Erik Wright, o Marxismo Analítico e o Brasil de hoje, por Jorge Alexandre Neves

Erik Wright, o Marxismo Analítico e o Brasil de hoje

por Jorge Alexandre Neves

Erik Olin Wright se foi. E de uma forma comovente, escrevendo nas redes sociais sua percepção sobre o mundo e sobre a sua própria morte que se avizinhava. Partiu ontem, 23 de janeiro de 2019, após lutar contra a leucemia.

Conheci Erik na década de 1990, quando eu era aluno de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, onde ele passou toda sua carreira docente. Isso não é muito comum entre os grandes nomes do meio acadêmico americano. De modo geral, costumam mudar bastante de emprego, em busca de melhores salários, prestígio ou condições de trabalho (recursos para a pesquisa, equipamentos, laboratórios, etc.). Erik recebeu convites acompanhados de todas essas coisas, inclusive de prestigiosas instituições da chamada Ivy League. Recusou todas e quis ficar em Madison, porque acreditava que seria possível deixar algo sólido, que sobrevivesse à sua própria morte. Deixa, em particular, um grande centro de pesquisa, formação e inserção no mundo, o Havens Center, que, estou certo, terá a longevidade esperada por Erik garantida pelo Departamento de Sociologia da universidade.

Entre meus contatos com Erik, o principal foi em um seminário de pós-graduação oferecido por ele sobre “Raça e Classes”, que assisti. Infelizmente, devo confessar que não gostei muito. Como ocorre com muitos marxistas, Erik tendia, a meu ver, a subestimar os efeitos causais da raça sobre a desigualdade socioeconômica o sistema de estratificação social.

Por outro lado, aprendi muitíssimo com seus trabalhos. Uma década antes de conhecê-lo, ainda estudante na UFPE, li o seu livro “Classe, Crise e o Estado”. Naquele momento, o chamado “Marxismo Analítico” tinha emergido como um movimento de renovação da análise marxista nas Ciências Sociais. Erik era um dos baluartes daquele movimento teórico, junto com figuras como Jon Elster, Adam Przeworski e John Roemer, entre outros.

A renovação da análise marxista feita naquele momento influenciou toda numa geração de cientistas sociais. A busca de fundamentação empírica e o uso de modelagens quantitativas – de base matemática ou estatística – também foram marcantes daquele momento. Em particular no caso de Erik, a importação de elementos da teoria weberiana para a análise marxista também ajudou muito a torná-la mais capaz de compreender as sociedades contemporâneas.

A habilidade de conjugar fundamentos teóricos com técnicas de análise de dados foi o que de melhor aprendi na Universidade de Wisconsin-Madison. No estudo da estratificação e da desigualdade social, de um lado, tinha-se toda uma tradição, criada por Erik, que levou ao desenvolvimento de análises estruturais e sua instrumentalização. De outro, uma tradição mais antiga iniciada por Bill Sewell – e levada adiante, entre outros, por Arch Haller (infelizmente, também já falecido), que foi meu orientador – de operacionalização e análise com base em microfundamentos – em particular, psicossociais – de explicação do processo de estratificação social. Foi um privilégio para mim.

Todavia, Erik produziu algo mais do que desenvolvimentos teóricos e metodológicos para a análise da estrutura de classes. Ele – e nisso os elementos de teoria weberiana foram fundamentais – também investiu em aspectos mais políticos da análise de classes. Não é por acaso que aquele que provavelmente é o seu mais famoso ex-orientando – Gøsta Esping-Andersen – se tornou talvez a maior referência nas pesquisas que tentam conectar análise de classes e estratificação social com análise política.

No seu velho livro “Classe, Crise e o Estado”, Erik traz, nos capítulos finais, uma boa análise teórica sobre a relação entre classes sociais e política. Penso que aquela parte do seu livro é particularmente útil para pensarmos o que aconteceu com o Brasil a partir dos governos petistas. Em particular, gosto sempre de citar este pequeno trecho:

“Para que um governo de esquerda tenha a oportunidade de instituir medidas que atendam os interesses fundamentais da classe trabalhadora (medidas anticapitalistas) será essencial que ele seja capaz não apenas de transformar em leis essas medidas, mas também de fazer executá-las. Isso exige uma capacidade para controlar o trabalho concreto da burocracia. Se a burocracia for suficientemente autônoma em relação aos órgãos eleitos – como Weber mostrou no caso da Prússia no início do século XX –, as medidas anticapitalistas do Estado poderão ser neutralizadas no processo concreto de intervenção do Estado.” (Grifo meu).

 Neste trecho do seu livro, Erik mostrou que conseguiu entender bem melhor o extraordinário ensaio de Weber intitulado “Parlamentarismo e Governo numa Alemanha Reconstruída” do que outro grande leitor da obra weberiana, Raymundo Faoro, que, no final do seu livro “Os Donos do Poder”, comete a ingenuidade de afirmar que:

“(No Brasil)… não impera a burocracia, a camada profissional que assegura o funcionamento do governo e da administração, mas o estamento político. A burocracia, como burocracia, é um aparelhamento neutro, em qualquer tipo de Estado, ou sob qualquer forma de poder.” (Grifo meu).

O trecho do livro de Erik transcrito acima nos ajuda a analisar o caso brasileiro e perceber que era, de fato, indispensável aos governos do PT buscar desenvolver “burocracias alternativas” (e isso foi feito em áreas como a saúde e a assistência social, com grande sucesso), bem como que foi o poder desmedido da tradicional burocracia estatal brasileira (excessivamente autônoma) – em particular, mas não apenas, da área jurídica – que contribuiu sobremaneira para a derrubada do Governo Dilma, para o processo de desmonte do estado democrático de direito e para a migração do centro de gravidade da política brasileira para a direita. Ao contrário do que parecia pensar Faoro, a burocracia profissional nunca é neutra, em lugar nenhum do mundo, menos ainda no Brasil, onde forma um estamento constituído há dois séculos.

Erik fará falta às Ciências Sociais em nível mundial. Mais ainda, deixará saudades entre nós que temos compromissos com o socialismo democrático ou a socialdemocracia e que queremos ver um dia um mundo no qual triunfou a justiça social e a solidariedade humana.

Jorge Alexandre Neves – Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), Professor Titular do Departamento de Sociologia da UFMG, Professor Visitante da Universidade do Texas-Austin (EUA) e da Universidad del Norte (Baranquilla, Colômbia), pesquisador do CNPq. Especialista em desigualdades socioeconômicas, análise organizacional, políticas públicas e métodos quantitativos.

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