O que Cuba ainda pode ensinar ao mundo?, por Camila Koenigstein

Sem sombra de dúvida, os maiores triunfos da revolução foram o fomento nas áreas de educação, desenvolvimento humano, segurança e principalmente a atenção à saúde.

O que Cuba ainda pode ensinar ao mundo?

por Camila Koenigstein

Em 1968 o diretor de cinema cubano Tomás Gutiérrez Alea lançou seu famoso filme/documentário (Memórias do Subdesenvolvimento). Logo no início da história sofremos o impacto das cenas capturadas.

Nas ruas de Havana, corpos de jovens estudantes mortos pelos órgãos de repressão do ditador Fulgencio Batista (1901-1973).

A fome avassaladora nas cidades e zonas rurais também foi retratada de forma crua, com imagens de crianças chorando – algo tão corriqueiro até os dias de hoje nos países que compõem o continente, mas que ainda choca aqueles que se revoltam contra essa realidade desigual cada vez mais aprofundada pelo neoliberalismo.

No centro da trama estão todas as contradições da burguesia desejosa de sair de Cuba rumo ao Estados Unidos, mas também o pensamento, o choque de realidade e valores daqueles que decidiram ficar e viver em um novo regime que prometia pôr fim a um período em que Cuba foi uma nação sujeitada aos interesses dos estadunidenses. Essa relação que envolve o direito de soberania nacional cubana e o desejo de “colonizar” que há séculos o governo norte-americano tem segue ainda vigente e gerando danos que talvez somente décadas de uma total reestruturação poderão “corrigir” minimamente.

Contudo, a realidade é que há pouco conhecimento sobre a história cubana antes do triunfo da Revolução em 1959, o que gera o imaginário de que antes disso Cuba era uma sociedade desenvolvida, igualitária e potente. Há verdade nisso, mas, como toda sociedade capitalista e, ainda mais, sob um regime ditatorial, a desigualdade era dominante para todos os nascidos em famílias pobres das áreas urbanas ou zonas rurais do país.

Entre 1954 e 1958, 92 milhões de dólares foram investidos anualmente na construção de casas […] Cuba era o principal produtor de açúcar, com safras médias de cinco milhões e meio de toneladas anuais […] Apesar desses números, Cuba era um país subdesenvolvido e desigual. Um milhão e meio de cubanos não tinham concluído o 1º grau e mais de 20% da população era analfabeta. As condições de educação, saúde, moradia, alimentação, luz, água e esgoto eram muito piores no campo do que na cidade. – Rafael Rojas

O regime de Batista era extremamente corrupto, e desde seu primeiro mandato, de 1933 até o fatídico golpe em 1952, jamais deixou de estabelecer alianças com os grandes empresários, a elite econômica e política da ilha, além dos magnatas norte-americanos. Após o golpe o general converteu Cuba em algo descrito por uma expressão bem conhecida: o quintal dos Estados Unidos.

O novo coronel fez diversos acordos, entre eles com o embaixador de Washington em manter a “política de boa vizinhança” buscada pelo governo Roosevelt na América Latina. Ou seja, tratamento preferencial nas exportações de açúcar, privilégios nos setores agrícola, energético e bancário, e respeito às bases marítimas regionais […] A brutal repressão a qualquer dissidência, a corrupção em todo o tecido administrativo, a influência grotesca dos Estados Unidos, a presença da máfia e também algumas reformas positivas caracterizaram este período sombrio camuflado por alegres luzes de néon.

Com o cansaço generalizado da oposição, principalmente estudantil, começou todo o processo que culminou na Revolução Cubana em 1959. Embora imagens, documentos e depoimentos evidenciem a desigualdade e violência do regime de Batista, não são suficientes para fazer entender as décadas de subalternidade da sociedade cubana e a revolta dos estudantes e do povo.

A “relação internacional” existente entre Cuba e os Estados Unidos nada mais era do que a ilha atendendo aos interesses e ditames de uma grande potência. Mas a classe estudantil, formada por Fidel Castro, Abel Santamaría (assassinado ainda muito jovem), Jesús Montané, Boris Luis Coloma, Pedro Miret, Haydée Santamaría, Melba Hernández e posteriormente com a união de outros insurgentes como Camilo Cienfuegos e Ernesto Guevara, fez cair todo um sistema que atendia de forma majoritária aos interesses daqueles que sempre tiveram o poder nas mãos.

Nesse momento ainda de efervescência de um processo que expulsou e reorganizou socialmente Cuba, sem dúvida nenhuma ocorreram erros enormes, mas também acertos que vigoram até os dias de hoje e mostram que os princípios do socialismo não podem ser banalizados. Muito da dinâmica cotidiana da sociedade cubana não é evidenciada, pois Cuba mantém-se como um destino turístico para aqueles que buscam sol e praia, no entanto, para aqueles que adentram no dia a dia do país, ficam claros os reflexos de todo o processo construído durante os anos após a revolução.

Temas tratados como secundários e irrelevantes, como solidariedade e visão comunitária, fazem girar uma ilha que sofre uma grande repressão e embargo econômico e financeiro desde 1960.

A solidariedade, a confiança entre os indivíduos e a proteção social garantem níveis de desenvolvimento humano que mesmo com todas as adversidades impostas possibilitam uma nação pouco violenta.

As tão famigeradas “liberdade” e “democracia norte-americana” que tentam impor constantemente e dizem inexistente em Cuba não servem sequer para os estadunidenses. No entanto, eles seguem tentando levar para a ilha caribenha um modelo falido que nunca foi real, exceto no imaginário da nação.

Desafortunadamente, a imagem da ilha ficou plasmada em dois grandes momentos: a queda do regime ditatorial de Fulgêncio Batista e, posteriormente, o chamado período especial[1], marcado pela escassez de produtos e degradação total da economia. Uma “realidade” vendida de um país em ruínas, arcaico, ditatorial, o que tenta expor o “fracasso” do socialismo na práxis.

Os meios de comunicação não mostram os processos, mas fragmentos, e aquele preciso momento era de uma sociedade completamente danificada pela queda do regime socialista da ex-URSS e pela busca por soluções dentro de um país que teve que aprender a lidar com os embargos impostos pós-revolução e, em seguida, a ausência de apoio da União Soviética.

No entanto, o circuito de afetos positivos desenvolvidos durante décadas, assim como o nível educacional do povo, ficou esquecido, pois não convém expor aspectos humanitários dentro de um mundo em que o dinheiro e o poder do capital determinam absolutamente tudo.

Durante trinta anos, Cuba criou diversos programas sociais que até hoje são referências no que tange ao desenvolvimento social e direitos humanos. Mesmo com todas as sanções, embargos e adversidades, os cubanos conseguiram manter um padrão de excelência em aspectos que até mesmo países considerados primeiro-mundistas não conseguiram desenvolver. Mas como explicar esse fenômeno?

Sem sombra de dúvida, os maiores triunfos da revolução foram o fomento nas áreas de educação, desenvolvimento humano, segurança e principalmente a atenção à saúde.

Antes da revolução, o analfabetismo na cidade era de 11%, e no campo era de 40%. Isso foi resolvido com a revolução. O ensino particular também foi eliminado e disponibilizado a toda a população”

No entanto, especialistas como Sebastian Arcos, diretor do Instituto de Estudos Cubanos da Universidade Internacional da Flórida, questionam que o acesso a certos níveis de ensino se limita à condição de “ser revolucionário” e citam casos de expulsão de estudantes por expressarem critérios contrários ao governo e aludem também à repressão aos homossexuais.

É importante ressaltar que a homofobia nunca foi um fenômeno restrito ao sistema socialista, é um equívoco relacionar a opressão sobre grupos minoritários somente ao socialismo. Atualmente o Brasil é o país com o maior índice de assassinatos de transexuais e travestis, no entanto, é uma democracia plena, ou algo precido.

Outro fator relevante é o contexto sócio-histórico, completamente esquecido quando o tema é abordado, sobretudo quando falamos de Cuba. Como exemplo, até 1967 ser homossexual era crime na Inglaterra, essa era a mentalidade dominante em boa parte do mundo, algo que ainda vigora em diversos países, mas agora os homossexuais contam com uma forte militância e apoio de uma parcela considerável da sociedade civil. Tais avanços de enorme relevância também ocorreram em Cuba.

No que tange ao tema de segurança, o reconhecido Departamento de Estado dos EUA, Cuba é um dos países mais seguros da América Latina e do Caribe, no entanto, as críticas seguem, pois, segundo alguns estudiosos, norte-americanos principalmente, a segurança tem relação com o controle social imposto dentro do regime fidelista, ou seja, o ideal seria a busca de segurança sem controle social nem vínculo com a vida privada dos indivíduos.

Algo bastante complexo quando pensamos na manutenção em níveis tão baixos de violência em um país que faz parte da América Latina, mais precisamente o Caribe.

No aspecto sanitário, Cuba sobressai como um modelo de referência mundial, inclusive foi recentemente nomeado pelo contingente de médicos cubanos Henry Reeve ao Prêmio Nobel da Paz 2021, pelo parlamentar britânico Grahame Morris. O trabalho dedicado a outras nações por décadas e o destaque para a brigada médica internacional Henry Reeve no combate à Covid-19 são um exemplo de internacionalismo e merecem o reconhecimento em nível global com o Nobel.

Segundo o jornal estadunidense The New York Times:

Cuba é uma nação pobre, com um regime opressor e uma economia disfuncional, mas na área da saúde faz um trabalho incrível com o qual os Estados Unidos poderiam aprender. Segundo as estatísticas oficiais (que, como veremos, geraram polêmica), a taxa de mortalidade infantil em Cuba é de apenas 4,0 óbitos por mil nascimentos. Nos Estados Unidos, é 5,9.

Talvez o que o jornal ignore é que precisamente o que permite tais índices é o senso de coletividade, algo quase inexistente desde a formação da nação norte-americana, onde os êxitos  individuais são símbolos da “vitória”.

Desde o triunfo da revolução, Fidel Castro tinha uma visão particular sobre o tema sanitário. Embora metade dos seis mil doutores tenha saído da ilha, não se negou a enviar centenas de médicos para o Chile quando o país passou por um grande terremoto.

As missões eram heróicas e altruístas. Feridos de Chernobyl foram atendidos na ilha, párias do ebola em Serra Leoa, infectados por HIV em Angola e foi dada toda a assistência ao Haiti após o terremoto catastrófico de 2010.

Na última semana, entrevistei via telefone o médico cubano Christhian Lyva Hernández, que relatou:

O sistema de saúde cubano tem grandes vantagens, principalmente no plano social: é acessível, gratuito, escalonado nos diversos níveis de atenção, o que permite um atendimento mais especializado e específico (desde a comunidade até institutos de pesquisa de várias especialidades). Tem alguns avanços próprios em campos como as estatísticas de comportamento de algumas doenças e a eficácia e o desenvolvimento de alguns medicamentos, e ligeiras inovações em campos (que na minha opinião são pseudocientíficos e não inteiramente válidos) como medicina natural. Outro sucesso do sistema de saúde seria a constante promoção da saúde por meio da mídia, palestras, conferências, aulas etc. que atinge todos os setores da sociedade, desde escolas até centros de trabalho.

O jovem médico não deixa de citar os problemas que todavia estão presentes:

A principal falha é que o salário dos médicos e profissionais de saúde é extremamente baixo em relação aos rigores do seu trabalho, causando uma desmotivação geral no sindicato e evocando uma constante falta de profissionalismo, palpável pela impontualidade, alguns casos de corrupção (médicos que não cuidam bem de seus pacientes se não lhes derem dinheiro ilicitamente ou certos “presentes”), grosseria etc. A situação dos trabalhadores da saúde também é gravemente prejudicada porque o governo segue uma política dogmática que nos faz sentir parte de um “exército de jalecos brancos” e exige um nível de comprometimento idealista antigo.

Ainda assim, Cuba é vista de duas formas: paraíso turístico (o fetiche das praias do Caribe eternamente idealizado) e fracasso do sistema socialista, sempre opressor e dogmático.

No entanto, Cuba é muito mais que um imaginário, visões reducionistas, é um país com um longo processo de lutas pela liberdade, autonomia e busca por melhorias sociais para todos os cidadãos. Desafortunadamente, os donos do poder ainda não permitiram tais conquistas.

Vamos aguardar o que o recente senhor presidente norte-americano Joe Biden vai alterar em relação ao embargo e quais as possibilidades de Cuba conseguir manter seus altos índices de desenvolvimento humanitário em um mundo cada vez mais individualista e desumano.

https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-46532629

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/12/internacional/1484236280_559243.html

https://www.nytimes.com/es/2019/01/19/espanol/opinion/sistema-salud-cuba.html

https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-46642092

https://www.telesurtv.net/news/parlamentarios-britanicos-nominan-nobel-medicos-cubanos-20201015-0032.html

https://www.lavanguardia.com/internacional/20200405/48314333006/el-negocio-de-las-brigadas-sanitarias-o-la-revancha-de-fidel.html

ROJAS, Rafael. História Mínima de la Revolución Cubana. México. 2015.

Camila Koenigstein – Graduada em História, pela Pontificia Universidade Católica-SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Politica- SP. Atualmente faz Mestrado em Ciências Sociais, com ênfase em América Latina, pela Universidade de Buenos Aires (UBA).

[1] O início da década de 1990 trouxe notícias devastadoras para Cuba: o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Moscou era o principal parceiro comercial do governo liderado por Fidel Castro e seu fim significou também o fim das importações de combustíveis, alimentos, máquinas e investimentos de todos os tipos.

 

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