Na USP, número de docentes não acompanhou aumento dos cursos

Jornal GGN – Vladimir Safatle, colunista da Folha de S. Paulo, analisa a crise da Universidade de São Paulo comparando dados do número de alunos da graduação, mestrandos, doutorandos e dos professores entre os anos de 1989 e 2012. Os números revelam que a USP teve aumento de 83% no número de alunos, passando de 31 mil em 1989 para 58 mil em 2012, e também um crescimento de 88% nos cursos oferecidos, pulando de 132 em 1995 para 249 em 2012, graças, principalmente, a construção de novos campi, como a USP Leste. Entretanto, o número de professores não cresceu no mesmo ritmo: somente 4% no mesmo período, aumentando a relação aluno/professor de 8 por 1 para 15 por 1.

Enviado por Vladimir

Da Folha

Números não mentem

VLADIMIR SAFATLE

Todo brasileiro reconhece que educação e pesquisa são nossos problemas mais decisivos. Por isso, a sociedade tem o direito de formar sua opinião a respeito do que acontece em seu mais importante centro de pesquisas e formação a partir do maior número de dados possíveis. A solução da crise pela qual passa a Universidade de São Paulo exige um debate público e aberto a respeito das responsabilidades do estado brasileiro e de seus entes federados.

No entanto, há de se reconhecer que a sociedade não tem recebido as informações necessárias para criar um quadro claro a respeito das causas da situação difícil pela qual a USP passa atualmente. Como se costuma dizer, números não mentem.

Nos idos de 1989, a USP tinha 31.897 alunos de graduação, além de 8.486 mestrandos e 4.428 doutorandos.

Em 2012 este número era 58.303 alunos na graduação (aumento de 83%), além de 13.836 mestrandos (aumento de 63%) e 14.662 doutorandos (aumento de 231%). Só entre 1995 a 2012, a universidade passou de 132 cursos oferecidos a 249, contabilizando um aumento de 88,6%, com toda a necessidade de investimento em infraestrutura para tais cursos novos. O que não deveria nos estranhar, já que, neste período, a universidade incorporou ou criou campi como os de Lorena, Santos e a USP Zona Leste.

Agora, e isto deve ser realmente sublinhado, mesmo com tal ampliação substantiva, o número de professores no mesmo período cresceu apenas 4%, passando de 5.626 a 5.860, ou seja, praticamente nada. Mas o mais impressionante é que o número de funcionários simplesmente caiu (sim, caiu) 5%, passando por sua vez de 17.735 a 16.839.

Dessa forma, a relação aluno/professor aumentou de 8 por 1 para 15 por 1 neste período, o que está longe de configurar uma instituição “inchada”, como nos foi sugerido.

Só a título de comparação a relação aluno/professor em Harvard é 7 por 1. A Universidade Católica do Chile teria passado a USP em certos rankings internacionais exatamente por ela ter uma relação aluno/professor menor. Com o congelamento da contratação de novos professores, a situação será ainda pior.

O que se tira disto é que os professores e funcionários da universidade precisam responder por mais atividades com um salário que, comparado ao recebido em 1989 por um docente, teve o seu poder de compra reduzido em 9,5%.

Estes números demonstram que a USP tornou-se uma universidade de massa em plena expansão sem ter recebido do Estado as condições para tanto. Ela é apenas um capítulo a mais da demissão do Estado em relação à educação pública.

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8 comentários

  1. economia de escala

    Prof.

     

    Sou aluno da USP.

    Sinto que os professores  fazem  a USP de  escada.

    Fazem seus horarios de aula  de acordo com as conveniencias parrticulares.

    Isso  esta  errado.

    Quero professor  trabalhando  em sala de  aula.

    A USP  é dos alunos não é dos professores.

    Chega de usar a USP como curriculum.

    • Não seria melhor?

      1, Dizer qual é a sua faculdade na USP

      2. Não estender levianamente a toda universidade e professores uma queixa específica a seu curso.

      Por último, a USP é uma universiade pública portanto não é, exclusivamente, nem dos alunos nem dos professores.

  2. Na mesma página, editorial da

    Na mesma página, editorial da FSP apresenta números completamente contraditórios aos apresentados por Safatle. Seria bom mencionar as fontes.

  3. Números não mentem
    Números não mentem mesmo!

    Nesta história toda a novidade é um reitor que bate na própria universidade quando deveria estar batendo no lado da receita.

    Um cara destes não serve para o cargo. Pode até ser bem intencionado mas o fato é que se perdeu.

  4. Isso é só a ponta do iceberg

    As universidades públicas, tanto as estaduais como as federais, vivem de uma fonte de verba que jorra de forma semelhante a uma goteira, os resultados são a falta de estrutura, falta de recursos básicos e truculência dos governos nas campanhas salariais e greves. Nem os royalties do petróleo serão suficientes pra termos uma educação de primeiro mundo.

  5. Em defesa da USP

    correiocidadania.com.br: Em defesa da USP

    ESCRITO POR DOCENTES MOBILIZADOS DO INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS    

    SEXTA, 15 DE AGOSTO DE 2014 

    Ensino e pesquisa científica e tecnológica de qualidade são fundamentais para o desenvolvimento de qualquer país. Universidades, em especial as públicas, são responsáveis pelos melhores cursos de graduação e de pós-graduação e por parcela significativa da pesquisa científica e tecnológica no Brasil. O ‘produto’ final dessas atividades, que é a geração e transmissão do conhecimento, contribui para o desenvolvimento e a autonomia da sociedade. O conhecimento e tecnologia gerados repercutem diretamente na saúde, educação e nos setores agrícola e industrial, além de subsidiar políticas públicas nessas áreas. As universidades públicas contribuem também para a formação de profissionais especializados, independentes intelectualmente e críticos, de modo que a sociedade seja capaz de refletir e encontrar soluções para seus problemas e de planejar o seu futuro.

     

    A Universidade de São Paulo (USP) se destaca nesse sentido. Ela é responsável pela formação de cerca de 30% dos doutores e de 25% dos mestres do país. Além disso, cerca de 25% de toda a produção científica brasileira é gerada nesta universidade (http://rusp.scielo.br/pdf/rusp/n89/05.pdf). Há décadas, a USP vem formando Mestres e Doutores que atuam em instituições de ensino e pesquisa em todas as regiões do Brasil. Esse desempenho vem sendo possível porque a maioria dos docentes se dedica integral e exclusivamente à docência e à pesquisa.

     

    Tem-se veiculado que a USP enfrenta dificuldades financeiras, com 105% de seu orçamento comprometido com a folha de pagamento, e que essa crise foi gerada recentemente. Essas dificuldades, lamentavelmente, vêm sendo atribuídas ao crescimento dos salários dos servidores docentes e não docentes, e à prática de gastos excessivos. De tais alegações, a única que resiste a uma análise objetiva dos fatos é a de que a USP enfrenta dificuldades financeiras.

     

    As demais não se sustentam e representam conhecidos ataques à universidade pública, como tão bem analisados no artigo “A importância da universidade pública” (Ciência Hoje, 28, No. 165, 2000, http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/revista-ch-2000/165/pdf_aberto/UNIVERS.PDF), cuja leitura recomendamos enfaticamente.

     

    Os indicadores da USP evidenciam com clareza a origem da atual crise financeira: as dificuldades surgiram como consequência da significativa expansão das atividades de ensino de graduação e pós-graduação, de pesquisa, e de cultura e extensão na USP, ao longo dos anos, sem um correspondente aumento na dotação orçamentária por parte do governo do estado de São Paulo.

     

    A Tabela abaixo traz alguns desses indicadores da USP, juntamente com a variação do número de servidores docentes e não docentes, assim como uma comparação relativa do salário básico da maioria dos docentes, nos anos de 1989 e 2012.

    Nos últimos 23 anos, enquanto o número de alunos em todos os níveis aumentou 83% a 231% e o número de graduandos, mestrandos e doutorandos aumentou 110% a 307%, o número de docentes aumentou apenas 4%. Além desse incremento nas atividades de ensino, a publicação científica qualificada aumentou 875%. Somam-se a isto as atividades de cultura e extensão que também aumentaram substancialmente, como o número de visitantes nos museus e à Estação Ciência, bem como o atendimento médico e odontológico no Hospital Universitário. Apenas em 2012, foram registrados 1.143.663 atendimentos neste hospital.

     

    A maioria dos docentes da USP dedica-se exclusivamente e em tempo integral às atividades de ensino de graduação, pós-graduação, pesquisa, cultura e extensão, além de atividades administrativas. É notável que uma melhora substancial de todos os indicadores dessas atividades tenha ocorrido a despeito do pequeno aumento no número de docentes (4%) e até mesmo uma redução no número de servidores não docentes (-5%). Parte dessa melhora pode estar relacionada ao aumento de 49% no número de doutores no corpo docente e também ao fato de que aumentou a percentagem de docentes em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa (18%).

     

    A obtenção do título de Doutor, comumente antecedida pelo Mestrado, demanda aproximadamente 6 a 10 anos adicionais de estudo e pesquisa científica e/ou tecnológica após a graduação. Frequentemente, é seguida por 1 a 3 anos de pós-doutorado, realizado no exterior na maioria das vezes. Assim, os indicadores mostram que houve uma melhora na qualificação dos docentes da USP, com benefícios diretos para a qualidade da formação de seus estudantes.

     

    Em suma, esses números revelam que a USP fez o que se espera de uma instituição pública: melhorar sua eficiência na utilização dos recursos nela investidos e devolver à sociedade profissionais, serviços e produtos de qualidade.

     

    Nesse mesmo período, constata-se que os salários dos docentes sofreram uma redução de 9,5% do seu poder de compra. Portanto, considerando que o número de docentes aumentou apenas 4% no período analisado, que o número de servidores não docentes diminuiu 5%, e que o poder de compra dos salários dos docentes diminuiu 9,5%, é certo que as dificuldades financeiras da USP não decorrem de aumento dos salários. Como teriam surgido, portanto?

     

    Em julho de 2005, o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (USP, UNICAMP e UNESP) enviou ofício ao governador Geraldo Alckmin solicitando um acréscimo de 0,695% da quota-parte sobre o ICMS líquido destinado às três universidades (Of. CRUESP n° 22/2005 –http://www.sintunesp.org.br/cruesp/Oficio%20CRUESP%20022_2005.pdf). Os Reitores justificaram essa solicitação alegando:

     

    1) os esforços bem sucedidos dessas três universidades para expandir a quantidade de vagas na graduação à razão de 5% ao ano entre 2001 e 2005, em plano conjunto com o governo do estado de São Paulo, idealizado em janeiro de 2001;

     

    2) a necessidade de providenciar novas salas de aula, laboratórios e equipamentos de infraestrutura para acomodar essa nova população de alunos;

     

    3) o fato de que a expansão representaria “uma forte pressão sobre o orçamento das universidades”, portanto, apresentando estimativas de despesas regulares com pessoal e outros custeios para a manutenção das atividades;

     

    4) a quantidade de recursos necessários para a incorporação de outras Instituições de Ensino Superior isoladas (FAENQUIL, FAMEMA e FAMERP), incorporação esta solicitada pelo próprio governador Alckmin;

     

    5) a existência de dificuldades estruturais decorrentes do modelo de financiamento adotado quando do estabelecimento da autonomia das universidades, que deixou de considerar diversos fatores, entre eles o fato de que “pressões sobre o orçamento advindas do crescimento do quadro de pessoal aposentado estatutário, que continua vinculado à folha de pagamento, e do aumento da demanda de serviços oferecidos pelos hospitais universitários reduziram drasticamente o orçamento de custeio e investimento das três universidades”.

     

    Já em 2005, portanto, os reitores das universidades estaduais paulistas alertaram sobre a delicada situação financeira das instituições, após terem executado a expansão planejada em 2001, conjuntamente com o governo estadual. A solicitação de mais recursos não foi atendida pelo governador Alckmin, muito embora o mesmo tenha participado do planejamento que levou à expansão das universidades, nem pelos seus sucessores, agravando o quadro financeiro da USP ao longo dos últimos nove anos.

     

    Mais recentemente, houve uma reestruturação da carreira dos servidores na USP, trazendo uma perspectiva de progressão baseada no mérito. Não se deve confundir essa progressão por mérito com reajuste de salários.

     

    A crise atual da USP é principalmente política. Ela decorre da tentativa da atual gestão de financiar a expansão previamente acordada com o governador por meio de arrocho salarial dos servidores docentes e não docentes. Professores, funcionários e alunos da USP fizeram a sua parte e ampliaram seu serviço à sociedade. Trata-se de um esforço continuado para formar mais e melhores profissionais, e para atender às demandas de pesquisa e inovação para nosso desenvolvimento.

     

    As universidades estaduais de São Paulo são um patrimônio intelectual, científico e tecnológico inestimável do estado e do país. A ampliação de sua contribuição à sociedade é necessária e está em curso, mas deve ser feita com a valorização de seus profissionais, por meio de reajustes salariais que pelo menos compensem as perdas geradas pela inflação.

     

    A atual crise estrutural e financeira não pode ser interpretada e tratada segundo uma ótica simplista e equivocada, como tem ocorrido na maioria dos meios de comunicação. A redução da jornada de trabalho de docentes, apresentada como uma possível “solução” para a crise financeira da USP, representa um dos ataques mais brutais ao espírito que norteou sua fundação há 80 anos, pois é consenso que o regime de dedicação integral à docência e à pesquisa é um dos principais responsáveis pelo sucesso da instituição.

     

    A intransigência da atual reitoria, se mantida, levará à degradação dos salários, das condições de trabalho e da própria excelência da USP, colocando em risco o futuro da instituição.

  6. De fato, o aumento do numero

    De fato, o aumento do numero de professores ficou muito atrás do aumento do numero de alunos. Nao deveria ter aumentado na mesma proporção, mas a defasagem é grande demais. Mas não tem cabimento utilizar Harvard “só a titulo de comparação”. Harvard é uma universidade com uns 7 mil estudantes de graduação (tem mais de pós e escolas profissionais). E esses estudantes de graduaçlão pagam uns 60 mil dolares anuais por um bacharelado. Talvez fosse mais realista (um pouco mais) comparar com uma grande universidade publica, como a unidade Berkeley da Universidade da California, com uns 35 mil estudantes (uns 25 mil de graduação) e uma razão professor/estudante que é proxima da USP. Embora a universidade pública, nos EUA, tambem cobre  anuidade (se nao me engano, em Berkeley, um pouco menos de 15 mil dolares). Mas mesmo essas comparações (com o setor publico) podem ser apenas aproximadas. 

  7. Números…

    Não adianta comparar a USP com Harvard: em 1989 ou em 2012 elas já eram o que são. Engraçado que Harvard não publica a quantidade de professores de suas escolas. Eles usam uma tal “contagem equivalente de estafe” (http://oir.harvard.edu/files/huoir/files/harvard_fact_book_2011-12_final.pdf) que não tem nada a ver com a quantidade de mestres. Sem esquecer que a maioria esmagadora dos professores em Harvard não são “full-time”.

    Só para ficar nos números: a comparação 1989/2012 faria sentido se os professores ainda dessem suas aulas da mesma forma que o faziam em 89. A alternativa é que eles ainda consumam giz, apagador e papel (sem falar nos mimeógrafos) com a mesma sofreguidão de antanho. No caso deste professor não seria surpresa…

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