Brazil: a Dr. Phibes hypothesis, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

O ataque ao setor agroexportador de carnes provocará danos sérios e duradouros à imagem e à economia brasileira. Ele ocorreu no momento em que as reformas do usurpador Michel Temer começaram a ser contestadas nas ruas e rapidamente se tornou o assunto dominante nas redes sociais. Mas este não é o primeiro setor da economia a ser trucidado pelo golpe de 2016.

A Petrobras está sendo fatiada e vendida a preço vil. O mesmo está sendo feito com as reservas petrolíferas recentemente descobertas no litoral brasileiro.

A indústria naval foi destruída com uma só canetada. Ao cancelar encomendas feitas no Brasil, o presidente da Petrobras matou os estaleiros e prejudicou os empresários que forneciam equipamentos e matérias-primas empregadas na construção de barcos e plataformas petrolíferas.

Isto ocorreu pouco depois das grandes empresas de engenharia nacionais começarem a ser destruídas pela Lava-Jato. Elas desempenhavam um papel importante na estrutura de conteúdo nacional criada em torno da Petrobras e da produção dos novos submarinos franco/brasileiros. O espaço que empresas como Odebrecht começaram a ocupar no exterior rapidamente será preenchido por suas concorrentes europeias e norte-americanas.

Com razão Luis Nassif já pergunta qual será o próximo setor da economia a ser destruído. O jornalista Paulo Henrique Amorim disse que eles querem a carne do Lula. É fato: o usurpador já está tentando se apropriar da paternidade das obras do ex-presidente petista.

Nosso país está sendo metodicamente desmantelado. Antes disto ocorrer, porém, o Brasil foi politicamente desestabilizado até que o golpe de estado tivesse sucesso para colocar em prática a demolição econômica em curso.

O primeiro ato de terrorismo político contra o Brasil foi a rejeição do resultado da eleição por Aécio Neves. Seguiram-se as passeatas contra o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus. Rapidamente o conteúdo político destas manifestações foi modificado. Elas foram transformadas em manifestações anti-PT, anti-Dilma e, finalmente, pró-impedimento. Sérgio Moro rasgou a legislação ao mandar gravar conversas entre Lula e Dilma Rousseff que, vazadas para a imprensa, criaram um clima de legitimação popular para a revogação da soberania popular.

A classe média engrossou as passeatas, que foram adquirindo uma regularidade maior e recebendo mais apoio empresarial. Desfechado o golpe com o aval do STF (que mandou prender o presidente da Câmara dos Deputados somente depois que ele conseguiu rasgar 54,5 milhões de votos através de uma fraude), tudo voltou ao normal. Michel Temer foi autorizado a dar pedalas fiscais (motivo do afastamento e do impedimento de Dilma Rousseff). As passagens de ônibus continuam a ser reajustadas e ninguém sequer lembra que o grande movimento pelo impedimento começou por causa de 20 centavos.

Primeiro ocorreu a desestabilização política. Seguiram-se a destruição da credibilidade do PT, o golpe de estado mediante um impedimento fraudulento, a revogação de direitos sociais, previdenciários e trabalhistas e o desmantelamento da economia nacional. Nenhuma das medidas tomadas pelo usurpador, pelo MPF, pela Justiça Federal e pela Polícia Federal são ou serão capazes de criar emprego e renda. É previsível um aumento do desemprego e do desespero no exato momento em que o Estado quer deixar de assegurar qualquer renda à população fomentando o desenvolvimento ou custeando programas sociais.

O próximo desdobramento da crise será (como corretamente estão prevendo os militares) um aumento do desespero e a radicalização política. Aprofundada deliberadamente por Michel Temer e o bando de ladrões que ele enfiou nos Ministérios, a crise política e econômica pode evoluir para o caos e, eventualmente, para a fragmentação territorial (caso em que as Forças Armadas terão que decidir se elas se autodestruirão ou se preservarão a integridade do Brasil).

Vendo tudo o que ocorreu em retrospecto (e traçando cenários do que ainda está por vir), não podemos deixar de imaginar que algo ou alguém elaborou um plano e conseguiu fazer os principais atores políticos, judiciários e policiais a seguir um roteiro. O objetivo final é a implosão do nosso país. Este mestre do terror, que persegue seu intento de maneira obsessiva e dramática parece até um personagem de cinema: o famigerado Dr. Phibes.

Aqueles que como eu cresceram vendo TV preto e branco na década de 1970 certamente se lembram do filme The Abominable Dr. Phibes (1971). Ele foi reprisado dezenas de vezes nos canais de TV aberta. Phibes tem um plano (vingar a morte da esposa) e nada é capaz de o fazer se desviar do seu objetivo. Ninguém é capaz de impedi-lo de matar de maneira teatral e escabrosa as pessoas que participaram da mal sucedida cirurgia de sua esposa. Ao contrário de outros vilões, Phibes não faz questão alguma de sobreviver. Após concluir sua tarefa ele encena a própria morte. E nem mesmo os policiais conseguem ver gran finale.

Mutilado num acidente, Phibes fala conectando-se a um alto-falante. Quando não está executando o seu plano, ele toca órgão ou aprecia bandinha de bonecos colocada acima do nível do grande salão. A interpretação exagerada de Vincent Price confere algo especial ao filme. É impossível gostar do vilão, mas nenhum expectador consegue realmente odiá-lo. Ao ver The Abominable Dr. Phibes ficamos querendo saber como será a próxima morte e nos esquecemos de que é crime matar alguém pouco importando a motivação ou o método empregado.

A destruição política, economica e territorial o Brasil parece seguir este padrão. As vidas de 200 milhões de brasileiros estão em jogo, mas nós esquecemos disto por causa da teatralidade do que está ocorrendo. Intuímos que estamos sendo conduzidos para o matadouro mas agimos como se quiséssemos ver o que vai ocorrer na próxima cena. E o desemprego continua a crescer e a espalhar desespero e preparar o terreno para algo pior. Apreciem o filme, no final a grande escuridão descerá sob o Brasil como inevitavelmente desce sobre o Dr. Phibes.

https://www.youtube.com/watch?v=Vhsx7Pika0A

 

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