O Movimento Massa Crítica, dos ciclistas

Por Leo V

Um dos lemas da Massa Crítica é de que “nós somos o trânsito”.

As ruas não são dos carros. Não havia manifestação. Havia bicicletas circulando em via pública. Ou em qual lei diz que ruas são feitas só para carros?

O delegado mostra desconhecimento do próprio Codigo de Transito.

O que cria engarrafamento é a quantidade de carros, não de bicicletas.

Segue início de artigo que escrevi, falando dobre a Massa Crítica, para o livro Apocalipse Motorizado publicado pela Conrad Editora em 2004:

Nós Somos o Trânsito! ou Everyday is a Holiday

Ned Ludd

Entre o comunismo[1] e a propriedade há um mundo a construir, já dizia Proudhon no século XIX. Entre ser enlatado no chamado transporte coletivo na hora do rush e a luta de todos contra todos do transporte privado automobilístico há um mundo a construir. Nem a anulação do indivíduo, nem o cada um por si. Esse talvez seja um dos inúmeros significados que podem ser atribuídos à Bicicletada[2]: uma recente versão brasileira da internacional Critical Mass (Massa Crítica), evento que em 2002 ganhou mensalmente as ruas de São Paulo e Florianópolis, embora ocorrências similares e não tão similares[3] tenham tido existência esporadicamente ou aperiodicamente em outras cidades brasileiras, como em Brasília. É provável que quando estas linhas estiverem sendo lidas por você outras cidades brasileiras já tenham também suas bicicletadas mensais.

A Massa Crítica[4] surgiu em 1992 na cidade de San Francisco, EUA, quando Chris Carlsson foi a uma reunião da San Francisco Bike Coalition levar a idéia que havia sido discutida e gerada por um grupo de pessoas do qual ele fazia parte. Levando em conta que havia muitos ciclistas na cidade e que as condições para o tráfego de bicicletas eram muito ruins, a idéia consistia em se juntarem uma vez por mês e fazer essa presença ser sentida pelos próprios ciclistas e pelo resto da cidade ao pedalarem juntos para casa.

A primeira Massa Crítica ocorreu em setembro de 1992 e contou com cerca de 60 pessoas. Em pouco tempo a idéia se espalhou pelo mundo, de norte a sul, de leste a oeste, para dezenas de cidades, a ponto de hoje em dia ser quase impossível precisar todas as cidades onde elas ocorrem. Em dois anos de existência as Massas Críticas de San Francisco já conseguiam reunir por vezes milhares de ciclistas. Também em pouco tempo o número de pessoas que passaram a utilizar a bicicleta para ir ao trabalho em San Francisco aumentou vertiginosamente.

Ela se tornou também uma forma comum de expressão e manifestação em todo o mundo (principalmente na Europa e EUA), usualmente fazendo parte de manifestações contra guerras, contra o Banco Mundial, o FMI, o G8, nas quais são reivindicadas relações mais ecológicas e justas. A grosso modo a Massa Crítica é uma forma de reivindicar as ruas para os ciclistas e para as pessoas, uma forma de expressão antagônica à chamada “cultura do automóvel”. Mas sua forma a torna aberta a uma verdadeira exploração de significados, ainda mais na medida que ela se insere e é (re)formulada em contextos históricos, sociais, culturais, econômicos e políticos tão distintos quanto são as cidades onde ela tem ganho vida e tão distintos quanto as pessoas que têm dado vida a ela. Ela pode significar desde a reivindicação de espaço e respeito aos ciclistas até uma completa transformação da vida cotidiana. Ela é o próprio trânsito criando na hora do rush uma zona livre de motores, de barulho, de fumaça, de individualismo do cada um por si. Chris Carlsson vai além, refletindo sobre a Massa Crítica de San Francisco:

 

A experiência da Massa Crítica dá a seus participantes algo tangível, mais do que uma mera volta de bicicleta. Na vida cotidiana, a maioria de nós se sente separado e isolado das pessoas em nossa volta. Quantos de nós conhecem seus vizinhos? Quantos de nós viveram no mesmo lugar mais do que por poucos anos? A vida moderna no centro do mercado mundial é perversamente abundante quando se trata de bens e serviços, mas na profunda destruição das culturas e comunidades tradicionais que tem sido um pré-requisito da expansão do mercado, temos perdido uma grande parte de nossa humanidade, a parte de nós que encontra seu desenvolvimento na comunidade. (…) Quantos de nós têm a experiência diária ou semanal de encontrar os vizinhos e amigos em um ambiente social que não o do supermercado, do shopping ou da loja? Por que passamos tanto tempo das nossas vidas fazendo coisas sozinhos no meio de uma multidão? (…) A Massa Crítica se oferece como um antídoto da eliminação do espaço público que infesta nossas vidas. Não sabemos mais (se é que um dia soubemos) por quê precisamos de espaço público, e certamente não sabemos o que fazer com ele quando o temos. (…) No passado, a oposição política cresceu principalmente nos locais de trabalho e nas comunidades étnicas. Essas antigas formações foram em grande parte derrotadas, e o a força relativa alcançada nos momentos históricos iniciais via sindicatos e vários programas governamentais foi desmantelada, e as comunidades enquanto tais apagadas. A Massa Crítica representa um florescente movimento de trânsito alternativo que traz consigo uma consciência ecológica (Chris Carlsson, 7 de junho de 1994).

A Massa Crítica foi concebida para ser um novo tipo de espaço político, não relativo a protesto, mas sim relativo a celebrar nossa visão de alternativas preferidas, mais obviamente, nesse caso, pedalando sobre a cultura do carro. Essencialmente queríamos fincar nossas bases nas fortes raízes do humor, do desdém pela autoridade, da descentralização e da autodireção que caracterizam nossa história político-cultural local. (Chirs Carlsson, setembro de 1995).

(…)(o resto do artigo e o livro na pintegra pode ser baixado aqui: http://brasil.indymedia.org/media/2008/04//417244.pdf )

[1] Com a palavra comunismo Proudhon se referia ao comunismo estatal, ou estatizante.

[2] Para detalhes e informações sobre a Bicicletada, quando e onde ocorrem etc., acesse o site www.bicicletada.org .

[3] Como por exemplo os passeios pela orla do Rio de Janeiro que em meados dos anos 1990 chegaram a reunir milhares de ciclistas.

[4] O nome “Massa Crítica” foi retirado do documentário sobre bicicletas Return of the Scorcher, de Ted White, no qual a travessia de cruzamentos nas grandes cidades chinesas é discutido em termos de massa crítica: as bicicletas se acumulam até atingirem um ponto de massa crítica, no qual conseguem parar o tráfego e atravessar o cruzamento.

Por IV Avatar do Rio Eufrates

Para uns massa crítica, para outros bicicletada, o movimento existe em todas as partes do mundo, sendo um movimento pacifista, ecológico, que propõe um meio alternativo de transporte e de construção de relações de amizade

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