O povo deve decidir sobre a crise no Brasil, diz The Guardian

 
Jornal GGN – “Os políticos brasileiros deixaram o país na baderna: deveriam deixar que os 143 milhões de eleitores tivessem voz sobre como sair dela”, disse o jornal britânico The Guardian, em editorial na noite desta terça-feira (23). “As acusações explosivas enfrentadas pelo presidente do Brasil Michel Temer são só as mais recentes manifestações de um escândalo, do qual uma saída política rápida não resolverá os problemas”, acrescentou o diário europeu na manchete.
 
Intitulado “A visão do The Guardian sobre a corrupção brasileira: o público merece uma voz”, o editoral faz um resumo do cenário de crise no país, ressaltando que aqui a política “tem sido completamente desacreditada”. Caracterizou como “hipocrisia” a derrubada da ex-presidente Dilma Rousseff por aqueles que são hoje alvos diretos de acusações de corrupção.
 
“As revelações que surgiram desde que Dilma Rousseff foi forçada a sair no ano passado destacaram a hipocrisia daqueles que a derrubaram. Embora Rousseff tenha sido acusada por acusações separadas, e parecia relativamente limpa, a raiva contra ela foi alimentada por revelações sobre seu Partido dos Trabalhadores. Em março, o principal orquestrador de seu impeachment, Eduardo Cunha, foi preso por mais de 15 anos por US$ 1,6 milhões de propina. O grampo do Sr. Temer, que era seu vice mas foi apontado de conspirar contra ela nas últimas fases do escândalo, registra provas de pagamentos em dinheiro ao Sr. Cunha.”
 
Ainda, o diário apresentou o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como “uma poderosa figura de centro-direita”, que agora tenta mostrar que não pode ser acusado de adotar medidas parciais na Operação Lava Jato.
 
Leia a íntegra do Editorial de The Guardian, traduzido pelo GGN:
 
 
Editorial 
 
As acusações explosivas enfrentadas pelo presidente do Brasil Michel Temer são só as mais recentes manifestações de um escândalo, do qual uma saída política rápida não resolverá os problemas
 
– EU não vou renunciar. Se quiserem, me derrubem”,  disse Michel Temer nesta semana. Os brasileiros gostariam de levar à cabo a palavra do presidente. Depois de três anos de turbulência política e repulsa pública, a investigação Lava Jato, sobre a corrupção que envolveu algumas das maiores empresas do país e um número assustador de seus políticos, estava sob crescente pressão; Alguns temiam que estivesse sendo barrada. Então vieram alegações explosivas que um grampo secreta registrou o Sr. Temer, discutindo a compra de um silêncio. Sua popularidade caiu para números únicos, mesmo antes dessas últimas acusações. Agora, o principal procurador do país o acusou formalmente de conspirar para silenciar testemunhas e obstruir uma investigação de corrupção.
 
O Sr. Temer nega o erro, insistindo que a gravação foi manipulada, e diz que renunciar seria uma admissão da culpa. Outras considerações estão, sem dúvida, pesando em sua mente – obviamente, a de que ele iria perder as proteções legais. Como presidente, o impeachment exigiria a aprovação pelo Congresso para ser efetivado, e não pode ter como base acusações que precedem seu tempo de mandato no cargo. O apoio dentro do Partido Democrático Brasileiro (PMDB) e sua coalizão estão desmoronando. Os aliados enxergam os estímulos de desembarcar do governo, com o intuito de enfraquecer a Operação Lava Jato, e lidar com um caso que começa no próximo mês no supremo tribunal eleitoral, que poderia cassar a eleição de 2014. Ainda assim, o Brasil poderia em breve ter seu terceiro líder em menos de um ano.
 
A política brasileira tem sido completamente desacreditada. As revelações que surgiram desde que Dilma Rousseff foi forçada a sair no ano passado destacaram a hipocrisia daqueles que a derrubaram. Embora Rousseff tenha sido acusada por acusações separadas, e parecia relativamente limpa, a raiva contra ela foi alimentada por revelações sobre seu Partido dos Trabalhadores. Em março, o principal orquestrador de seu impeachment, Eduardo Cunha, foi preso por mais de 15 anos por US$ 1,6 milhões de propina. O grampo do Sr. Temer, que era seu vice mas foi apontado de conspirar contra ela nas últimas fases do escândalo, registra provas de pagamentos em dinheiro ao Sr. Cunha
 

Ao assumir uma poderosa figura de centro-direita, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, tenta mostrar que não pode ser intimidado e acusado de que a Operação Lava Jato foi politicamente parcial. Quando o seu mandato na PGR terminar neste outono, quem quer que seja o presidente da República deverá aceitar – da mesma forma que ocorreu quando Janot foi escolhido – que se respeitará o resultado de uma eleição interna de procuradores da República, despolitizando a escolha. 

Mas muitos parlamentares têm segredos próprios para esconder, e alguns já se queixam de que a investigação tem sido ruim para a reputação da economia do Brasil. Existe o perigo de que eles tentem evitar o impeachment, talvez persuadindo o presidente a renunciar. Mas o problema é o escândalo, não a Operação, e o Brasil cometerá um grande erro se omiti-lo. Os legisladores também não deveriam escolher o substituto de Temer, pois foram eles que o escolheram, e as pesquisas mostram uma demanda esmagadora da população querendo eleições diretas. Um público já desencantado pode, por outro lado, afundar-se na apatia ou, a longo prazo, recorrer a uma figura autoritária de extrema-direita como Jair Bolsonaro, que joga o cartão na anti-política. Os políticos brasileiros deixaram o país na baderna: deveriam deixar que os 143 milhões de eleitores tivessem voz sobre como sair dela.

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