A Nova República Bananeira: os EUA, o peso da demografia e o desafio da diversidade, por Jorge Alexandre Neves

O que está acontecendo nos EUA que leva a tal rebaixamento inédito de sua centenária democracia? É a demografia, estúpido!

A Nova República Bananeira: os EUA, o peso da demografia e o desafio da diversidade

por Jorge Alexandre Neves

Escrevo estas linhas enquanto assisto, em tempo real, a invasão bárbara ao Capitólio. Salta aos olhos a homogeneidade racial dos invasores, brancos e aloirados, como também os eram, esmagadoramente, os bárbaros invasores da velha Roma latina. Troco mensagens instantâneas com meu amigo Fabrício Fialho, grande pesquisador da desigualdade política inter-racial no Brasil, nos EUA e na África do Sul, hoje trabalhando em terras britânicas, que concordou de imediato com minha observação e adicionou a questão central de um artigo publicado no site da Universidade Harvard (1): “ser americano = ser branco?”. A identidade nacional nos EUA tem um claro viés de raça! Só brancos podem ser reconhecidos como “patriotas”, é o que mostra o artigo.

O que está acontecendo nos EUA que leva a tal rebaixamento inédito de sua centenária democracia? É a demografia, estúpido! Não é a primeira vez na história que vemos uma elite étnico-racial demograficamente majoritária se sentir acuada com o crescimento demográfico de grupos minoritários. Já vimos casos no passado (ex.: Líbano) e ainda veremos muitos outros no futuro (na Europa já vemos processos semelhantes se iniciando).

No caso dos EUA, embora os negros, enquanto grupo étnico-racial, estejam lá há muito mais tempo do que alguns grupos étnicos brancos (como os italianos, entre outros), eles não foram incorporados à identidade nacional “americana” como os grupos brancos. Vimos o que aconteceu no Líbano (poucos sabem disso, mas há mais “libaneses” no Brasil do que no próprio Líbano). O que acontecerá nos EUA? Difícil prever. Uma coisa, contudo, é possível afirmar: a mudança na estrutura demográfica – em termos étnico-raciais – dos EUA, que fará com que, inexoravelmente, os brancos percam seu status de grupo majoritário em algumas décadas, está aproximando frações significativas dos brancos estadunidenses dos valores autoritários (golpistas) e exclusivistas típicos das elites brancas latino-americanas. Fica o desafio para nós cientistas sociais: como conciliar democracia, desenvolvimento econômico e equidade social (características típicas dos “países ocidentais”) com uma real diversidade étnico-racial? Arregacemos as mangas, colegas. Ao trabalho… Enquanto isso, vamos dar boas-vindas aos estadunidenses no clube das repúblicas bananeiras.

1 https://sites.fas.harvard.edu/~mrbworks/articles/manuscripts/devos_american.pdf.

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997.  Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

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