Coesão no MPF é com o silêncio dos divergentes, denuncia procurador

 
Jornal GGN – O procurador da República Celso Antônio Três, da Procuradoria da República do Rio Grande do Sul e que já integrou o Núcleo de Combate à Corrupção do MPF no estado, afirmou que Rodrigo Janot é parcial e que a garantia da impunidade contra Michel Temer, agora presidente da República, poderia ser evitada antes.
 
“O estopim do impeachment foi a divulgação da conversa de Dilma e Lula. Janot avalizou-a. Temer, antes da Presidência -agora está blindado-, já constava em listas e menções de propina. Janot nunca investigou. Onde há imparcialidade?”, questionou em entrevista à Folha de S. Paulo
 
Celso Antônio Três também criticou a carta de Rodrigo Janot, que celebrava o sucesso da Operação Lava Jato: “É um editorial do chefe da instituição, exaltando menos esta do que a liderança daquele”, disse.
 
Em carta aos demais membros da instituição, Janot adiantou uma auto-defesa de possíveis relações de parcialidade da atividade do procurador nas investigações da Operação Lava Jato que recaem, agora, com mais força, sobre políticos.
 
 
Denuncia que a suposta “democracia sob ataque sofrida pelo MPF”, segundo a carta de Janot, e o seu pedido de que a “coesão interna” seja velada são, na verdade, mensagens para o público externo, “fazendo transparecer à sociedade que ele encarna o comando do MPF”. E destacou: “Há coesão na medida que os divergentes são silenciosos.”
 
Na entrevista ao jornal, o procurador do Rio Grande do Sul lembrou que, no ápice das divulgações da Odebrecht contra políticos e esquemas de corrupção, os delatores são “criminosos confessos” que, no fim das contas, são “anistiados”.
 
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Leia a entrevista completa, concedida à Folha de S. Paulo:

Folha – Qual é a sua leitura da carta do procurador-geral da República?
Celso Antônio Três – É um editorial do chefe da instituição, exaltando menos esta do que a liderança daquele.

Como avalia o acordo de colaboração com a Odebrecht?
Toda delação traz só duas certezas. Delator é criminoso confesso. Este delinquente não será punido, eis que anistiado -ou sob pífias penas- pelo Ministério Público. Condenação do delatado depende da prova de corroboração.

Essas provas foram obtidas?
Apenas o futuro dirá se elas foram ou não obtidas. Até agora, no STF, vencidos dois anos, há apenas seis réus. O ex-procurador-geral Roberto Gurgel disse que expandir a investigação a 77 delatores compromete sua finalização. Alguém acredita que a Odebrecht tenha 77 corruptores? São, na verdade, cumpridores das ordens de Marcelo [Odebrecht].

Na carta, Janot vê a “democracia sob ataque” e aponta dois desafios aos procuradores: “manter a imparcialidade diante dos embates político-partidários” e “velar pela coesão interna”.
O estopim do impeachment foi a divulgação da conversa de Dilma e Lula. Janot avalizou-a. Temer, antes da Presidência -agora está blindado-, já constava em listas e menções de propina. Janot nunca investigou. Onde há imparcialidade?

Há coesão no MPF?
O alvo da carta é o público externo, fazendo transparecer à sociedade que ele encarna o comando do MPF. Há coesão na medida que os divergentes são silenciosos.

Janot agiu para evitar vazamentos de documentos e delações?
A estratégia de investigação diz que quanto menos o alvo souber, melhor. A lei da delação impõe sigilo até a apresentação da denúncia. Preserva a apuração e a honra do delatado até então indefeso. A invocação do interesse público para divulgar é demagógica. Derrete, não apenas o mundo político, mas o Estado, dilapidando a economia, os investimentos e os empregos.

Criticou-se a Lava Jato pela demora em atingir lideranças de outros partidos, além do PT.
Sendo o PT titular do governo, natural ser prioritário. Agora, está claro que todos estão sendo alvos.

A resistência na política poderá frustrar a maior investigação no combate à corrupção?
Resistência é natural. Porém, merece mais destaque a liberdade das instituições, como a Polícia Federal, Ministério Público Federal, Receita Federal e Controladoria-Geral da União.

O que poderá esvaziar mais a Lava Jato: as manobras do Legislativo ou a morosidade do Judiciário?
A legislação é o poder maior de absolver, de tudo e todos.

Haverá maior agilidade para julgar a Lava Jato nos Estados, na primeira instância?
Sim. A Justiça acordou contra a corrupção. Vemos órgãos do Judiciário, a exemplo do Rio de Janeiro, historicamente lenientes, que agora tomaram coragem e hombridade.

Como o sr. avalia a atuação do juiz Sergio Moro?
Sujeito diferenciado. Senões de grandiosos feitos soçobram despercebidos.

Houve falta de isenção e abuso de autoridade, como alegam os advogados?
A condução injustificada de Lula, sucedida pela divulgação de interceptação clandestina –sem outorga judicial, estopim do impeachment–, maculou a imparcialidade.

A carta de Janot é paralela aos debates sobre o processo sucessório da PGR. É peça para sua recondução?
Quem nomeia procurador-geral para derrubar o próprio governo é o PT. Temer jamais cometeria suicídio. Exemplo é [a nomeação de] Alexandre Moraes ao STF. Janot está fora.

O sr. apoia a recondução de Janot?
Não. Um novo mandato é chavismo.

Janot tem cumprido o que prometeu?
Sim. Garante a livre atuação dos procuradores e zela pelas vantagens corporativas.

Na carta, se define como “democrata congênito e convicto”.
É uma defesa de que ele criminaliza a política, espécie de [Donald] Trump da Justiça.

O procurador-geral deixou-se fotografar mostrando um cartaz com os dizeres “Janot, você é a esperança do Brasil”. Como essa exposição foi vista?
Janot ainda tem grande prestígio. Porém, há o desgaste natural da gestão e exposição, defasagem salarial pelo boicote do Congresso, tudo contribui para o declínio.

O desfecho da carta (“Coragem e confiança!”) soa como slogan de campanha. O sr. acredita que Janot pretende se candidatar a cargo público?
É campanha a procurador-geral da República. Resta saber se algum partido o acolheria.

 

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