Planejamento e Avaliação nas Universidades Públicas Brasileiras, por Roberto Kraenkel

Planejamento e Avaliação nas Universidades Públicas Brasileiras

por Roberto Kraenkel

Ao menos duas das três universidades estaduais de São Paulo estão introduzindo programas de planejamento acadêmico e avaliação de metas alcançadas. Fazem-no ao estilo das universidades anglo-saxãs, com a introdução de indicadores numéricos, que se pretendem objetivos, para medir o desempenho tanto de departamentos quanto de docentes.

Defendo, aqui, que a forma como isto está sendo feito é equivocada.

Em princípio, poderíamos nos dizer por que não? A ideia parece perfeitamente razoável. Planejamos, executamos e medimos. Mas, neste ponto, é preciso entender que uma universidade não é como uma empresa privada. Estas tem objetivos claros: no mais das vezes, é o lucro ou  o aumento do valor de suas ações. Aquelas, porém, tem objetivos difusos que são pouco mensuráveis. Produzir e transmitir conhecimento, diríamos. Mas a qualidade de como isto é feito não é, no mais das vezes, quantificável numericamente.

Outro ponto importante é a própria natureza do trabalho de um professor universitário. A dedicação à produção de conhecimento requer liberdade acadêmica, inclusive para arriscar caminhos de pesquisa que podem dar errado. Há coisas que são impossíveis de planejar: quem pode prever quantas boas ideias terá em um ano? Podemos planejar criatividade e inventividade? Algumas coisas podem ser planejadas, como, por exemplo, uma experimento científico. Mas o que se pretende, nas atuais propostas em voga aqui e ali, é o estabelecimento de indicadores de performance departamental e individual.

Todo o sistema é baseado em indicadores. Mas é notório que o uso de indicadores para planejamento e metas, além de  avaliação, não funciona. Uma formulação da dita lei de Goodhart é que quando um indicador se torna uma meta, ele deixa de ser um bom indicador. Isto pode ser bem observado no meio acadêmico. Um exemplo é suficiente: num dado momento, a qualidade da pesquisa de um cientista começou a ser medida pela quantidade de artigos que ele publicava. Ao se colocar metas de números de artigos- portanto, transformando um indicador  em meta – criou-se o atual sistema de publicações completamente sem sentido. Milhões de artigos publicados apenas para atingir metas.  Novas  revistas científicas surgiram, aproveitando uma ‘oportunidade de mercado’, onde é fácil ter um artigo aceito. Algumas destas são ditas “predadoras”: publicam qualquer coisa, desde que se pague.  Escrevem-se artigos vazios, não para comunicar um resultado, mas para marcar um ponto numa tabela. Esse estado de coisas é lamentável e é resultado do uso de metas numéricas baseadas em um indicador. Este, entretanto, deixou de ser indicativo de qualidade há muito tempo. Virou o indicador-em-si.

Esse tipo de forma de administração é própria do mundo anglo-saxão.  Metas rígidas são introduzidas sobretudo nas universidades médias, as Wannabe Universities. São importadas do mundo corporativo. Neste ponto, devemos lembrar que estas universidades precisam, em grande parte, se autofinanciar. Para tal, precisam de estudantes que paguem taxas altas e doadores beneméritos. Esta necessidade como que percola nas cadeias de poder destas universidades e, de fato,  cria situações em que os  valores próprios da instituição são deixados de lado. Ao impor-se uma otimização de atividades voltada ao mercado, muda-se a vida na universidade. Nos casos limites, esta se torna um inferno para os professores, que podem passar mais tempo escrevendo e avaliando  projetos do que executando-os. Tal invasão administrativa no dia-a-dia da universidade não a torna melhor. Ao contrário, com professores tratados como pessoal de chão de fábrica e estudantes como consumidores, perde-se o estofo mesmo da vida acadêmica e  a educação transforma-se em mera instrução.

No Brasil, as universidades públicas são gratuitas e esperemos que assim continuem. Não há razão para imitar métodos de administração das Wannabe Universities. Estes acabam por ser apenas formas de controle sobre os docentes.

Mais importante, porém, é ressaltar que já existem iniciativas para transformar universidades públicas em verdadeiras Wannabes. Recentemente, a USP contratou uma consultoria privada para fazer um estudo sobre “captação de recursos e gestão de aprimoramento da administração financeira”. Implícito está que a universidade deveria captar dinheiro privado para se financiar.  Se bem sucedida, tal iniciativa criaria uma  dependência da iniciativa privada na USP.  Sabe-se bem: nos EUA o caminho tortuoso que leva às práticas empresariais nas universidades passou, exatamente, por esse estágio. 

Bem vindo à província.  Bem vindo à servidão voluntária.

Junto com indicadores e metas vem outros aparatos corporativos. Definem-se visão, valores e missão de um departamento ou instituto. Há coisa mais ridícula? No mundo empresarial sabe-se que isso tudo é asneira, é bullshit talk, parte de indústria do Bullshit Business.  Todos estes slogans são ou vazios, ou óbvios. Não servem para nada.  As três universidades estaduais de SP estão cheias desta linguagem  de uma subcultura à qual não deveríamos render homenagem. 

Outro fetiche da moda é a importância acordada aos rankings de universidades. O mais famoso é da Times Higher Education. Todas as vinte primeiras universidades são inglesas ou americanas. No ranking de 2017, a francesa École Normale Supérieure estava no lugar 66. Isto, é claro, diz muito mais sobre a fraqueza do ranking do que sobre a Normale Sup.  Será que a University of North Carolina at Chapell Hill realmente a supera? Convenhamos que não.  No nosso contexto, não há sentido em tentar otimizar os indicadores que compõem o ranking. Nenhum intelectual ou cientista sério dá importância a eles.

Por fim, para deixar a minha opinião mais explícita: há coisas que se podem planejar estritamente numa universidade – por exemplo, suas finanças – mas outras, sobretudo acadêmicas, propriamente ditas, não.  E há processos de avaliação que não são baseados em indicadores numéricos. Eles envolvem opiniões de pares, e uma cesta de índices que devem ser julgados à luz de opiniões bem-informadas, mas sem jamais servirem para a quantificação de metas.  Avaliações embasadas na realidade, feitas por seres humanos, com possibilidade de seres debatidas, são muito mais profícuas porque tiram o professorado da situação defensiva perante a direção da universidade e lhe devolvem o seu ethos acadêmico. 

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