“Xingou o Bandeirinha, me xingou também. Tá expulso!”, por José Carlos Faria

Cheguei à conclusão de que a única maneira de poder participar de jogos em grandes estádios seria na função de "juiz" ou "bandeirinha", como são chamados, popularmente, o árbitro e seus auxiliares.

Trio de arbitragem formado pelo articulista e seus auxiliares, na decisão do Campeonato Interno dos Correios de 1978, Vila Militar, Rio de Janeiro, RJ. Gráficos do livreto "Regras de Futebol – Guia Universal para Árbitros", publicado pela Confederação Brasileira de Desportos (págs. 39 e 59)

“Xingou o Bandeirinha, me xingou também. Tá expulso!”

por José Carlos Faria

Em 1978, aos vinte e sete anos, verifiquei que minha carreira como jogador de futebol amador, vulgo “peladeiro”, beirava à mediocridade. Era um vigoroso beque central, que sabia se posicionar em campo, corria o tempo todo do jogo, mas com uma técnica individual bastante limitada.

Cheguei à conclusão de que a única maneira de poder participar de jogos em grandes estádios seria na função de “juiz” ou “bandeirinha”, como são chamados, popularmente, o árbitro e seus auxiliares. Compunham, à época, o chamado “trio de arbitragem”. Atualmente, perdi a conta de quantos atuam num jogo: tem árbitros reserva e de linha, além do batalhão que fica na cabine do famigerado VAR.

Trabalhava, então, como engenheiro do DNER, em que era servidor Luiz Carlos Félix, árbitro do primeiro time da Federação Carioca de Futebol. Ele me convidou para fazer o curso de formação de árbitros, em que seria o professor de “Regras de Futebol”. Além desta disciplina, compunham o currículo do curso “Redação de Súmula” e “Legislação Desportiva”.

Para receber o diploma, era necessário, ainda, ser aprovado fisicamente no famoso “Teste de Cooper”, realizado no Estádio de Atletismo Célio de Barros, no Maracanã, que foi destruído, criminosamente. Na reforma, também criminosa, para a Copa de 2014, do antigo “Maior do Mundo”, foi transformado em canteiro de obras.

Minha atenção, quando ia aos estádios, durante o curso, era na atuação do trio de arbitragem. Acompanhava, atentamente, seus movimentos. Onde se posicionavam, nas cobranças de “bola parada”. Observava como o árbitro corria no campo e se fazia a famosa “diagonal”, para poder visualizar os acenos dos bandeirinhas. Outro ponto importante era como usava sua autoridade para impor a disciplina em campo

Nos auxiliares, eu verificava se estavam alinhados com o penúltimo homem da defesa. É uma função difícil e ingrata, pois tem que se olhar, ao mesmo tempo, a bola e o posicionamento do defensor, para decidir, em fração de segundos, se houve impedimento.

No livreto de “Regras de Futebol”, vários desenhos esquemáticos, com jogadores representados por letras, mostravam situações de jogo. Como ensinava o folclórico comentarista de arbitragem Mário Vianna, “com dois enes”:

 – A bola foi da figura “A” para a figura “B”. O adversário (Figura “C”) dava condição de jogo, portanto: “GOOLL LEGAAL”, sentenciava, na transmissão pelo rádio, com sua tonitroante voz.

Durante o curso, apitei partidas do Campeonato Interno dos Correios, disputado por times dos diversos departamentos e agências da empresa. Eu era, também, o responsável pela escalação dos árbitros, que escolhia entre os colegas do curso. Logicamente que o designado, “merecidamente”, para apitar a partida final do Campeonato, fui eu mesmo.

O árbitro tem que ter raciocínio muito rápido. Em jogo por aquele campeonato, assinalei um pênalti não contestado. A cobrança foi rasteira rente à trave oposta em que eu me colocara. A rede não estava bem fixada ao solo, ou furada mesmo, e não se movimentou. Para mim, a bola tinha passado por fora. Já me preparava para assinalar o tiro de meta, quando notei que o time atacante comemorava e o goleiro ficara abatido, assim como seus companheiros. Concluí que a bola havia passado por dentro da meta. Apontei, então, para o centro do campo, validando o gol, que, na minha visão, não havia ocorrido

Voltando ao curso, o professor de “Redação de Súmula” era Reginaldo Mathias. Advogado de profissão, foi diretor da associação de árbitros e, depois que pendurou o apito, presidente do América RJ, no início dos anos 2000. Aprendi com ele que não poderia apenas registrar que “fui xingado pelo atleta nº tal, de tal time”. A redação correta tinha que ser: “- O atleta nº tal, da agremiação tal, foi ao meu encontro e disse: – Seu juiz fdp, seu #@%!!, porque não enfia esse apito no c*”.

O Reginaldo atuava sempre como bandeirinha e disse, certa vez em aula, que se algum jogador o xingasse, relataria o fato, imediatamente, ao juiz. Caso este não expulsasse o ofensor, ele colocaria a bandeira debaixo do braço e abandonaria o jogo.

O Jornal dos Sports de 13/11/78 trazia matéria sobre o jogo Fluminense x Campo Grande (ver no final deste artigo). O destaque da partida foi o lateral Marinho, do Fluminense, que teve sua carreira muito mais identificada com o Botafogo, quando chegou à seleção e disputou a Copa de 74, na Alemanha.

O tricolor venceu por 3×1, mas a partida começou difícil, pois o “alvinegro da zona rural” assinalou seu tento, logo aos 30 segundos de jogo. Para complicar, nove minutos depois, foi expulso o centroavante tricolor Nunes (o mesmo que se destacou, depois, no Flamengo, como companheiro do Zico).

O árbitro da partida era Arnaldo Cesar Coelho, um dos principais da Federação e que se tornou, ao se aposentar, um popular comentarista de arbitragem na TV.

Na reportagem do jornal, Nunes se explicava:

– “Não fiz nada, apenas movimentos com os braços, sem gestos obscenos, lá do meio-campo, olhando para o bandeira”.

Continuava o atacante:

 – “De repente, o bandeira chamou o Arnaldo, que depois de conversar com ele, veio a mim e disse:”

– “Nunes, você está expulso”.

– “Eu?”, perguntei.

– “É, você.” Falou-me o juiz e completou:

– “Ele garantiu ter sido xingado por você”.

Quem era o bandeira do episódio? Reginaldo Mathias, logicamente. Arnaldo Cesar Coelho, que anos depois dirigiu a final da Copa de 82, entre Itália e Alemanha, devia conhecer a fama do seu auxiliar e não titubeou em dar-lhe crédito.

“A REGRA ERA CLARA”, para o Arnaldo, antecipando, talvez, o bordão que o popularizou, mais tarde, como comentarista de arbitragem: a ofensa aos auxiliares deveria ser entendida como endereçada, também, ao árbitro, e passível de expulsão.

Inspirado neste exemplo, eu apitava um jogo pelo Campeonato dos Correios, quando foi feito lançamento em profundidade para um atacante, que dominou a bola e partiu em direção ao gol. Por achar que ele estava em posição de impedimento, um defensor do time adversário, ao mesmo tempo em que ia em seu encalço, dirigia impropérios ao bandeirinha, para que levantasse a bandeira.

Esperei a conclusão da jogada, que não resultou em gol, e mostrei ao zagueiro o cartão vermelho. Ele argumentou que não havia me ofendido e, sim, ao bandeirinha. Minha resposta foi o título deste artigo:

“XINGOU O BANDEIRINHA, ME XINGOU TAMBÉM. TÁ EXPULSO”.

Não cheguei a vivenciar as intensas e extremas pressões sofridas pelos árbitros. O campeonato em que atuei era de uma empresa e, normalmente, não havia grandes desavenças entre jogadores e/ou torcedores, pois a plateia era composta por familiares e colegas de trabalho.

Minha carreira como árbitro de futebol não prosperou. Se tivesse que apitar um jogo do meu Fluzão, como me comportaria? Preferi dedicar meus fins-de-semana à família e aos filhos pequenos.

Acho que fui um bom “juiz de futebol” e jamais poderei ser considerado, como dizia o Mário Vianna “com dois enes”, um mero “Soprador de Apito”.

Colagem: Jornal dos Sports – 13/11/1978

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5 comentários

  1. Competência = conhecimento + habilidades + atitude. Trata-se de qualidades essenciais a quem se propõe a enfrentar desafios como apitar 1 partida de futebol.

  2. O que nosso cronista não faz? Mais uma de suas muitas atividades!!! Juiz de futebol!!! O domínio do assunto, a memória privilegiada e habilidade com a palavra fácil e precisa produziram um texto interessante e delicioso!! Amei!!! Parabéns!

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