EXCLUSIVO: 1º ministro alvo da Lava Jato de Portugal fala sobre sua luta solitária contra o arbítrio

José Sócrates explica a perseguição "absurda" que sofreu do Ministério Público português e a semelhança com o caso do ex-presidente Lula. Ele destaca, no entanto, que diferente de Portugal a mídia alternativa brasileira resistiu

José Sócrates. | Foto: PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP

Jornal GGN – O ex-primeiro-ministro português José Sócrates foi absolvido de três denúncias de corrupção apresentadas pelo Ministério Público de Portugal, nesta sexta-feira, 9. Ele falou com exclusividade ao jornalista Luís Nassif sobre os desdobramentos da decisão, na manhã deste sábado, 10, durante transmissão ao vivo na TV GGN.  

A decisão do Tribunal Central de Instrução Criminal desmontou a acusação que, em outubro de 2017, apontou o ex-líder socialista como autor de 31 crimes. 

O episódio envolvendo Sócrates é semelhante ao caso do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, alvo da arbitragem do Ministério Público Federal, por meio da Operação Lava Jato e as decisões tendenciosas do ex-juiz federal Sérgio Moro. 

Assim como Lula, Sócrates foi alvo de condução coercitiva e ficou 11 meses preso, enquanto foi protagonista de um grande espetáculo político-midiático. 

Ontem, o juiz de instrução Ivo Rosa acatou pouco mais de 10 denúncias e rejeitou todas as que indicavam corrupção por parte do ex-líder político. Ele, no entanto, ainda será julgado por acusações de lavagem de dinheiro e falsificação de documento.

“O juiz concluiu que todas as acusações de corrupção contra mim não tinham mérito, sustentação e fundamento. As acusações eram fantasiosas, incongruentes, como eu sustentei desde o início, que não eram apenas injustas e falsas, mas absurdas”, disse Sócrates. 

O político português destacou a semelhança entre os casos brasileiro e português. “O que é extraordinário e foi verificado, sobre o que se deu aqui em Portugal e no Brasil, é no que diz respeito a escolha do juiz. Porque, ontem, o juiz de instrução declarou que o processo foi distribuído para um juiz de forma viciada, fraudulenta, arbitrária e que descumpriu a Lei”, apontou.

Ainda, para o ex 1º ministro todo este caso foi uma tentativa de criminalização das políticas de sua gestão. “Todas as acusações que faziam eram contra as bandeiras políticas do meu governo, por exemplo, a construção de escolas públicas ou a diplomacia e economia com a Venezuela. Tudo isso foi criminalizado com o objetivo de lançar a infâmia sobre o meu governo”, disse. 

“O governo que me sucedeu, arranjou uma procuradoria-geral que fez tudo o que lhe mandava fazer: prender o Sócrates e criminalizar todas as políticas do meu governo”, explicou.

“Mas, ontem, foi um belo dia pra mim, uma vitória para minha integridade como político, foi muito importante, porque ficaram completamente arrasadas todas as acusações”, desabafou. 

Quando a mídia alternativa se faz necessária 

Sócrates também destacou como a mídia local se uniu nesta campanha contra o seu governo. Segundo ele, as acusações descabidas “foram sustentadas durante anos numa campanha horrível em todos os meios de comunicação social, com horas e horas de televisão”, explicou. “O que se passou aqui, vocês [brasileiros] conhecem muito bem, porque viveram exatamente as mesmas coisas, a mesma preciosidade da mídia, sempre acudindo as acusações do Ministério Público sem pedir a apresentação de provas”, disparou. 

Mas, ao comparar o seu caso com o do ex-presidente Lula, ele ressaltou que o que diferença entre Portugal e Brasil está na discussão desses abusos, por meio das denúncias feitas pela mídia alternativa. “No Brasil há debate sobre esse assunto, enquanto aqui [em Portugal] há silêncio” disparou. 

O avanço globalizado da extrema-direita

Sócrates também explicou o dado momento em que a instrumentalização do sistema judicial para perseguição política começou a ser usada contra o seu governo. 

“Tudo isso aqui em Portugal aconteceu pela primeira vez, porque até então não havia isso na tradição da política portuguesa. Isso tem a ver com o momento em que os políticos da direita começaram a contratar marqueteiros do Brasil para fazerem essa jogada suja. Assim, pela primeira vez, se definiu como orientação política criminalizar os governos antecedentes, nomeadamente o meu”, concluiu.

Assista a entrevista na íntegra:

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