O letramento midiático e a educação libertadora de Paulo Freire, por Eliara Santana

Poderíamos estar celebrando centenário do grande educador, mas país foi tomado de assalto pelo que há de pior em termos políticos, econômicos e sociais

Por Eliara Santana*

Hoje, 19 de setembro, o mestre Paulo Freire completaria 100 anos. Poderíamos estar fazendo uma grande comemoração nacional, mas vivemos num país fraturado, tomado de assalto pelo que há de pior em termos políticos, econômicos e sociais. E nesse momento, talvez mais do nunca, os ensinamentos do mestre nos valem especialmente, sobretudo para nos inspirar a pensar formas de superar o caos atual e de reconstruir o Brasil.    

A educação como prática de liberdade é um ato Político. Assim, mesmo, com p maiúsculo. Porque é uma prática de construção de cidadania, de empoderamento dos cidadãos, de efetiva liberdade. Não é a toa que os estudos em letramento midiático e letramento midiático crítico 

bebem abundantemente da fonte de Paulo Freire – entender o papel da mídia na sociedade, entender que a comunicação é constitutiva dos processos políticos sociais e econômicos, compreender as estratégias que o discurso midiático utiliza para apagar personagens e ocultar realidades incômodas, tudo isso é libertador, tudo isso faz emergir o pensamento crítico autônomo, tudo isso empodera o cidadão.

O letramento midiático tem um arcabouço teórico e um conjunto de ferramentas e práticas que possibilitam essa compreensão e o desenvolvimento do pensamento crítico, e é urgente que, absolutamente tomados pelos princípios da educação libertadora de Paulo Freire, possamos espalhar essa prática pelo Brasil. A mídia reconfigura o campo político, redesenha o cenário econômico, pauta agendas no campo social, transforma a justiça em espetáculo, apaga personagens. Portanto,  o letramento midiático precisa incomodar para fazer sentido, somente assim vamos ao encontro da educação como prática libertadora.

No Brasil, estamos vivendo num retrocesso civilizatório de proporções gigantescas, em todos os campos. E no ano do centenário do patrono da Educação brasileira, vimos a maior redução no número de inscritos para o Enem – trocando em miúdos, jovens abriram mão do sonho de estudar porque precisam trabalhar para ajudar nas despesas de casa, uma vez que a renda das famílias despencou e o desemprego explodiu. Mas a mídia pintou, em várias reportagens, essa realidade muito ruim com outras cores, contou essa realidade de outro jeito, um jeito menos “incômodo”.

Portanto, entender a educação como prática libertadora significa também compreender que tudo está interligado, eu não posso falar de educação, eu não posso falar em letramento midiático se eu não discutir desigualdade, se eu não discutir desemprego, se eu não discutir o avanço da fome no Brasil que saiu do Mapa da Fome há sete anos, se eu não falar que a concentração dos meios de comunicação no Brasil é absurda e antidemocrática. Praticar letramento midiático me obriga a entender e a mostrar que o cenário da comunicação no Brasil é profundamente desigual e encobre relações de poder e posicionamentos ideológicos.

Praticar letramento midiático me obriga a entender que a notícia é um produto fruto de escolhas, processos de seleção e estratégias discursivas, o que se liga a um conjunto de valores e posicionamentos ideológicos.  E que exatamente por isso, um jornal da TV pode fazer uma reportagem sobre aumento da desigualdade no país e simplesmente deixar de lado a informação de que, no Brasil, mais de 100 milhões de cidadãos “vivem” com 413 reais por mês.

Praticar letramento midiático me obriga a mostrar como funciona a cultura do silêncio ou o silenciamento como política editorial dos veículos, o que faz com que, por exemplo, as ações do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) de distribuição de milhares cestas básicas para famílias em situação de vulnerabilidade não apareçam nos jornais ou nas TVs.

Praticar letramento midiático me obriga a dizer que há várias formas de relatar um mesmo acontecimento e que isso se liga a uma intencionalidade, e que exatamente por isso a concentração dos meios de comunicação em poucos grupos é um perigo para a democracia. Porque se não há pluralidade de vozes, os poucos grupos que produzem a notícia podem, vamos imaginar um exemplo hipotético, decidir que a corrupção tem cor, ela é vermelha; portanto, assim como a corrupção deve ser banida do país, o vermelho e tudo que a ele se liga também precisa ser escorraçado. Dei esse exemplo apenas para ilustrar como a mídia pode construir consenso, pode produzir uma opinião publicizada. Letramento midiático também fala sobre propaganda e a construção de consenso. 

Nas minhas aulas, se eu não falar disso tudo, mesmo dos exemplos hipotéticos, se eu não construir com os alunos a percepção de que esses processos se interligam e que não é possível discutir mídia e discurso sem discutir posicionamentos ideológicos e relações de poder, eu estarei apenas utilizando ferramentas técnicas para construir manchetes e ensinando como fazer buscas mais qualitativas na internet.

Para mim, apaixonada que sou por Paulo Freire e apaixonada pelas possibilidades do letramento midiático, a educação como prática de liberdade deve ser capaz de nos ajudar a entender como chegamos a esse estado de degradação absurda no Brasil e deve nos ajudar a buscar caminhos para transformar a inaceitável realidade de desigualdade. Portanto, ela deve fazer sentido para a realidade da vida das pessoas. E deve incomodar.

*Eliara Santana é uma jornalista brasileira e Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com especialização em Análise do Discurso. Ela atualmente desenvolve pesquisa sobre a desinfodemia no Brasil em interlocução com diferentes grupos de pesquisa.

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2 comentários

  1. Parabéns Eliara.

    “Letramento Midiático já”.

    Com ele, podemos entender “como chegamos a esse estado de degradação absurda no Brasil, e buscar caminhos para transformar nossa inaceitável desigualdade social”.

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