Reformar ou deformar o Fed?, por Barry Eichengreen

A “silly season” que se tornou a campanha eleitoral norte-americana ganhou novos contornos depois que os candidatos apresentaram suas propostas para a reforma da política monetária. Embora esta não tenha sido a primeira vez que os candidatos tenham proposto mudanças na forma de condução das políticas, a natureza mais radical da atual safra de temas é considerada “excepcional” em termos históricos.

Em artigo publicado no site Project Syndicate, Barry Eichengreen, professoor da Unidade de Berkeley e da Unidade de Cambridge, diz que não existe mistério sobre a razão pela qual tais propostas atraem tanto os candidatos como os eleitores. “Desde a crise financeira, o Federal Reserve (o Banco Central dos Estados Unidos) tomou uma série de medidas sem precedentes, cortando as taxas de juros até zero, expandindo seu balanço e resgatando instituições com dificuldades. Estas medidas pretendiam tratar os males da economia, mas a sua própria associação a esses males encoraja a crença de que são de alguma forma a sua causa subjacente”.

O articulista diz que, da mesma maneira, a participação da autoridade monetária em resgates de instituições financeiras foi criticada por favorecer Wall Street em relação a outros segmentos. Além disso, também existem as críticas quanto à criação de desigualdades, seja por manter as taxas de juros reduzidas – o que prejudica quem possui rendimentos fixos, segundo Eichengreen – e agora pelo recente aumento das taxas, o que limita o crescimento dos salários.

“Claramente, o Fed não consegue ganhar, e por razões que nada têm a ver com a atual política monetária”, diz o articulista. “Duas das mais enraizadas características da cultura política americana, com raízes que remontam ao século XVIII, são a suspeita relacionada a um governo poderoso e a desconfiança relativa à concentração do poder financeiro. O Fed é a única instituição que melhor engloba estes receios”.

Diante disso, existe a proposta apresentada pelos candidatos republicanos Ted Cruz, Rand Paul, e Mike Huckabee, que exigem do Fed a manutenção do preço do ouro em dólares em um patamar fixo. “Chamarmos propostas a isto é de certa forma generoso”, explica Eichengreen. “Os proponentes não especificam se o Fed ficaria obrigado a apresentar ouro a esse preço a todos os compradores, tal como antes de 1933, ou apenas a governos estrangeiros, como entre 1945 e 1971. Nem explicam se essa obrigação poderia ser suspensa durante uma emergência, tal como em épocas anteriores”

Já as propostas para uma “regra de Taylor” são mais sérias, quanto mais não seja porque uma tal regra, primeiramente descrita pelo economista da Universidade de Stanford John Taylor, relaciona a taxa de juro da política apenas com um ponto representativo de bens e serviços, nomeadamente o índice de preços no consumidor, ao mesmo tempo que é ajustada à taxa de desemprego. Mas a regra é apenas uma fórmula que pretende explicar por que o Fed definiu a sua taxa de juro da forma que o fez na década de 1980 e no início da década de 1990, o período considerado por Taylor no seu estudo original.

Eichengreen também diz que algumas das propostas colocadas pelo pretendente democrata Bernie Sanders merecem ser vistas com seriedade. O fato de três dos nove diretores de escritórios regionais do Fed serem banqueiros da iniciativa privada é considerado algo anacrônico pelo articulista, com a possibilidade de criar conflitos de interesses, e a sugestão dada por ele de que os diretores regionais sejam nomeados pelo presidente dos EUA, em vez dos próprios diretores, é merecedora de análise.

Porém, outras propostas de Sanders foram consideradas mais incertas, como a divulgação das transcrições completas das reuniões do Fed seis meses depois. Para Eichengreen, tal medida faria que os debates mais importantes ficassem nos bastidores, o que colocaria a transparência das políticas em xeque, além das preocupações em torno de uma eventual interferência de Sanders na condução das políticas.

“O Fed, (Sanders) defende, não deveria ter subido as taxas de juro em Dezembro como resposta à “inflação fantasma”. Ele pode ter razão. Mas não é função do presidente dos EUA dizer ao Fed como gerir a sua taxa de juro. A independência do banco central é uma pedra angular da política monetária eficaz. Até (ou especialmente) um aspirante a presidente deveria ser sensível a este fato”, ressalta Eichengreen.

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1 comentário

  1. Barry Eichengren é um dos

    Barry Eichengren é um dos expoentes do Institute for New Economic Thinking, o INET, que eu venho trazendo aqui como um novo think thank de pensamento economico renovador para se contrapor à turma da “lição de casa”, “almoço gratis” , “juros altos” e “ajuste fiscal” que domina o mercado de ideias eonomicas e sua aplicação no Brasil.

    Hoje foi entrevistado na GLOBONEWS o economista André Perfeito gorducho representante do mercado financeiro que em tom e postura de gozador lembrou que a recessão impede pelo desemprego que os salarios subam e isso é muito bom par combater a inflação porisso ele era otimista, falou isso com a maior satisfação e naturalidade.

    Esse é o tipo de pensamento DESTRUTIVO na moda no Brasil desde o Plano Real, quando os economistas da PUC Rio assumiram o coamndo da politica economica, onde estão até hoje com o dominio ideologico e operacional do Banco Central.

    O economista Perfeito foi perfeito em sintetizar a logica do pensamento do Banco Central qual seja, PROVOCAR A RECESSÃO PARA CRIAR DESEMPREGO E EM CONSEQUENCIA BAIXAR OS SALARIOS E COM ISSO REDUZIR A INFLAÇÃO, está perfeito Perfeito, naturalmente pela balofife isso não o incomoda a minima porque a picanha e o salmão grelhado devem estar iguaizinhos na sua farta mesa, então a recessão é mero problema estatistico administrado pelo BC para o bem do Pais.

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