Vogais

Enviado por Felipe A. P. L. Costa

Vogais

Por F. Ponce de León

Escrito entre 1870 e 1871, mas publicado em livro apenas em 1884, eis o famoso poema ‘Voyelles’, de Arthur Rimbaud (1854-1891):

 

Voyelles

Arthur Rimbaud

 

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,

Je dirai quelque jour vos naissances latentes:

A, noir corset velu des mouches éclatantes

Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

 

Golfes d’ombre; E, candeur des vapeurs et des tentes,

Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d’ombelles;

I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles

Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

 

U, cycles, vibrements divins des mers virides,

Paix des pâtis semés d’animaux, paix des rides

Que l’alchimie imprime aux grands fronts studieux;

 

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,

Silences traversés des Mondes et des Anges:

– O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux!

 

O poema já foi traduzido diversas vezes para o português. Entre nós, por exemplo, já foram publicadas (em meio impresso ou eletrônico) traduções feitas por Augusto de Campos, Gondin da Fonseca (1899-1977), Ivo Barroso, José Nêumanne e Tomaz Amorim Izabel.

Apresento a seguir a minha proposta de tradução.

 

Vogais

Arthur Rimbaud

 

A preto, E branco, I vermelho, U verde, O azul: vogais,

Eu algum dia mostrarei vossas nascenças latentes:

A, preto espartilho peludo de moscas reluzentes

Que zumbem ao redor de cogumelos mortais,

 

Golfos d’umbra; E, candor de vapores e de tendas,

Lanças de geleiras altivas, reis albinos, frêmitos d’umbelas;

I, roxo, sangue cuspido, riso de belos lábios

Na raiva ou em bebedeiras penitentes;

 

U, ciclos, vibrações divinas de mares biliosos,

Paz dos pastos semeados d’animais, paz das rugas

Que a alquimia imprime nas vastas frontes eruditas;

 

O, suprema Trombeta plena de ruídos estranhos,

Silêncios traspassam os Mundos e os Anjos:

– O, o Ômega, raio violeta de Seus Olhos!

 

Antes de iniciar a vida

Além de traduções, não faltam também interpretações. Nesse sentido, parece apropriado reproduzir aqui um comentário que o historiador e crítico literário brasileiro de origem austríaca Otto Maria Carpeaux (1900-1978) fez a respeito da obra do poeta francês:

Todos os seus versos foram escritos antes de ele chegar aos vinte anos de idade, quer dizer, antes de iniciar a vida. Depois seguiram-se os anos de vagabundagem, das aventuras comerciais na África; e durante todo esse tempo, até a morte, ele, um dos maiores poetas frnaceses, nunca mais escreveu um só verso. Quer dizer: a poesia de Rimbaud não tem nada que ver com a sua vida. Desprezando esse fato, quase todas as interpretações tomam como base a vida de Rimbaud: seja o começo, a fuga do jovem poeta em companhia de Verlaine ao qual arruinou a existência; seja o fim, o regresso do moribundo para a Europa, a morte no hospital de Marseille, depois de uma conversão que não está, aliás, plenamente provada. Mas o fato único que caracteriza Rimbaud está colocado entre a sua poesia e a sua vida: não é a atividade poética de poucos anos nem o silêncio de muitos anos e sim o próprio gesto de emudecer. – História da literatura ocidental, v. 4, 3ª edição (2008, p. 2123).

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