Bolsonaro diz que Israel é modelo a seguir, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Brasil deve resistir à tentação do militarismo exportado pelos EUA e praticado por Israel. Governo deve colocar o Brasil exatamente no lugar em que se encontra

Bolsonaro em viagem a Israel, em abril de 2019 - Foto: Reuters

Bolsonaro, de mito a levantador de anões

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Embriagado pelo poder que não merece exercer, mentalmente confuso em virtude dos danos que o COVID-19 causa no cérebro ou, quem sabe, entorpecido por efeitos colaterais da cloroquina, Jair Bolsonaro citou Israel como um modelo para o Brasil.

É impossível deixar de notar o abuso que ele cometeu. Israel tem pouco mais de 9 milhões de habitantes, área de mais ou menos 21 mil quilômetros quadrados e um PIB de 373 bilhões de dólares (dados de 2018). O Brasil tem 210,14 milhões de habitantes, área de 8,515 milhões de quilômetros quadrados e um PIB de 3,217 trilhões de dólares (dados 2017).

No ranking de países de acordo com o PIB, o Brasil ocupa o 9° lugar (chegou a ocupar o 5° durante os governos do PT) e tem condições de prosperar muito se preservar a natureza, educar a população, incentivar o mercado interno e não se envolver em aventuras militares; Israel está em 33° lugar e vive sob o risco de ser devastado por uma guerra de grandes proporções. Ao contrário dos israelenses, os brasileiros não dependem das doações que recebem dos EUA.

Não existe nenhum cenário em que Israel possa ser considerado um modelo para o Brasil. Só uma pessoa totalmente desinformada, maliciosa, mal intencionada ou insana consideraria a hipótese de rebaixar nosso país ao nível de uma minúscula e problemática nação do Oriente Médio.

Bolsonaro ofendeu profundamente os brasileiros ao elevar Israel a modelo de desenvolvimento. Não só isso, ele coloca em risco imensos contingentes de populacionais que já se encontram em situação de vulnerabilidade (digo isso pensando especificamente nos índios e quilombolas, que estão sendo assediados por ruralistas, grileiros e garimpeiros criminosos) sugerindo que o Brasil começará a trata-los como Israel trata os palestinos.

O primeiro ministro de Israel está sob investigação por crimes de guerra em Gaza e na Cisjordânia. O presidente brasileiro também foi formalmente acusado de usar a pandemia para provocar um genocídio. As autoridades brasileiras não podem fazer nada além de lamentar o extermínio de palestinos, mas elas têm obrigação de cumprir e fazer cumprir a Constituição que garante os direitos de índios e quilombolas. Compete ao Congresso Nacional e ao STF frear as ambições de grupos poderosos apoiados por um presidente enlouquecido por obsessões religiosas, fantasias econômicas e ambições criminosas.

A grandeza ou pequenez de Israel não nos diz respeito. O tempo é precioso e não deve ser desperdiçado com delírios acerca das supostas virtudes de uma nação irrelevante e distante do Brasil. Os judeus brasileiros que votaram em Jair Bolsonaro podem até considerar um elogio ele dizer que Israel é um modelo para o nosso país. Todavia, e isso precisa ser dito, eles são poucos e a esmagadora maioria dos brasileiros não quer transformar o Brasil num clone daquele inferno árido do Oriente Médio.

Nosso país é uma potência regional. O governo deve colocar o Brasil exatamente no lugar em que ele que se encontra. Nossa missão é construir uma nação capaz de se desenvolver sem conflitos internos violentos (como os que ocorrem entre israelenses e palestinos) e mantendo a paz com os vizinhos.

O Brasil deve resistir à tentação do militarismo exportado pelos EUA e praticado em menor escala por Israel. Os únicos que se beneficiam do imperialismo “made in USA” são os norte-americanos. Nem todos os norte-americanos, é bem verdade, pois uma parcela da população dos EUA está sendo condenada à miséria para que a elite daquele país possa acumular mais e mais capital fomentando guerras desnecessárias para vender armamentos e pilhar países inteiros.

Por fim, não posso deixar de notar algo interessante. Toda vez que fala ao público Jair Bolsonaro age como se fosse uma reencarnação tupiniquim de Alexandre, o grande. Não existe qualquer semelhança entre o presidente brasileiro e o conquistador macedônio que construiu o imenso império multi-racial que esfacelou assim que ele morreu.

“Alexandre correu, de fato, grandes perigos nas batalhas que se seguiram, e recebeu várias feridas, expondo-se a temeridade de um jovem. A maior parte do exército pereceu pela carestia das coisas mais necessárias e pelas adversidades do clima. Para ele, que timbrava em sobrepujar a má sorte com a audácia, e vencer a força contrária com a virtude, nada havia que pudesse resistir ao assalto de homens audaciosos, nem fortificações que não pudessem ser tomadas quando defendidas por covardes.” (Alexandre e Cesar – as vidas comparadas dos maiores guerreiros da Antiguidade, Plutarco, Prestígio, Rio de Janeiro – São Paulo, 2001, p. 124)

Apesar de romancear uma carreira militar medíocre que foi interrompida em razão dele ter se transformado num terrorista, Bolsonaro nunca correu qualquer risco militar. Ele chegou ao poder espalhando Fake News e tirando proveito do vácuo político criado pelo golpe de 2016.

Ninguém (nem o próprio Bolsonaro) deveria acreditar o presidente brasileiro está tem condições de levar o Brasil a se tornar uma potência econômica ou militar. Muito pelo contrário, sob o comando do “mito” a economia brasileira está encolhendo.

Isolado diplomaticamente por causa do apoio que Bolsonaro tem dado ao desmatamento e ao extermínio de índios, a situação do nosso país tende a piorar. A nova diplomacia orientada pelo fanatismo religioso é um desastre sem precedentes. A China já está deixando de comprar alimentos brasileiros. E os norte-americanos certamente não pretendem importar o que eles mesmos estão em condições de produzir e exportar.

Alexandre mereceu o título de “o grande”. O único título que o presidente brasileiro merece é o de “levantador de anões”. Foi exatamente isso que ele fez ao transformar Israel em modelo para o Brasil.

 

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