No sudeste, legado de Paulo Freire é semente para educação do campo

Desafio das escolas durante a pandemia é desenvolver atividades remotas que dialoguem com a realidade de estudantes Sem Terra

Campanha “Volta às aulas na pandemia é crime” denuncia os riscos do retorno às aulas no período de pandemia. Foto: Coletivo do Acampamento Pátria Livre em MG

da Página do MST

No sudeste, legado de Paulo Freire é semente para educação do campo

Por Comunicação da Região Sudeste/MST
Da Página do MST

Patrono da educação brasileira, Paulo Freire é reconhecido mundialmente por sua obra e legado que neste mês de setembro completa 99 anos. O compromisso com a alfabetização e a construção de uma pedagogia crítica estão no centro das práticas educativas no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)Para Matilde Lima, camponesa do Setor de Educação do MST, o legado de Freire no movimento vai além.

“Um dos legados fundamentais para nós é que Paulo Freire cultivava uma profunda crença no povo. Ele acreditava que o povo era capaz de ser sujeito da história. Freire como educador sempre teve uma postura firme e coerente ao lado do povo, temperada com essa enorme capacidade de cultivar sonhos e construir esperança ”, afirma a educadora mineira. Ela ainda ressalta a postura humilde de Freire, sempre disposto a aprender com o outro no fazer cotidiano.

É neste contexto e acreditando na atualidade do pensador que acontece a programação virtual de Belo Horizonte da 24ª Semana Paulo Freire até o final de setembro. Diretora da escola estadual Carlos Henrique Ribeiro dos Santos, na Zona da Mata (MG), Caroline Rodrigues falou sobre educação no contexto da Reforma Agrária.

“As escolas dentro dos assentamentos e acampamentos da Reforma Agrária surgem a partir da organização das família, do Setor de Educação e da luta do povo. São conquistadas, fruto do trabalho coletivo de mutirões. A construção coletiva dá o rumo para a escola que nós queremos, que é pautada na vida mas extrapola ela, partindo da nossa realidade para pensar o mundo e os conhecimentos necessários para compreender a totalidade de onde estamos inseridos. A escola dentro das nossas áreas tem esse desafio constante de construir a liberdade”, disse Caroline, integrante do Coletivo Estadual de Educação do MST.

Educação do Campo

Segundo Manuela Aquino, da Direção Estadual de São Paulo, no último levantamento foram contabilizadas 56 escolas estaduais em áreas da Reforma Agrária no estado. Porém, ainda não existem dados referenciais por parte da própria secretaria estadual de educação, que apenas em 2018 iniciou um diagnóstico sobre as escolas do campo em São Paulo e quais delas estão em áreas de assentamento. As escolas abrigam o trabalho com crianças Sem Terrinha, jovens e adultos. Estes últimos a partir das turmas de alfabetização (EJA) e o método cubano “Sim, eu posso”, que vem se desenvolvendo em experiências concretas  na Escola Popular Luís Ferreira, no acampamento Marielle Vive, em Valinhos (SP), e na Escola Popular Ana Primavesi, no assentamento Agroecológico Egídio Brunetto, no município Lagoinha, na regional do Vale do Paraíba (SP).

Escola popular de agroecologia Ana Primavesi na cidade de Lagoinha, regional do Vale do Paraíba, em São Paulo. Foto: Comunicação MST-SP

Além das escolas rurais, o MST  São Paulo conta com três centros de formação: Instituto Dom Hélder Câmara (Regional Ribeirão Preto), Instituto Laudenor de Souza (Regional Sudoeste) e Escola Estadual Rosa Luxemburgo (Regional Iaras). Neles, realizam-se cursos de formação técnica em parceria com outras instituições de ensino, como curso Integrado Médio Técnico em “Cooperativismo e Agroecologia” realizado pelo PRONERA desde 2015, ou os Mini Curso “Questão Agrária, Cooperação e Agroecologia”. Ambos ocorridos na Escola Estadual de Educação Popular Rosa Luxemburgo, localizada no assentamento Rosa Luxemburgo, no município de Agudos (SP), em parceria com a UNESP.

Diante do atual contexto de Covid-19, não estão sendo desenvolvidas atividades presenciais, porém, diz Manuela, “temos observado que durante a pandemia as escolas que estão dentro das nossas áreas tem conseguido desenvolver atividades mais próximas dos estudantes. Inclusive elaborando materiais específicos e de acordo com a realidade das crianças e adolescentes”.

“A realidade no estado é muito diversa, porém um ponto em comum é a pressão pelas atividades remotas e por aplicativos sem que seja levada em conta a realidade dos estudantes e a falta de acesso aos meios tecnológicos, aos pacotes de internet e etc, o que vem acarretando a baixa participação estudantil e o aumento da jornada de trabalho aos educadores e educadoras”, reflete Manuela Aquino.

Através do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), estão em andamento 12 turmas de Educação para Jovens e Adultos (EJA) em acampamentos e assentamentos no estado do Rio de Janeiro. Segundo Alexandre Pinto, do Setor de Educação estadual, a maioria das escolas está localizada no município de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense.

Sem previsão de retorno, algumas escolas do campo tem oferecido bolsa alimentação e atividades de ensino remoto. É o caso da Unidade Pedagógica em Agroecologia no acampamento Edson Nogueira, em Macaé, Regional Lagos do MST no Rio de Janeiro. A escola, inaugurada há dois anos, oferece aulas práticas e teóricas que abordam diversos temas da vida camponesa como gestão do trabalho cooperado e conservação ambiental.

Unidade Pedagógica em Agroecologia no acampamento Edson Nogueira, em Macaé (RJ), interrompeu atividades presenciais na pandemia. Foto: Comunicação MST-RJ

“Todas as nossas aulas foram debaixo de duas mangueiras gigantes, bem ao estilo Paulo Freire. E também no sentido de vincular teoria e prática, como diz o grande mestre”, afirma Alexandre Pinto.  Em função da pandemia, o longo período de formação foi interrompido na semana seguinte da inauguração de um barracão para atender a Unidade Pedagógica.

“Tivemos o ano todo de 2019 de aulas, com diversos temas pertinentes ao nosso contexto. Seguimos com esse projeto da Unidade Pedagógica, e a construção dessa escola existe no nosso imaginário com salas de aula, refeitória, biblioteca, refeitório, anfiteatro”, projeta.

“Volta às aulas na pandemia é crime”

Segundo um levantamento realizado pelo Comitê de Educação do Campo do Espírito Santo, educadores estão encontrando muita dificuldade de produzir materiais para Educação Infantil e EJA, pois não visualizam possibilidade de alfabetização a partir das metodologias não presenciais. Apesar de não atender a realidade dos alunos do campo, famílias e estudantes acham importante preservar a saúde e segurança em relação à contaminação pela Covid-19.

“Meus filhos estudam em escola agrícola em período integral, com estudantes de vários locais do município e municípios vizinhos. Fico com muito receio em mandá-los para escola. Primeiro porque eles têm contato a tudo e todos, é a forma da pedagogia aplicada na escola. É muito triste o cenário atual do estado, do país e do mundo em termos de educação. Mas acredito que esperar o número de casos diminuir ou a fórmula da vacina seja a melhor alternativa”, relata uma mãe para a pesquisa.

O governo do estado do Espírito Santo chegou a implementar o Programa Escolar com Atividades Pedagógicas Não Presenciais (APNPs), com pacotes de vídeo aulas adquiridas do Estado do Amazonas, transmitidas por aplicativo, site e canal de TV. Mas a realidade dos estudantes revela precariedade das condições de acesso e até mesmo ausência de internet e equipamentos apropriados.

O diagnóstico apontado no estudo que ouviu educadores, familiares e servidores é de que “as APNPs deveriam ter a finalidade de revisar conteúdos curriculares que tivessem sido trabalhados anteriormente e não para introduzir novos conhecimentos.” No entanto, as atividades têm sido uma estratégica para manter crianças e jovens em casa, estreitando relações familiares e evitando evasão escolar.

No dia 20 de setembro o MST lançou a campanha nacional “Volta às aulas na pandemia é crime”. A campanha, em defesa da vida e da educação pública, denuncia os riscos do retorno às aulas no período de pandemia da COVID-19 para alunos, professores, famílias e trabalhadoras e trabalhadores da educação. São 123,5 milhões de pessoas vivendo em domicílios que possuem pelo menos uma pessoa com idade até 17 anos, ou seja, em idade escolar, o que totaliza um número de 51 milhões de crianças e adolescentes.

Sem Terrinhas Laís e Lara educandas do 3° e 7° ano no Espírito Santo. Foto: Comunicação MST-ES

Em carta à sociedade brasileira, o MST alerta como “o novo coronavírus escancarou as consequências das políticas neoliberais, entreguistas e privatizantes, que visam apenas o lucro e o desmonte dos serviços públicos, acentuando cada vez mais as desigualdades existentes em nossa sociedade”.

Diante da trágica conjuntura, os/as Sem Terra denunciam a posição negacionista assumida pelo governo federal de que, em conluio com as corporações empresariais que atuam na educação e as transnacionais de tecnologia de informação, identificaram uma janela de oportunidade para acelerar a tendência da privatização da educação pública, a partir da venda de pacotes de ensino remoto, que acabam ampliando a transferência de recursos públicos para a iniciativa privada e controlando os conteúdos educativos.

Reconhecendo o compromisso social das educadoras e educadores com o papel social da escola como instrumento de luta pela humanização e a importância da interação no trabalho educativo entre educadores e educandos, o MST soma-se “aos setores que reivindicam a redução do número de estudantes por turma, a abertura de concurso para novos professores, e um amplo programa de reforma dos espaços escolares, valorizando espaços educativos ao ar livre”. Também defende a construção de um novo calendário escolar com a participação da comunidade, “para que o retorno presencial possa ser feito em condições de segurança das crianças, jovens, trabalhadores da educação e das famílias dos estudantes e dos trabalhadores”.

*Editado por Fernanda Alcântara

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