As trocas de favores da Lava Jato por cooperações internacionais

Novas mensagens divulgadas da Força-Tarefa revelam os "favores" que os procuradores buscaram junto a autoridades norte-americanas e outras cooperações

Jornal GGN – A cooperação internacional da Lava Jato com autoridades dos Estados Unidos foi além de submeter empresas brasileiras, como a Odebrecht e Petrobras, à vassalagem dos norte-americanos, como já amplamente divulgado – relembre aqui na série Lava Jato – O Lado B. O que a força-tarefa de Curitiba buscava era “troca de favores” e ajuda nas investigações, seja para quebrar a senha do sistema MyWebDay e até mesmo para investigar um ministro do STF, caso fosse necessário, no caminho traçado pelos procuradores.

Mossack e Patrick T. Kramer

O acordo de leniência com a Odebrecht, junto às autoridades dos EUA: FBI, Departamento de Justiça Americano (DoJ), Comissão de Valores Mobiliários (SEC) e Embaixada dos EUA -, desembocou em uma “cooperação” de troca de favores da Lava Jato com as autoridades.

No dia 31 de agosto de 2016, o procurador Paulo Roberto Galvão de Carvalho – que já aparecia nos diálogos vazados pelo The Intercept Brasil fazendo a mediação com o adido-adjunto David F. Williams, do FBI, em setembro daquele ano – encontrou-se com “o Patrick, adido do FBI, com sua substituta June Drake”.

Patrick T. Kramer é o agente do FBI que atuou desde cedo em missões de inteligência, investigando cartéis de drogas mexicanos, gangues de Porto Rico e lavagem de dinheiro, chegando a ser supervisor do FBI em Washington, conforme mostrou reportagem da Agência Pública.

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Naquele momento se estabelece um dos primeiros contatos da força-tarefa com o objetivo de solicitar aos investigadores norte-americanos o acesso ao sistema MyWebDay, que guardava informações de contabilidade da Odebrecht. A contrapartida da Lava Jato era entregar informações sobre a Mossack Fonseca, a Odebrecht e repercutir o modus operandi da Operação na América Latina.

“Dentre outros temas, eles pediram informações sobre Mossack. Explicamos a situação da nossa investigação e os nossos alvos. Porém falamos da existência do procedimento da SCI [Secretaria de Cooperação Internacional] para obter os dados diretamente, e que isso seria feito de forma independente da LJ [Lava Jato]”, afirma Paulo.

“Então passamos os contatos do Vlad [Vladimir Aras] para que se for o caso eles falem diretamente com vcs”, continua o procurador, que obtém a confirmação do procurador Vladimir Aras: “Blz”.
Reunião com o FBI: Quebrar a senha 

Cinco horas depois dessas primeiras mensagens, o procurador anuncia uma “reunião com o FBI” que ocorreria no mesmo dia. O tema? Tentar quebrar a senha para acessar o MyWebDay. Como “troca”, a Lava Jato tentaria encontrar informações de Ángel Rondón Rijo, acusado no ano passado de receber US$ 92 milhões de propina da Odebrecht, na República Dominicana – uma das extensões da Lava Jato em países da América Latina.

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Em seguida, o procurador Sérgio Bruno Fernandes, do Ministério Público do Distrito Federal, respondeu a Paulo Galvão que a Embaixada dos EUA entrava para o esquema de cooperação:

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“Não sabia… Mas o canal com o FBI é com certeza muito mais direto do que o canal da embaixada. O FBI tb já tem conhecimento total das investigações, enquanto a embaixada não teria. De minha parte acho útil manter os dois canais”, concretiza o procurador, na decisão de que a Embaixada dos EUA entrava para as apurações e na  “cooperação” para quebrar a senha do MyWebDay.

Um ano e cinco meses depois, em janeiro de 2018, os procuradores admitem que a tentativa de quebrar o sistema do MyWebDay ocorria antes de fechar o acordo de leniência com a Odebrecht , com a ajuda de “empresas especializadas e o FBI, mas não foi possível abrir o sistema”.
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Continuidade: “Cooperação” e Moro como ex-juiz

A divulgação de abusos da Operação Lava Jato, já em 2019, não impediu que a Força-tarefa da Lava Jato continuasse a apurar, junto a outros países, cooperações como a que ocorreu com os EUA, com ainda a intermediação do agora ex-juiz e já ministro do governo de Jair Bolsonaro, Sérgio Moro. No dia 20 de janeiro daquele ano, Moro contatou o então coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, informando que estava em Davos, Suíça, para o Fórum Econômico Mundial.
Mas para além da palestra contra corrupção feita no evento, como ministro da Justiça, Moro recorreu ao procurador para perguntar “com quais países ainda temos dificuldade com cooperação”. “Hong Kong por exemplo forneceu aquelas provas?”, questionava o ex-juiz, mesmo na função de ministro de Jair Bolsonaro.
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A mensagem era direcionada ao procurador Douglas Fischer, do grupo de trabalho da Lava Jato na Procuradoria-Geral da República (PGR), que respondeu: “Blz, tô vendo aqui”.

Dallagnol, então, acrescenta: “Já indiquei o seguinte: 1) Bahamas – extrema dificuldade 2) Espanha – A citação do Tacla ainda não ocorreu (estamos há mais de 2 anos tentando) 3) Hong Kong realmente finge que não entende nossas Coopins e fica perguntando um milhão de vezes a mesma coisa pra não cumprir”.

E o procurador Douglas traça a lista completa, com os respectivos interesses da Lava Jato e do ministro Sérgio Moro:

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Cartão de crédito e ministro do STF

No mês seguinte, dia 19 de fevereiro de 2019, Deltan Dallagnol confirma que as cooperações internacionais objetivavam essa “troca de favores”. O procurador escreve que a força-tarefa pediu cooperação das autoridades da Suíça para obter dados de cartões de crédito de investigados.

“Robito, fizemos um pedido de cooperação específico pra obter os docs do cartão de crédito? Se não, vale a pena. O fato de não estarem com a conta não significa necessariamente que não existam. Acho que vale tentar”, diz Dallagnol.

Como resposta, o procurador Roberson Pozzobon, em tom de deboche, indica que poderia investigar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes: “Não só desse cartão. Mas de todos. Vai que tem um para o Gilmar… hehehe.”

A procuradora Athayde Ribeiro da Costa, também na conversa, comenta: “ai vc estara investigando ministro do supremo, robinho.. nao pode ( ) rs”. E Pozzobon continua: “Hahaha. Não que estejamos procurando. Mas vaaaai que”.
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Entenda as novas mensagens

Com base na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou o acesso do ex-presidente Lula às mensagens apreendidas na Operação Spoofing, a defesa técnica de Lula começou a fazer diligências diárias, desde o dia 1º de fevereiro deste ano, na sede do Instituto Nacional de Criminalística (INC), para identificar mais provas que colocam em xeque as acusações contra o ex-presidente.

Parte desse material foi analisada pelo perito Cláudio Wagner, contratado pela defesa de Lula, para ingressar com uma Reclamação no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta segunda (08).

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