Um homem do tamanho do Maracanã, por Cesar Oliveira

É absolutamente impossível falar de futebol, no Brasil, sem mencionar o nome do pernambucano Mario Leite Rodrigues Filho (1908–1966), considerado um dos maiores jornalistas esportivos que já tivemos

Criador e criatura: Mario Filho visita as obras do Maracanã

Um homem do tamanho do Maracanã, por Cesar Oliveira

“Um dia, a fome do povo, falará mais alto do que o tilintar das taças palacianas”
Quando o brasileiro acusou Barbosa, Juvenal e Bigode, acusou-se a si mesmo”
(Mario Filho)

É absolutamente impossível falar de futebol, no Brasil, sem mencionar o nome do pernambucano Mario Leite Rodrigues Filho (1908–1966), considerado um dos maiores jornalistas esportivos que já tivemos, um cuidado especial que tenho, apesar da grandiosidade da obra do “Homem Maracanã”, porque tivemos, com a graça dos Deuses do Futebol, outros grandes jornalistas esportivos, desde que a bola rolou na Várzea do Carmo, em SP, e em frente à Fábrica de Tecidos Bangu, no Rio de Janeiro.

As iniciativas de Mario são inúmeras e fizeram um bem incomensurável ao nosso futebol e ao jornalismo esportivo. Evito aqui falar de assuntos e detalhes corriqueiros que qualquer um pode achar no Google, sobre este personagem incrível.

Para começar, basta o seu trabalho monumental de, através de crônicas e mais crônicas no Jornal dos Sports, defender e pleitear a construção de um estádio gigante para a Copa do Mundo de 1950.

Ele batalhou – e muito – para que o estádio fosse construído onde “estava” [N. do A.: considero que o Maracanã, o maior estádio do mundo, como o conhecemos e frequentamos, não existe mais, destruído por canalhas e corruptos, alguns presos, outros ainda não], contrariando os desejos de Carlos Lacerda, que – de certa forma, visionariamente – queria levar o estádio para a então longínqua Jacarepaguá, talvez vislumbrando o caminho de expansão da Cidade.

O fato é que Mario Filho ganhou a queda de braço e o “Estádio Municipal” foi construído onde antes ficava o Turf Club, local obviamente construído para corridas de cavalo que, com o remo, dividia então as atenções dos sportmen com o velho e violento esporte bretão.

O nome “Estádio Jornalista Mario Filho” foi uma justa homenagem a quem tanto trabalhou por sua construção. Se ele ainda estivesse entre nós, talvez a sua pena clássica e pesada fizesse com que a canalhada não conseguisse destruir o “Maior do Mundo”.

Mario fundou, em 1931, o primeiro jornal inteiramente dedicado ao esporte do Brasil: O mundo sportivo, que durou pouco. No mesmo ano, passa a trabalhar em O Globo, ao lado de Roberto Marinho, seu companheiro em partidas de sinuca e, como ele, sócio proprietário do Clube de Regatas do Flamengo. Em O Globo, introduz o mesmo estilo inaugurado em Crítica e ajuda a tornar o futebol – então., esporte da elite – um esporte de massas.

Em 1936, compra de Roberto Marinho, o Jornal dos Sports, onde criou os “Jogos da Primavera” (1947), os Jogos Infantis (1951), o Torneio de Pelada no Aterro do Flamengo. É também o criador do Torneio Rio-São Paulo, embrião do atual Campeonato Brasileiro. Mas ele fez mais: criou a expressão Fla-Flu, para designar o “Clássico das Multidões”. Criou e organizou o primeiro desfile em que as escolas de samba do Rio de Janeiro competiam entre si.

E, como se não bastasse, é de sua autoria – entre outros, que listamos mais adiante — um dos maiores clássicos da Literatura de Futebol do Brasil: “O negro no futebol brasileiro”, cuja primeira edição é de 1947, pela Civilização Brasileira, com prefácio do sociólogo Gilberto Freyre e orelha do etnólogo Edison Carneiro.

No prefácio, Freyre apresenta uma visão otimista do espaço que o negro ocupava no futebol nacional, afirmando que “era natural que o futebol, no Brasil, ao engrandecer-se como uma instituição nacional, engrandecesse também o negro, o descendente do negro, o mulato, o cafuzo e o mestiço. Mario estruturou “O negro no futebol brasileiro” em cinco capítulos: Raízes do saudosismoO campo e a peladaA revolta do pretoA ascensão social do negroA provação do pretoA vez do preto

É um livro imperdível para quem queira entender as raízes do futebol brasileiro. A Mauad Editora detém, atualmente, os direitos do livro, que pode ser adquirido – em sua quinta edição – no site da editora, em https://bit.ly/3mZQaQv pelo preço especial de R$ 36 (o preço normal é R$ 72). O livro tem 344 páginas, em formato 16 x 23 cm.

Quase 75 anos depois de lançado, o livro mereceu uma edição em Inglês, pela editora da Universidade da Carolina do Norte, sob o título “The black man in Brazilian soccer”. Na capa, Brenda Elsey, autora de “Citizens and sportsmen“, escreveu: “Romântico, político e cheio de pompa, o clássico livro de Mario Filho, pela primeira vez em Inglês narra o papel central dos afro-brasileiros no aperfeiçoamento do esporte mais popular do mundo”. Em resenha especial para o site da Fundação Perseu Abramo, o historiador Júlio Ribeiro Xavier, de Pelotas, RS. afirmou:
 

“Ao escrever um livro dedicado a abordar a trajetória dos negros e mulatos no futebol brasileiro, Mario Filho conhecia bem o campo em que estava pisando. O campo do racismo cínico e hipócrita que persiste até os dias de hoje e que faz muitos estragos não só nos gramados, mas em toda a estrutura da nossa sociedade”.

Cultura rubro-negra no Maracanã:
Zé Lins do Rego e Mario Filho
Quando estava tentando, junto aos herdeiros e sucessores de Mario Filho, no Rio de Janeiro, pleitear autorização para reunir em livro as crônicas em que Mario Filho defendia a construção do Maracanã, uma obra que precisaria ser feita em prol da historiografia do futebol brasileiro e obstaculizada pela incompreensão – para dizer o mínimo – de um herdeiro ganancioso, o jornalista Mario Neto me contou uma deliciosa história sobre o seu avô, que merece fechar este texto. Rubro-negro apaixonado, numa família de torcedores do Fluminense Football Clube, Mario Filho teria sempre procurado esconder a sua preferência clubística, coisa que os jornalistas de hoje nem ligam.

Aí, num dia de Fla-Flu, Mario Filho resolve levar o menino Mario Neto ao Maracanã, num jogo para o qual meu interlocutor não lograva determinar o ano de realização. A preferência de Mario pelo Rubro-Negro era um assunto absolutamente vedado a comentários.

Mario Neto e Mario Filho jogando sinuca.

Como convinha a um Fla-Flu de antigamente, o jogo estava encardido e os ataques incomodavam as defesas, que seguravam a onda e mantinham o garoto do placar sem nada para fazer. Até que, no chamado “apagar das luzes” – como diziam os “speakers” de então – eis que o Flamengo marca o gol que, pelo tempo de jogo, seria o da vitória.

Surpreendido e empolgadíssimo, Mario Filho pula e vibra intensamente com o gol, esquecendo-se de que o neto tricolor estava ao seu lado, como testemunha ocular da paixão. Totalmente sem graça com a manifestação espontânea do flamenguismo juramentado, sentando-se para o recomeço da partida, ao lado do neto, Mario Filho pergunta:

— Tudo bem, meu filho?

— Tudo bem, vovô – responde o menino. E arremata: — Vovô, sabe o que eu queria de presente?

Surpreso com o assunto, naquele momento insólito, Mario pergunta, carinhoso:

— O que você quer, meu filho?

E Mario Neto responde, com a cara de pau típica dos meninos espertalhõezinhos:

— Eu queria um velocípede! – respondeu o menino.

Entendendo o recado, no dia seguinte, logo cedo, Mario Filho entregou ao neto o velocípede almejado pelo pequeno subornador…

A contribuição de Mario Filho para a Literatura de Futebol no Brasil
Copa Rio Branco1932
Histórias do Flamengo1934
O negro no futebol brasileiro1947
O Romance do Foot-Ball1949
Copa do Mundo ’621962
Viagem em torno de Pelé1964
Livros sobre a obra de Mario Filho
Fla-Flu… e as multidões despertaram, de Mario Filho e Nelson RodriguesEuropa, 1987
O sapo de Arubinha: os anos de sonho do futebol brasileiro (Seleção e notas de Ruy Castro)Cia. das Letras, 1994
Com brasileiro, não há quem possa: futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues, de Fátima Martin R. Ferreira AntunesUnesp, 2004
O Brasil entra em campo! Construções e reconstruções da identidade nacional (1930-1947), por Denaldo Alchorne de SouzaAnnablume, 2008
Um time de primeira: grandes escritores brasileiros falam de futebol, de Mario Filho et al.Saraiva, 2014
As coisas incríveis do futebol: as melhores crônicas de Mario Filho (Org.: Francisco Michelin)Ex-Machina, 2014
Mil e uma noites de futebol: o Brasil moderno de Mario Filho, de Marcelino Rodrigues da SilvaUFMG, 2016
 Trabalhos acadêmicos sobre Mario Filho
 Mario Filho, futebol e Maracanã, por Priscila Alves Mendes de CarvalhoTCC (Habilitação em Jornalismo) – Escola de Comunicação da UFRJ, 2008.
 As pegadas douradas do sensacionalismo no esporte: Mário Filho e a cobertura da Copa de 1930 por Crítica, de Leda Maria da Costa – artigo escrito para a Revista Eletrônica FULIA, vinculada ao Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FULIA)Faculdade de Letras da UFMG, 2010
 O negro no futebol brasileiro: entre a História e a Literatura, de Leda Maria da Costa – artigo escrito para a revista quadrimestral da Uniabeu – Centro AcadêmicoBelford Roxo–RJ
 
 
Nelson Rodrigues e Mario Filho

AGRADECIMENTOS:

À Prof. Leda Costa, vascaína, pós-Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UERJ. Professora do Curso de Jornalismo da Unicarioca. Doutora em Literatura Comparada pela UFRJ. Pesquisadora vinculada ao NEPESS – Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre Esporte e Sociedade, da UFF). Editora-chefe da Revista “Esporte e Sociedade”.

Ao amigo Mario Neto, tricolor de coração, neto do tema desta coluna, que nos cedeu fotos inéditas do avô e esclareceu detalhes do “suborno do velocípede”.

Cesar Oliveira, quase 70, carioca, botafoguense e mangueirense. Editor de livros, preferencialmente de futebol, desde 2008. Expertise no mercado editorial desde 1980. Saiba mais nas redes sociais: @livrosdefutebol e @editoralivrosdefutebol.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

4 comentários

  1. O Coronelato Nefasto Nordestino desembarca no Sudeste do país para fazer o Serviço Sujo da Gestapo do Ditador Fascista. Tenório Cavalcanti, Assis Chateaubriand, Família Ferreira Gomes,… Década Ditatorial de 1930, Obras Gigantescas Superfaturadas, Roberto Marinho da Globo. O início da metamorfose que transforma cabeça em rabo. A explosão da Capital Nacional em Favelas, enquanto se gasta milhões de metros cúbicos de concreto em Elefantes Brancos. O mesmo concreto e dinheiro que faltará na Urbanização do Rio de Janeiro. Temos realmente um grande símbolo desta Era da Cleptocracia. Nada poderia traduzir tanto tamanha verdade.

  2. Não tive a oportunidade de ler o pai, mas li seu filho Nelson e algumas de suas crônicas futebolísticas. Suponho que tal pai, tal filho.
    Não sou da área mas procurei alguma lista compilada com os maiores jornalistas brasileiros da nossa história. Não achei.
    Mas se tivesse 20 nomes creio que ambos entrariam nela.
    O maior ?
    Euclides da Cunha ou Joel Silveira. Fico na dúvida…
    Nassif organize uma com vivos e outra com mortos

  3. Mas que perspectiva impressionante, ” …enquanto se gasta milhões de metros cúbicos de concreto em Elefantes Brancos…”. Não é raro ocorrer tamanha falta de sensibilidade, aliás, nos dias de hoje se tornou uma espécie de esporte nacional, e acreditar que o $$$ que foi gasto na construção do maior do mundo poderia ser suficiente para reordenar a cidade é, na verdade, uma pérola de desonhecimento sobre a realidade da cidade naquela época, fato que perdura até hoje, já que 95% dos cariocas não tem a menor noçao sobre como é a sua cidade.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome