Saindo um big MEC para o Centrão, por Alexandre Filordi

Nenhuma educação de qualidade é capaz de ser alcançada sem um projeto consolidado e objetivos claros que deveriam persistir ao longo dos tempos, com início, meio e fim evidentes.

(Charge de Nando Motta. Extraída da página do autor https://www.instagram.com/desenhosdonando/?hl=pt-br)

Saindo um big MEC para o Centrão – o gigante insaciável da política brasileira quer devorar a Educação.

por Alexandre Filordi

Na medida que se avolumam as manifestações populares reivindicando o impeachment de Bolsonaro, motivos não faltam, a pergunta é: como ele pôde ter cacife político para eleger o presidente da Câmara dos Deputados? Ou seja, se os deputados estivessem ali para representar o povo – apenas se estivessem – não seria sensato prestimar à voz do povo valor?  Não seria coerente vislumbrar a falta de sustentação de opinião pública de um governo letal, insensível, caótico, incapaz de agir com meios e fins democráticos e racionais?

Sabemos, contudo, que a presidência da Câmara foi conquistada com muitos recursos liberados, pelo Executivo, às famigeradas emendas parlamentares; costuras políticas feitas na alcova foram necessárias para desidratar Baleia Rossi; conchavos sob a moeda de cargos idem. Em poucos dias o Congresso votará o Orçamento de 2021. Ali teremos outra oportunidade para as demandas fazerem valer suas vontades.

Seja como for, o Centrão, esse Gargântua político brasileiro, espécie de gigante fanfarrão insaciável, com mais de quatro estômagos para devorar vinténs, não cessará de passar a fatura para o povo brasileiro pagar. O Centrão já foi capaz de eleger alguém tipo Severino Cavalcanti, em 2005, para desestabilizar o governo do então presidente Lula. Agora, ele é capaz de aderir a um projeto político de modo inconsequente, porém, nada ingênuo quando se trata de meu pirão primeiro. O povo é só um detalhe.

Dentre esses detalhes encontra-se o Ministério da Educação – MEC. O Ministério da Cidadania é praticamente o cover artístico que o Centrão cobrará por seu apoio ao demandante. Nos bastidores, os partidos do Centrão não deixarão barato a cumplicidade suicida com a política. Por isso a gana pelo MEC, que é um dos ministérios mais fartos em recursos financeiros. Só o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação movimenta recursos na casa dos R$ 60 bilhões. Secretarias e autarquias também não são desprezíveis.

De toda maneira, um novo ministro representaria, em dois anos completos de administração pública, a QUINTA alteração na pasta. Para se ter ideia, nos 8 anos de governo de FHC, o MEC conheceu 1 ministro apenas; nos 8 anos de Lula foram 3 ministros; nos 6 anos de Dilma, com todos os entraves e as sabotagens do mesmo Centrão entre 2015 a 2016, 6 ministros, excluindo a transição feita por Fernando Haddad.

Vélez Rodrígues, Weintraub, Decotelli – o ministro vago, e Ribeiro já seriam muitos para dois anos. Nenhuma educação de qualidade é capaz de ser alcançada sem um projeto consolidado e objetivos claros que deveriam persistir ao longo dos tempos, com início, meio e fim evidentes. Aliás, as negociatas ideológicas e religiosas que perpassam pelo MEC, desde o início deste governo, já vêm dando os sinais de colapso da educação laica. Não obstante, caso o MEC seja negociado, o tempo dirá, o quinto ministro surgiria como uma lira desafinada, com perdão do trocadilho, contudo, que pouca importância tem aos ouvidos de um governo incapaz de escutar a agonia claudicante de milhares de brasileiros morrendo na pandemia e, como já se sabe, também de fome.

Mais ainda. O MEC apenas seguiria na linha bamba e torta das figuras sem muita cumplicidade com o investimento público na qualidade da educação e com uma educação implicada com a transformação social, inclusive capaz de respeitar as diferenças humanas em todos os planos.  A julgar por tudo o que já soubemos dos predecessores, do calão insustentável no baixio das bestas, passando por gestos homofóbicos, violentos, laudatórios à ignorância histórica e até se chegando na quina do planeta com verborragia anticientífica, o que esperar?

Ao falar, porém, que o Centrão é o Gargântua da política brasileira, não nos enganemos. O gigante Gargântua, tal como fez viver Rabelais, não era a um ogro mau. Ele era um glutão insaciável e fanfarrão, também sempre inconsequente. Nesse caso, a situação é óbvia: de glutonaria o Centrão entende; de fanfarronice também. Ao cabo, ele há de ouvir: saindo um big MEC para o Centrão, esse gigante esfomeado!

Alexandre Filordi (DED/UFLA)

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