O racismo e as guerras googlicas, Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

O Google registra 21.400.000 resultados para a expressão “guerra na Síria” e apenas 302.000 resultados no Google para “guerra no Iémen”. A nova guerra dos EUA contra a Coréia do Norte nem mesmo começou, mas a expressão “ataque dos EUA a Coréia do Norte” já conta com 817.000 referências no Google.  

A Síria foi atacada por terroristas recrutados pela CIA em todo Oriente Médio. O regime de Assad também foi bombardeado pelos EUA e por Israel, mas resiste bravamente com a ajuda militar da Rússia. A Coréia do Norte não será atacada sem a aquiescência da China. O Iémen recebe ajuda do Irã e está sendo atacado pela Arábia Saudita (com ajuda dos EUA). Os interesses norte-americanos existem nos três conflitos, mas são mais evidentes no caso da Síria e do Iémen. Todavia, a cobertura jornalística da guerra do Iémem tem sido bem menor que a da Síria https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10158822327590019&id=665095018.

É evidente que a guerra no Iémen desperta bem pouco interesse dos internautas. Ela é menos desumana e terrível que as outras guerras? Não. A tragédia iemenita é até maior, pois os sauditas estão matando de fome milhares de civis inocentes. Os iemenitas são menos humanos que os sírios e os norte-coreanos? Não. A Declaração Universal dos Direitos do Homem não fez qualquer exceção. Todos os seres humanos, independentemente do seu estágio de desenvolvimento tecnológico, tem direito a vida.

Qual é então a  diferença entre estes três povos que faz os internautas se interessarem tão pouco pela guerra do Iémen e muito mais pelas guerras da Síria e da Coréia do Norte? Vejamos as estatísticas:

Estatísticas relacionadas a Síria

PIB per capita

2.065,54 USD ‎(2007)

 

População

19,56 milhões ‎(2007)

 

Expectativa de vida

75,00 anos ‎(2007)

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADria

Estatísticas relacionadas a Coreia do Norte

PIB per capita

1.800,00 USD ‎(2011)

 

População

23,9  milhões ‎(2011)

 

Expectativa de vida

63,8 anos ‎(2009)

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Coreia_do_Norte#Sa.C3.BAde

Estatísticas relacionadas ao Iémen

PIB per capita

1.473,10 USD ‎(2013)

 

População

24,41 milhões ‎(2013)

 

Expectativa de vida

62,91 anos ‎(2012)

 

https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=iemem,+pib

As estatísticas não revelam diferenças muito grandes entre os três países. Síria, Coréia do Norte e Iémen são países pobres. As diferenças aparecem quando são mensuradas as Forças Armadas dos três países.

http://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2013/08/27/interna_internacional,440736/conheca-o-poder-das-forcas-armadas-do-governo-sirio.shtml

https://noticias.terra.com.br/mundo/asia/compare-as-forcas-militares-da-coreia-do-norte-e-da-coreia-do-sul,460ab7fbb44dd310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html

http://www.globalfirepower.com/country-military-strength-detail.asp?country_id=yemen

Apesar de desgastadas por uma guerra mais longa, a Síria tem forças militares consideravelmente mais modernas e maiores do que as do Iémen. A Coréia do Norte tem um efetivo militar muito maior e mais bem equipado do que os dois outros países, mas seu poder de fogo ainda não foi testado.

Dos três países, apenas o Iémen não foi palco de uma guerra recente com grande cobertura pela imprensa. A Síria entrou em guerra com Israel em 1967 (Guerra dos Seis Dias) e em 1973 (Guerra do Yom Kippur). A Guerra da Coréia (1950-1953) não resultou num acordo de paz. Portanto, tecnicamente a Coréia do Norte ainda está em guerra com os EUA e com a Coréia do Sul.

Nada explica, contudo, a desprezo devotado à crise humanitária iemenita. Afinal, conflitos que resultaram em tragédias humanitárias equivalente despertaram muito atenção da mídia. Só para se ter uma idéia a “Guerra Civil da Ucrânia” é referida 461.000 vezes no Google https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_no_Leste_da_Ucr%C3%A2nia mas fez menos vítimas civis que a Guerra do Iémem https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_Iemenita_(2015%E2%80%93presente). Além disto, não podemos esquecer que a Guerra da Ucrânia ganhou muito mais destaque na TV brasileira do que a Guerra do Iémen.

O local (Europa x Oriente Médio), a religião (cristã x islâmica), os envolvidos (sírios, norte-coreanos, iemenitas, norte-americanos, sauditas, russos, israelenses, etc…) e a cor dos povos envolvidos (branca x parda) é um elemento importante para despertar mais ou menos interesse dos internautas e da mídia por uma guerra? Ao concentrar sua atenção num conflito e ignorar outro os internautas manifestam uma nova espécie silenciosa de racismo? Esta é meus caros a verdadeira pergunta.

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2 comentários

  1. A mãe de todas as bombas (semióticas)…

    Se alguém tem dúvidas de que o mundo e hoje funciona a base de uma sincronicidade semiótica, deveria (como diz aquela famosa propaganda) “rever seus conceitos”…

     

    Seja através de veículos com viés anti-establishment na Inglaterra (The IndependentThe Guardian), seja no Catar (Al Jazeera), ou na França (Libération), ou seja na mídia conservadora da Espanha (El Pais), a mensagem é a mesma…

     

    O esforço estadunidense de alargar as frentes de conflito é inegável, ora no Oriente Médio, ora na Eurásia, e enfim, no sul asiático e Península da China…

     

    O motivo?

     

    Ora, os motivos vêm desde 2000, e se irradiaram ao redor do planeta…

     

    Muita gente boa já se esqueceu, mas o ano de 2000 pode ser considerado o marco zero da Era do Judicialismo-Denuncismo Digital aliado ao empório Bélico-Policial-Midiático que tomou de assalto o que restava da cambaleante noção clássica de Democracia e representatividade…

     

    Bem, de certa forma, os ingredientes e as ondas conservadoras sempre espreitaram a Humanidade, mas é certo que o ápice do projeto neoliberal, (re)iniciado em 1980 (com a trinca tatcher-reagan-helmut kohl), encontrou seu estado da arte em 2000, nos EUA…

     

    Do centro (EUA) para as franjas do mundo, cada país engoliu e digeriu (muito poucos vomitaram, é verdade) esse golpe universal de forma distinta, de acordo com o seu tempo histórico, posição relativa geopolítica e maturidade (ou imaturidade) de suas instituições e nível de empoderamento político de cada sociedade…

     

    Eu confesso que também tinha esquecido, mas ontem assistia (pela quinta ou sexta vez) o documentário 9/11 Farenheit (Michael Moore), que documenta as relações incestuosas e promíscuas entre o capital financeiro, o complexo da indústria de petróleo, o complexo bélico-militar e os sistemas representativos dos EUA, mormente a chamada era bush…tudo pontuado pelo 11 de setembro e as guerras por armas químicas contra Saddam Hussein, a maior mentira da História geopolítica e midiática do planeta…

     

     

    É ali que nasceu o embrião do nosso golpe, da nossa república paranazi…

     

     

    Em 2000, o democrata Al Gore ganha a eleição, e após uma escandalosa fraude, bush jr é declarado vencedor, e quem ratifica o resultado: o congresso domesticado (republicanos e democratas) e a corte suprema de lá, onde os juízes eram, na sua maioria, indicados e aliados do bush senior…

     

    Alguma semelhança? 

     

    Fraudes, juízes e congresso?

     

    Lembra algo?

     

    Pois é…

     

    O clima descrito no filme de Moore, com as repetidas mentiras  propagadas por cada minuto da programação da mídia conservadora, criando um efeito de saturação que todos nós bem conhecemos, criaram o clima perfeito para que bush jr empurrasse os EUA para o maior roubo já acontecido no planeta (a guerra do Golfo II e “crise de 2008”)…

     

    As armas químicas de Saddam estão para nós como a farsajato…

     

    Ao contrário do que se imagina, a “crise de 2008” e a guerra não são eventos econômicos estanques, se considerarmos que boa parte da dívida pública estadunidense, justamente o que alimenta o circo especulativo mundial, tem origem no esforço contínuo de guerra, que por sua vez alimenta uma vasta cadeia de contratos super faturados, beneficiando empresas-amigas-parasitas como Halliburton ,dentre outras tantas…

     

    Dessa forma, trilhões de dólares saíram dos bolsos dos contribuintes estadunidenses para inflar bolhas especulativas (e depois pagar a conta dos crashes), e pagar contratos hiper-mega-super faturados para transformar as empresas em entes mais poderosos que os governos que as contratam…

     

    Mais ou menos como acontece por aqui nesses dias…

     

    Depois de anos e anos destilando mentiras e manipulações para dirigir a economia do país ao caos,  revogando direitos sociais e revertendo uma tímida e pálida distribuição de renda, bem como para golpear instituições e empoderar corporações (juízes, promotores e policiais) não eleitas, o esforço de “guerra” brasileiro está prestes a dar o golpe final, jogando o país em uma convulsão que justifique medidas de força ou até “ajuda internacional” (leia-se, intervenção direta dos EUA, porque indireta já há)…

     

    A “mãe de todas as bombas” seria a prisão de Lula…

     

    Tudo isso acompanhado da “destruição”, ou melhor, do sacrifício de boa parte do sistema político brasileiro, conferindo a plateia desavisada uma falsa percepção de que todos são iguais e que todos estão sendo perseguidos da mesma forma…

     

    Claro que depois de feito o serviço, uma parte selecionada da elite política vai ganhar o esquecimento e a possibilidade de se reinventar, como sempre…

     

    Enquanto isso, a parcela política que ameaça esse arranjo ultra-conservador vai ter a terra salgada em torno de si, ou pelo menos, essa é a ideia…

     

    O que se apresentará como solução será algum tipo de pacto ditatorial e/ou de exceção, onde o objetivo será aprofundar o trabalho sujo já começado no pós-golpe: reduzir o país a uma franquia dos EUA, com regressão do nosso estágio civilizatório ao século XIX…

     

    A questão central que ainda assombra esses cretinos é uma só:

     

    O medo que têm de desencadear uma reação incontrolável, porque todos sabem que a História nos reserva momentos raros mas inevitáveis de fúria das classes mais baixas, após tanta provocação e humilhação…

     

    Por aqui, a mãe de todas as bombas pode explodir no colo de quem pretende detoná-la…

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