A crônica de Saramago e a copa

Do Portal de Luís Nassif

Do Blog de Maura Voltarelli

Crônica: Saramago e a arte da Copa do Mundo

E essa Copa ainda é mais Copa, porque a magia rola na África, agora é África!

Quase não falei aqui no Impressões sobre a morte de Saramago, tampouco sobre a Copa do Mundo, arrisquei-me fazendo uma poesia, a primeira sobre futebol. Até que gostei do resultado. Sobre o mundial, talvez a ausência do assunto por aqui se deva à já bastante completa e diria quase esgotada cobertura feita pela grande mídia.

Hoje, no entanto, acordei estranha, bastante estranha a mim mesma e agora pego-me pensando em como de fato aqui faltaram algumas palavras, raras e rasas que fossem, dedicadas primeiro à morte de Saramago e depois ao mundial, ou, se possível, aos dois de forma simultânea, quase mutualística.

No No espernear de minhas dúvidas pensei de repente em Saramago. Lembrei do seu céu tão bem descrito, de como ele fala, e só ele o faz tão bem, do vermelho tingindo o azul, do azul misturando-se com o rosa, do rosa recebendo o negro, a escuridão da noite. Vieram-me algumas palavras, diria mais sensatas e menos sábias, Saramago não era um sábio, tenho-o como um homem que sabe da vida porque sempre se deixou observar por ela, no mesmo instante em que a perfurava com a lapidação belíssima da linguagem e com a sensibilidade pura do seu olhar. Vieram, de repente, sentimentos de angústia, morte, cegueira, uma profunda reflexão sobre o homem e sobre o calor do sol, a quentura do tempo.

Saramago vai me fazer falta, gostava bastante de seus cadernos na internet. Tão puros, tão limpos, tão simples e cheios de tudo. Lá ele mostrava um pouco do homem, sempre morando no seio da literatura. Nos últimos dias ele já não vinha escrevendo tanto, mas, de vez em quando, algo de seu por ali aparecia. E como ele sempre se fez belo, dançante, suspenso, infantil e maduro.

O fato é que os tempos são sim de Copa do Mundo, ela ocupa todos os espaços, deixa atordoados a maior parte dos espíritos, o futebol tem uma magia própria, assim como a literatura. A morte de Saramago em tempos de Copa do Mundo me fez pensar em como o futebol seria por ele descrito.

Algo do tipo:
E naqueles instantes em que a humanidade vibra quando ela enfim, salta, ergue-se e brilha. Todos de repente nascem, parece que se fala apenas de um só e, no entanto, são vários. Múltiplos, coloridos, pintados, bonitos, buzinados! E o azul se tinge de verde, e o verde se tinge de branco e o mundo se faz entorpecido de desejos.

Eis talvez uma grande obra de arte, não há perda de arte, pelo contrário, ela se amplia, se faz viva, explode em uma embriaguez sublime, em um extravasamento que destrói no mesmo movimento em que constrói. A arte, enfim, respira em meio ao suor que escorre pelos rostos, em meio aos pés que pensam enquanto pelo gramado dançam, as lágrimas se soltam no intervalo de um abraço, de um sorriso, no instante da vertigem que reside no duelo com o outro, que se traduz no reconhecimento e estranhamento de si mesmo.

E quando tudo se esparrama, quando o instante é o do grito de gol, já não há mais homens, ali são apenas corações, pra quem realmente entende de arte, ali reside o sublime, o êxtase, a catarse de toda uma geração. A arte é intrínseca a esse espetáculo, arte não se perde como se perde uma roupa ou um botão, a arte é dali, do campo, da bola, arte não distingue cultura, arte é um pequeno milagre, é cor, forma e pulsação.

Saramago diria bem melhor, mas agora, no fim destas linhas, a saudade dele já diminui um pouco, afinal, Saramago está aqui ao meu lado, basta abrir um livro, basta navegar de olhos fechados e alma doce e sincera. Algumas almas e diria mais, algumas Copas, nunca morrem, posto que são arte, são exceção, afinal, já diria Godard, cultura é regra, arte é exceção.

…”Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos?”
(Saramago)

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