Fed não vai aumentar juros se desemprego não cair

Da Folha

Análise: Fed abandona sutileza e vai direto ao ponto

PATRÍCIA CAMPOS MELLO

“Fed speak”, descanse em paz. Foi enterrada ontem a “língua do Fed”, a forma ambígua e empolada que o banco central americano usava em seus comunicados após as decisões sobre juros.

Pela primeira vez, a “ata” do Federal Open Market Committee (o Fomc, o Copom dos americanos) foi explícita: não iremos nem pensar em elevar os juros antes de o desemprego chegar a uma taxa de, no máximo, 6,5% e enquanto a inflação não ultrapassar 2,5% (meio ponto porcentual acima da meta implícita de 2%, é bom notar). O desemprego está em 7,7%.

Normalmente, o Fed funciona como um oráculo, que fala de forma vaga e é interpretado pelos investidores, agindo sobre as expectativas.

Por exemplo, uma ata do Fomc diz que a economia deve permanecer fraca no próximo ano ou até 2014, e os investidores intuem que, por isso, o Fed vai manter o juro baixo e agem de acordo. O maior representante do Fed Speak foi Alan Greenspan, presidente do Fed (1987-2006), autor de algumas das declarações mais incompreensíveis do jargão financeiro.

No novo modelo, vai-se direto ao ponto –não vamos elevar os juros até que o desemprego chegue a 6,5% e a inflação supere 2,5%. O Fed especifica o que precisaria mudar na economia, em que magnitude, para os juros se alterarem.

Com essa mensagem taxativa, espera-se, o investidor vai sentir mais firmeza para tirar seu dinheiro de aplicações seguras e aplicar no setor produtivo, prevendo que os juros seguirão baixos e a economia vai reaquecer.

Ou seja, já que a sutileza não estava adiantando, o Fed resolveu ser categórico para ver se finalmente desperta “espíritos animais” dos investidores nos EUA.

Ontem, o presidente do Fed, Ben Bernanke, afirmou que os parâmetros numéricos iriam dar mais suporte a “confiança e gastos dos consumidores e empresas” e fariam a política monetária “mais transparente e previsível” para o público.

O responsável pela morte do “Fed speak”, no entanto, não é Bernanke.

É Charles Evans, diretor do Fed em Chicago. Evans se tornou sucesso absoluto nas redes sociais ontem.

Em um estudo de 2011, Evans diz que o Fed deveria usar discurso mais explícito para agir sobre as expectativas. E segundo o colunista da Slate Matthew Yglesias, causaram controvérsia suas ideias de manter juro baixo até o desemprego cair abaixo de 7% ou a inflação ultrapassar 3%. Como se viu, a proposta foi adotada quase ipsis literis por Bernanke.

Resta saber qual será o poder da revolução na língua do Fed diante de possível abismo fiscal, conjunto de cortes de gastos e elevação de impostos que pode empurrar a economia para a recessão. Como advertiu Bernanke ontem: “O Fed não tem instrumentos para compensar [o abismo]”.

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