Direita perdeu Huck, mas ainda sonha em fugir de plebiscito com Lula, por Paulo Moreira Leite

Por Paulo Moreira Leite

No Brasil 247

Procurando, a todo custo, evitar que a campanha de 2018 se transforme num plebiscito sobre as reformas que jogaram os direitos do povo no lixo e colocaram a soberania do país num abismo, com a desistência de Luciano Huck as forças que organizam o continuísmo camuflado de Michel Temer ficaram privadas de uma candidatura sem as mãos sujas pelo golpe que afastou Dilma e abriu as portas para uma etapa especialmente nefasta da história brasileira.  

Envolvendo derrotas que atingem a consciência dos brasileiros em pontos fundamentais — como a CLT, a Petrobras, a ambição de desenvolver o país — o debate de 2018 inclui escolhas que a maioria da população carrega na ponta da língua e podem ser decisivas na corrida às urnas. Essa situação explica o imenso apoio a Lula — mas não só. Também demonstra esforço das forças que deram os votos e o indispensável respaldo a Michel Temer, em todos os momentos desde o trágico abril de 2016, para encontrar um candidato sem folha corrida. O objetivo é promover uma operação destinada a fugir de um debate político necessário para assegurar um consenso artificial, construído em torno de maquinas econômicas e da mídia que, mesmo representando interesses de 1% da população, em vários momentos de nossa história já se mostrou capaz de se impor ao conjunto do país.

A mais conhecida profecia sobre a campanha eleitoral de 2018 é uma fabula que fazia sentido em outra circunstância mas perdeu validade. Imaginava-se que Michel Temer estaria condenado, no ano que vem, a desempenhar um papel idêntico ao de José Sarney em 1989, quando o presidente da República participou da campanha como um simples fantasma, com dois candidatos — um do PMDB, outro do PFL — sem nenhuma capacidade para polarizar a disputa. Essa visão está errada, em minha opinião, pois ignora um dado básico da situação política.

Enquanto Sarney chegou ao fim do mandato como uma ruína em todos os níveis, o desempenho de Temer é igualmente uma tragédia mas de outra natureza. Ao contrário de Sarney, que se descobriu só e abandonado, Temer pode e deve ser considerado como um desastre para 97% dos brasileiros. Mas é visto como um aliado seguro e até certo ponto insubstituível por aquele 1% que concentra a riqueza e o poder econômico, cultiva relações privilegiadas como os mercados internacionais e tem à disposição uma máquina de recursos capaz de assegurar uma influência política infinitamente maior do que sua base social real e os interesses de fundo que representa. Resumindo: a vontade do povo está contra Temer. Mas o poder imperial e seus braços instalados no país trabalham a favor de sua continuidade.

Em 1989, os aliados do poder imperial e de uma integração subordinada à economia mundial estavam na oposição a Sarney. Ganharam o pleito com Fernando Collor e um discurso moralizante enganoso, com vários pontos de contato com a parafernália ideológica que acompanha a Lava Jato. Na década de 1980 a ditadura militar fora desmantelada pela insurgência expressa nas Diretas-Já e a nova ordem — apenas denunciada pela carta de 1988 — não fora construída. Em 2018, a ordem do Estado Mínimo — vamos chamar assim — está de pé e avançará a passos ainda mais largos se a reforma da Previdência não for contida. O país do Estado Mínimo continuará de pé por anos, quem sabe décadas, se não for vencido. A dramática sobrevivência de um pinochetismo sem Pinochet, no Chile, mostra o risco que os brasileiros estão correndo. Ninguém tem o direito de se enganar.

Ainda que o político Temer pareça condenado ao cemitério, a disputa em 2018 irá ocorrer entre os adversários das reformas aprovadas  e seu continuísmo. Do ponto de vida da maioria dos brasileiros, não há nem pode haver a perspectiva de acomodação ou meio-termo. O horizonte necessário é de um plebiscito entre a preservação ou revogação do mais nefasto pacote de mudanças que os brasileiros enfrentam desde a revolução de 1930. É em torno desse debate, essencial, que eleitores e candidatos devem ser chamados a se posicionar na campanha, impedindo que, por motivos operacionais do ponto de vista eleitoral, o continuísmo do retrocesso, iniciado em abril de 2016, possa se apresentar de forma camuflada e dar sequência à destruição de um país — com vocação para soberania — em colônia dependente e envernizada.

Não pode haver dúvida a respeito de um ponto. Inteiramente satisfeitos com o conjunto da obra de Temer mas temerosos pelo caráter radioativo de seu círculo de poder, os continuadores irão à luta como aliados constrangidos mas interesseiros, fazendo o possível para esconder a identidade secreta, vergonhosa, inconfessável. Por essa razão procuram um candidato de cara limpa, sem história para esconder — Luciano Huck foi a primeira experiência nesse sentido. Outras virão. Podem ser testadas e descartadas — ou não — até a reta final. O próprio Huck já admite mudar de ideia…quem sabe se a cabeça de Lula lhe for oferecida numa bandeja pelo TRF-4, ainda o plano A de muitos círculos influentes.  

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