Documentos sugerem que agências governamentais sabiam sobre nitrato de amônio em porto de Beirute

As informações são fartas, incluindo e-mails e documentos de tribunais públicos, mostrando que as autoridades foram notificadas sobre o armazenamento de toneladas de nitrato de amônio

Jornal GGN – Documentos recém divulgados sugerem que as agências governamentais foram informadas sobre o nitrato de amônio alojado em um armazém no porto de Beirute, no Líbano. As informações são fartas, incluindo e-mails e documentos de tribunais públicos, mostrando que as autoridades foram notificadas sobre o armazenamento de toneladas de nitrato de amônio, o equivalente a uma ‘bomba flutuante’. Os documentos foram obtidos pela CNN.

O primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, disse que era ‘inaceitável’ que um carregamento deste porte de nitrato de amônio fosse armazenado por seis anos. Mas os documentos mostram que membros do governo libanês e do judiciário foram inofrmados.

Em 2013, um navio de propriedade russa, MV Rhosus, foi detido em Beirute com uma carga de 2.750 toneladas de nitrato de amônio, usado na agricultura industrial e mineração. A carga seria destinada a Moçambique, mas o navio parou em Beirute devido a dificuldades financeiras.

A Baroudi & Associates, que representou a tripulação da embarcação russa, publicou um comunicado na quarta-feira dizendo que enviou cartas em julho de 2014 a funcionários do porto de Beirute e do Ministério dos Transportes “alertando sobre os perigos dos materiais transportados no navio”.

Eles afirmam que também receberam uma carta naquele mês “do Diretor Geral de Transporte Terrestre e Marítimo, informando que ele enviou cartas oficiais ao Ministério da Justiça pedindo que fizessem o que fosse necessário para que o navio evitasse afundar e expusesse o porto ao perigo de sua carga.”

“Ele também nos disse que enviou uma carta às autoridades navais para fazer o necessário para reparar o navio e evitar o naufrágio”, diz o comunicado.

A CNN entrou em contato com o Ministério da Justiça do Líbano, Ministério dos Transportes e Porto de Beirute para comentar, mas não recebeu resposta.

Apesar dos avisos, a carga permaneceu no porto.

As autoridades aduaneiras reiteraram os avisos a um juiz sobre a carga perigosa, e este juiz respondeu várias vezes que o navio e sua carga não estavam dentro da jurisdição do tribunal, apontam os documentos.

A questão da jurisdição foi discutida, ainda, pelo juiz e seu sucessor, em respostas escritas à mão em 2016 e 2017, dizendo que era preciso ‘discutir em que medida a jurisdição do tribunal’ abordava esse assunto.

A Baroudi & Associates também disse que o destino pretendido da carga potencialmente explosiva era Moçambique e que estava sendo embarcado “por ordem do Banco Internacional de Moçambique“ quando foi detido em Beirute.

O Banco Internacional de Moçambique e a Fábrica de Explosivos de Moçambique – uma empresa de mineração comercial em Moçambique – não responderam a um pedido de comentário da CNN.

O Ministério dos Transportes e Comunicações de Moçambique também informou à Lusa que eles não foram informados sobre o navio russo.

A possibilidade de que a explosão pudesse ter sido evitada já provocou acusações de negligência do governo, enraizadas na frustração de longa data com a classe política do Líbano.

A explosão, que matou mais de cem pessoas e feriu milhares, aconteceu quando o Líbano já estava vivendo o aumento do desemprego, a alta dos preços e uma moeda em queda livre. Para muitos, a tragédia é mais uma prova da inaptidão e corrupção do governo.

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