Neném Prancha – O filósofo do futebol, por Cesar Oliveira

Alguns personagens se destacam, ao longo dos tempos, pelas frases que criaram, às vezes ditas ao acaso, nem sempre por gente letrada, mas pelo “povo do futebol”.

Neném Prancha – O filósofo do futebol

por Cesar Oliveira

Pênalti é uma coisa tão importante, que quem devia bater é o presidente do clube”.

Neném Prancha, em uma das suas frases mais geniais.

O futebol brasileiro sempre foi pródigo em inventar histórias, criar mitos e disseminar lendas. Muitas coisas que se diz e ouve, precisa ser filtrada com cuidado histórico, para que os leitores não repassem, leviana ou inconsequentemente, informações sobre o esporte mais popular do mundo e, principalmente, sobre os seus personagens mais conhecidos.

Mas, assim como a pelada é o futebol sem compromisso, os ditos populares sobre o futebol são a pelada, a delícia da informação. E nos divertimos com eles. Alguns, viraram provérbios, símbolos da maneira como o povo brasileiro incorpora o futebol em sua vida, fato que cientistas sociais e antropólogos analisam em trabalhos acadêmicos que até viraram livros.

Alguns personagens se destacam, ao longo dos tempos, pelas frases que criaram, às vezes ditas ao acaso, nem sempre por gente letrada, mas pelo “povo do futebol”. A lista é grande e passa por treinadores (como Gentil Cardoso) e jogadores (como Dario, o Dadá Maravilha), que criaram frases impagáveis e imortais.

Dentre os letrados, com certeza, o dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues é o grande destaque. Em suas deliciosas crônicas, principalmente aquelas que escreveu com o título geral de “Meu personagem da semana”, na extinta Manchete Esportiva[1], Nelson coloca no papel toda a sua genialidade e amor ao futebol.

Mas existem aqueles que não passaram despercebidos porque outras pessoas, entendendo-lhes a genialidade, resolveram trazê-los à luz, dando-lhes voz e repercussão, para que suas frases e tiradas não morressem no ostracismo, pelo bem da cultura do futebol.

Dentre esses, o maior destaque é, com certeza, Neném Prancha, apelido de Antônio Franco de Oliveira (1906–1976), roupeiro, massagista, olheiro e técnico de futebol. Do jornalista Armando Nogueira, ganhou a alcunha de “O filósofo do futebol”, por suas frases geniais, cheias de sabedoria. De João Saldanha, o megafone para que suas frases nunca mais fossem esquecidas.

O apelido “Prancha” vinha das mãos imensas, que mediam 23 cm, e dos pés enormes, tamanho 44), sempre calçados por chinelos.

Neném Prancha tornou-se um mito do futebol brasileiro devido às suas frases de efeito. E mereceu de Pedro Zamora o livro chamado “Assim falou Neném Prancha” (Editora Crítica, 1975), sobre o pensamento desse ícone da filosofia futebolística.

Parênteses para reverenciar Pedro Zamora, pseudônimo do Brigadeiro Jocelyn Barreto Brasil Lima (1908–1999), cearense, comunista, expulso da Aeronáutica pelo Golpe de 1964 e que, a partir daí, se fez jornalista e escritor, produzindo algumas pérolas da Literatura de Futebol do Brasil, dentre as quais se destacam “Você acha que entende de futebol? Eu também”; “A hora e a vez de João Saldanha”; “O livro de Tostão (com Canôr Simões Coelho)”, “A Era Kanela (a maioridade do basquete brasileiro) e “Tim, o estrategista”[2].

Neném iniciou sua carreira no futebol como jogador, no pequeno Carioca Football Club. Não obteve sucesso e abriu uma escolinha de futebol para crianças nas areias de Copacabana. Ao mesmo tempo, trabalhava como roupeiro, massagista e olheiro do seu time do coração, o Botafogo. Por ter um especial talento no trato com jogadores mais jovens, foi técnico das divisões de base do Botafogo. Entre os talentos que revelou, estão o lendário Heleno de Freitas, e o ex-jogador e hoje comentarista Junior, do Flamengo e da Seleção Brasileira.

Por ser uma figura querida por todos, muitos jornalistas fizeram o possível para colocar Neném na mídia, dentre eles João Saldanha, Armando Nogueira e Sandro Moreyra. Alguns desinformados dizem que, aquelas frases sensacionais não poderiam ser criação de um homem tão simples como “o tal Neném”. E que ele jamais teria existido, que teria sido inventado por João Saldanha. Como diria Nelson Rodrigues, craque dos personagens romantizados, “se os fatos provam o contrário, pior para os fatos”.

No ano seguinte ao lançamento de “Assim falou Neném Prancha”, exatamente no dia 17 de janeiro de 1976, aos 69 anos, Neném Prancha morreu, vítima de um infarto do miocárdio.

Não à toa, tanto tempo depois de sua morte, em 1976, aos 69 anos, o mito continua vivíssimo. Ele está e ficará eternamente marcado no futebol brasileiro, por suas frases célebres e geniais.

FRASES DE NENÉM PRANCHA

“Jogador de futebol, tem que ir na bola com a mesma disposição com que vai num prato de comida. Com fome, para estraçalhar.”

“Chute a bola pra cima; enquanto ela estiver no alto, não há perigo de gol.”

“O Didi joga bola como quem chupa laranja, com muito carinho”.

“O goleiro deve andar sempre com a bola, mesmo quando vai dormir. Se tiver mulher, dorme abraçado com as duas”.

“Se concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma.”

“O importante é o principal; o resto é secundário.”

“Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava sempre empatado.”

“Quem se desloca, recebe; quem pede, tem preferência.”

“Futebol é muito simples: quem tem a bola ataca; quem não tem, defende.”

“Jogador bom é que nem sorveteria: tem várias qualidades.”

“Bola tem que ser rasteira, porque o couro vem da vaca e a vaca gosta de grama.”

Cesar Oliveira, quase 70, carioca, botafoguense e mangueirense. Editor de livros, preferencialmente de futebol, desde 2008. Saiba mais nas redes sociais: @livrosdefutebol


[1] Conheça “O berro impresso das manchetes: crônicas completas da Manchete Esportiva 55-59” (Agir, 2007)

[2] Lançado pela LivrosdeFutebol, em formato e-book, na Amazon Kindle. Veja em https://amzn.to/2ZtHzMp

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10 Comentários

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Cesar Oliveira

- 2021-11-04 18:24:38

Marcus Anibal, grato por interagir! Sensacional saber que você conviveu com Neném Prancha, um dos grandes e folclóricos personagens do futebol brasileiro. Ele era uma figuraça. E não estou nem aí para se, de fato, todas as frases que lhe atribuem são de autoria dele. Mais vale a lenda e os craques que ele revelou na praia: Heleno de Freitas e Junior Capacete. Aliás, permita esclarecer: o livro "Assim falou Neném Prancha" não é, infelizmente, nem de minha autoria nem foi editado por mim. É do Pedro Zamora, pseudônimo do Brigadeiro Jocelyn Brasil que, cassado pelo Golpe de 64, jogou os coturnos pro alto e foi ser feliz escrevendo sobre futebol. E, se você pretende adquirir um exemplar do livro, prepare-se: é raro e caro. Procure na Estante Virtual e Mercado Livre. Mas tira o escorpião do bolso, porque vai lhe custar uma nota preta. Abraços, grato pela avaliação.

Cesar Oliveira

- 2021-11-04 18:17:43

Marcus: O livro "Assim falou Neném Prancha" não é meu. É de Pedro Zamora, pseudônimo do Brigadeiro Jocelyn Brasil que, cassado pelo Golpe de 1964, jogou os coturnos pro alto e foi ser feliz escrevendo sobre futebol. Mas o Neném é mesmo um dos grandes personagens do futebol brasileiro, sendo dele ou não as frases que lhe atribuem, porque o que vale é que ele revelou Heleno de Freitas e Junior "Capacete" para o futebol brasileiro. Aliás, o livro do Zamora sobre Neném, é raríssimo e custa uma baba, quando aparece, em sebos virtuais. Abração, grato por interagir.

Marcus Aníbal Machado Moraes

- 2021-11-04 12:54:10

César estou ansioso para ler o seu livro. Joguei em 1966 futebol de praia no 1o time do Botafogo sob o comando um tempo do Neném Prancha: Antes do jogo uma vez, ele me chamou para dar as instruções:” Badeco (meu apelido no futebol) toma a sua camisa no 8, dribla todo mundo e mete seus gols “ Falando para todos nós: “ Se o futebol atrapalhar os estudos, abandone os estudos” E se referindo à Copa no México de 70: “ A maioria dos jogadores da seleção não terá problemas com a altitude, pois nasceram em favelas no alto dos morros” Grande figura nosso “ Seu Neném “que era uma pessoa doce e tranquila e que merece ser sempre lembrado no folclore de nosso futebol. Já deixo meus parabéns pelo seu trabalho Abraços Marcus Aníbal

Cesar Oliveira

- 2021-11-01 17:22:12

Neste final de semana, pude rever o Roda Viva em que João Saldanha dá um show de informação e inteligência. Quando falaram de Neném Prancha, ele meio que desconversou, dizendo de fato que o personagem era incapaz de frases mais elaboradas. Mas, nessas pesquisas a que está sempre afeito alguém envolvido com a leitura de futebol, li mais uma atribuída a ele, sobre o grande Didi, o gênio da folha-seca, que vale a pena compartilhar: "Quem vê o Didi na rua, sem nem saber de quem se trata, logo pensa: 'Aquele crioulo deve ser algum troço na vida'..."

Cesar Oliveira

- 2021-10-30 00:20:11

Bianca: me perdoe, mas acho que Nilton Santos merecia um livro à altura da Enciclopédia que ele foi, muito mais bem feita do que a que foi lançada. "Minha bola, minha vida" não é um livro à altura do que Nilton Santos foi, para o futebol brasileiro e mundial. Fora o fato de que são raros os jogadores de futebol brasileiros capazes de escrever suas biografias. Talvez apenas Sócrates, Raí, Paulinho Criciúma, Afonsinho... quem mais? - seriam capazes de escrever suas biografias. Nossos jogadores, em sua imensa maioria, vêm de classes sociais muito simples e fazem do futebol o arrumo da família. Aliás, isso deveria ser pensado para as escolinhas e as bases dos clubes: a formação educacional e cultural dos seus atletas.

Cesar Oliveira

- 2021-10-30 00:07:23

Myrthes, querida! Que bom ouvir isso de uma pessoa (e família) que aprendi a gostar muito durante a produção de "O artilheiro que não sorria", a biografia do seu pai-craque Waldir Cardoso Lebrego - o grande Quarentinha. Comecei a @livrosdefutebol pela edição da biografia do seu pai; e a festa de lançamento é inesquecível!

Cesar Oliveira

- 2021-10-30 00:00:59

Interessante, Sílvio. Mas confesso que, admirador do Saldanha e editor de dois livros sobre ele - inclusive um chamado "As 100 melhores crônicas comentadas de João Saldanha", nunca ouvi falar disso. Gostaria de conhecer onde foi que ele disse ou escreveu isso, pra aprender mais só te os dois

Myrthes Lebrego

- 2021-10-29 19:40:27

Ninguém sabe, mais escrever e nos fazer saborear os meandros do futebol, como você, César de Oliveira !!!!!! Excelente !!!! Muito bom !!!!! Parabéns por mais esse !!!!!!

Branca Ferrari

- 2021-10-29 13:11:37

Genial! Recomendo aos que gostam de futebol outro livro excelente sobre os bastidores do nosso maior esporte. Por coincidência do grande jogador do também Botafogo NILTON SANTOS. O livro MINHA BOLA, MINHA VIDA do Nilton Santos é leitura deliciosa, eivada do bom humor tipicamente carioca de quem cresceu no Rio. Leiam!

Silvio D. P.

- 2021-10-29 11:39:30

Segundo João Saldanha o nome certo é Neném Pé de Prancha.

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