Nobel a programa multilateral contra a fome é também confronto a governo brasileiro, diz Hussein Kalout

"O Nobel ao Programa Mundial de Alimentos demonstra mais uma vez como o Brasil, um país antes respeitado internacionalmente por seu perfil ativo na defesa do multilateralismo, caminha a passos largos para a irrelevância"

Foto: AFP

Jornal GGN – O governo brasileiro ficou preocupado com a indicação do líder indígena Cacique Raoni para o prêmio Nobel de Paz, segundo já havia indicado o colunista Jamil Chade, do Uol. De fato considerado a receber a homenagem, a opção seria uma dura resposta mundial contra a gestão ambiental do governo Bolsonaro. Mas para o cientista político Hussein Kalout, o título dado ao Programa Mundial de Alimentos, agência contra a fome da ONU, também incomodou.

“Porque dá visibilidade e reconhecimento mundial não apenas aos esforços do Programa Mundial de Alimentos na luta contra a fome e a desnutrição (…), mas, sobretudo, por realçar a ideia mesma de soluções multilaterais para problemas que afetam países e nações individuais”, anotou, em artigo para o Estadão.

Isso porque o problema da fome, assim como do meio ambiente, incluindo a mudança do clima, o manejo dos recursos hídricos, pesqueiros e marinhos, além de outras necessidades individuais de países dependem da cooperação global, por meio de parcerias e organizações multilaterais.

Dessa forma, o silêncio do ministro de relações exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, sobre o Nobel concedido ao programa, é porque também incomodou. De uma “delicadeza diplomática”, o termo “multilateralismo”, conforme mostrou o cientista político, é por vezes usado para problemas que “não serão efetivamente enfrentados e resolvidos”, mas que requerem essa cooperação globalizada.

Mas Araújo utilizou-se dessa “delicadeza” para dizer que o multilateralismo é algo “inapropriado”, “nocivo”, porque em sua tese diminuiria a soberania nacional. “Na verdade, o multilateralismo, assim como o direito internacional, reflete o mais puro exercício da… soberania nacional!”, permitiu-se ensinar Hussein Kalout.

“Os Estados é que tomam a decisão soberana de contrair obrigações políticas ou jurídicas no âmbito internacional quando consideram que essa é a forma de defender melhor seus interesses, seja na luta contra a fome, na busca da paz e da segurança, na assistência humanitária ou no combate e prevenção de doenças.”

Lembrando ainda que “a maior parte das falhas decorre” não das organizações multilaterais, mas dos próprios países membros que assumiram responsabilidades, em suas diferenças e desacordos, o Kalout descreve que o prêmio “apenas ajuda a evidenciar o contraste entre um mundo que necessita cada vez mais do multilateralismo e um Brasil que se auto-isola, descartando suas credenciais históricas de país comprometido com o direito internacional e as soluções multilaterais”.

“O Nobel ao Programa Mundial de Alimentos demonstra mais uma vez como o Brasil, um país antes respeitado internacionalmente por seu perfil ativo na defesa do multilateralismo, caminha a passos largos para a irrelevância. Em nome da soberania nacional, denuncia-se o multilateralismo, enquanto se pratica a sabujice explícita ao governo disfuncional de Donald Trump. Esse é o paradoxo evidente de uma política externa sem bússola, cuja característica principal é a terceirização da definição de nosso interesse nacional”, escreveu.

Leia a coluna completa no Estadão.

 

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1 comentário

  1. Estamos a 0 dias
    sem passarmos vergonha internacionalmente.
    Nosso recorde é de 0 dias.

    Eu me sinto humilhado, todo santo dia, por toda e QQ decisão que esse governo tome. Não dá uma dentro. A foto desse débil mental (com todo respeito aos debeis mentais pois não merecem ser comparados a esse sabujo) me dá asco. Assim como de seu chefe. Que tempos!
    “Se um idiota é eleito… Então aqueles que o elegeram estão bem representados”

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