposta ao artigo de Gunter Zibell

Querido, você me motivou a fazer algumas observações sobre seu texto “Por mais liberdade de escolha para a educação” (03/11/2015). Organizei em tópicos os comentários.

1. O melhor desempenho no Pisa não é de escolas privadas, mas de públicas federais. É também o modelo que mais chega perto daqueles mais bem sucedidos no Ocidente, como o de países nórdicos, com exceção da Suécia.  Isso  porque boa parte destas instituições de ensino federal está vinculada às universidades. É aí que entra o aspecto mais interessante: a estreita relação entre a formação qualificada do professor e proximidade do que há de mais atual em educação, tanto do ponto de vista das metodologias, como da propriedade dos conteúdos.

2. A diferença entre as escolas particulares e públicas não é tão grande quanto parece. Evidentemente, a mídia de um modo geral escolhe “os melhores casos entre as privadas e os piores entre as públicas” para comparar. Aí fica fácil. Na média geral, a diferença não passa de um ponto percentual (numa escala de 0 a 10) entre privadas e públicas.

3. A Suécia privatizou o ensino – deu mais liberdade de escolha para as famílias – e o resultado foi catastrófico. Saltou dos primeiros lugares do Pisa para o 35o lugar na última avaliação. O que aconteceu? As escolas que começaram a receber aportes do Estado investiram na embalagem, para atrair alunos,e esqueceram o conteúdo. Como dizem alguns críticos: até em shopping construíram colégios, mas esqueceram de cuidar daquilo que o ensino público da Suéca sempre prezou: bom conteúdo e método.

4. “Preferências ideológicas” há sempre. Não é possível não ter posicionamentos. A menos que se acredite em neutralidade. Ora, um simples comercial de televisão é ideológico, não? No ensino superior federal, por exemplo, se levarmos em conta a desproporção de força entre áreas humanas, por um lado,  e tecnológicas  e exatas, ciências naturais e da saúde, por outro, é quase certo que nossas universidades sejam quase que maciçamente liberais de direita ou conservadoras. Pense que entre as Ciências Sociais Aplicadas, temos ainda Comunicação, Administração e Economia…não precisamos ir longe, não?

5. Curosamente, suas bandeiras, sempre muito justas, são tradicionalmente defendidas por setores progressistas (ok, no cenário brasileiro, estas bandeiras são progressistas). Se eu tratar do racismo sofrido pela atriz da Globo em sala, eu estarei, portanto, assumindo uma posição. Se falar de igualdade de gênero e respeito às orientações sexuais também.

6. Não é preciso criminalizar escolas privadas. Mas é preciso tomar cuidado com os limites de interesses do mercado. Lucro não pode se sobrepor como valor  ao ensino. Que elas existam. Mas nada de aportes públicos. A lição do Prouni – não descartando os benefícios trazidos – deve ser levada em conta. Financiou boas instituições, mas produziu conglomerados bilionários, de enorme poder político, e educação ruim. Não será diferente se passarmos a encher de dinheiro grandes grupos subsidiando ensino básico privado. Muitas vezes oferecendo uma educação de péssima qualidade, além de tratar professores como mercadorias dispensáveis.

7. Temos um problema sim. Nossa arrecadação total, e, portanto, nossas receitas para a educação, é apenas de  um terço do que dispõem os  países ricos. Uma pena. Mas essa é a realidade. Imagne a tragédia, se perdermos ainda mais em arrecadação, com isenções indecentes e renúncias fiscais solapando o ensino público?

8. É bom não jogar a água suja da bacia junto com o bebê. Infelizmente, a midia, por interesses políticos,  não lê de forma correta a progressão da avaliação do ensino no Brasil. Além de recorrer a grupos como o Todos pela Educação, de interesses duvidosos.

9. Vamos a alguns dados: a universalização da escolarização – prevista na  última Constituição – se completou em 2000 com FHC. Mas “escolarização” é basicamente “disponibilizar escolas para crianças”. Há processos de desescolarização, por exemplo, que são as evasões. É preciso compreender que há determinantes sociais para o ensino. Assim, crianças em estado de míséria e absoluta precariedade dificilmente terão desempenhos ótimos. A formulação clássica “educar para sair da miséria” é um engodo, se você pensar as terríveis consequencias para o ensino quando concorre com situações de fome, violência e abandono social.

10. Era evidente que tínhamos que melhorar um pouco estas condições. A “escolarização universal de FHC”, portanto, precisava contar com a resolução de algumas determinantes para que começasse a ser bem sucedida. E vêm sendo paulatinamente. Há um campo imenso de discussão, por exemplo, sobre o impacto do Luz para Todos na vida das crianças. Isso não é feito pela mídia. Talvez a academia um dia o faça, se já não o estiver fazendo. Ainda assim, tivemos uma evolução de 3,2 pts., na primeira avaliação IDEB para as séries iniciais, para 4,8 pts.  em apenas 10 anos (pense que, no ensino privado, este número, que começou num patamar mais elevado, pouco supera os 5 pts.). Como você sabe, as avaliações do IDEB acompanham a metodologia Pisa, mas com contagem diferenciada, mais ou menos na relação 2/1 (6 no IDEB  equivale a 3 no PISA). Se a meta é superar os 6 pts, nova evolução semelhante em igual período nos igualará à média de países desenvolvidos nesta faixa etária. Não é pouco, se considerarmos que somos um país,  como já dito acima, com um terço da arrecadação necessária.

11. Há um outro fator importantíssimo: em muitas famílias, as crianças de agora são as primeiras a serem escolarizadas. Pense que a cultura escolar, portanto, começa agora a fazer parte de muitas gerações. E é isso que explica que o desempenho em regiões com escolarização mais recente (como em muitas localidades do Nordeste do país) é mais baixo que em outros. O país deve aperfeiçoar os métodos e rever metas sim. Mas é preciso tomar cuidado em não desconsiderar progressos – como a extraordinária queda no iletramento. Mais uma vez, a imprensa desempenha um papel cruel aí. Tudo é fracasso, quando se trata  de governo federal. Mas até fechamento de  escolas é interessante para governos amigos.

12. Estranho que a fórmula  chilena está sendo revista agora por Bachelet, não? Considere ainda a condenação da ONU à solução neoliberal daquele país para a educação. Por um motivo: país com escolarização massiva  muito antiga – bem mais que no Brasil – o Chile está vendo seus índices decaírem há 30 anos, desde que os Chicago Boys convenceram  Pinochet a financiar ensino em escola paga. Se hoje o Chile ainda é melhor em média que o Brasil nos índices do Pisa (lembre-se da diferença populacional,  no entanto, além da extrema desigualdade brasileira), é porque antes de Pinochet já era. Aliás, muito mais. Enquanto isso o Brasil vai se aproximando.  Ao menos, já passou a Argentina. Outra antiga sociedade escolarizada.

 

Bem, é isso.

 

Abraços

 

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