Em entrevista no Roda Viva, Temer admite que Dilma sofreu golpe e diz que Lula evitaria impeachment

'Ex-presidente fez revelações que mudam a narrativa histórica sobre o impeachment da antecessora e comprova revelações de Intercept', aponta Kennedy Alencar

Jornal GGN – Há pouco mais de uma semana, reportagem da Folha de S.Paulo baseada no arquivo do “The Intercept Brasil” revelou que os procuradores da Lava Jato sabiam que a divulgação do diálogo entre a então presidente da República, Dilma Rousseff, e Lula, foi ilegal, porque a captação ocorreu horas depois do fim da ordem judicial e ainda, que o ex-presidente, ao considerar assumir o cargo de Ministro da Casa Civil, não pretendia conquistar foro especial para que seu inquérito fosse julgado no Supremo Tribunal Federal, mas sim fazer conciliação com políticos e partidos para reverter a crise política.

Pelo menos 22 telefonemas foram gravados de forma ilegal pela Polícia Federal, incluindo conversas entre Lula e o então vice-presidente Michel Temer. Ontem, durante sabatina no programa “Roda Viva”, da TV Cultura, o ex-presidente Temer, principal beneficiado com a queda de Dilma, reiterou que Lula queria evitar a queda de Dilma, quando tentou assumir a Casa Civil e, ainda, chamou a deposição da ex-presidente petista de “golpe”.

“Temer reitera não ter dúvida de que o prestígio de Lula perante o Legislativo teria evitado a queda de Dilma. Uma operação de combate à corrupção não pode interferir assim na História de um país. O Judiciário e o Ministério Público Federal não poderiam ter realizado uma trama política contra o então governo”, escreve Kennedy Alencar nesta terça-feira (17), em seu blog no iG.

O articulista ressalta que as revelações feitas ontem por Temer “mudam a narrativa histórica sobre o impeachment da antecessora, Dilma Rousseff”.

Às 18h32 do dia 16 de março de 2016, a Globo News noticiava que a então presidente Dilma fora grampeada e uma cópia da transcrição do diálogo que ela tivera com Lula naquela tarde foi lida ao vivo. Em pouco tempo, em Brasília, vários manifestantes se aglomeraram em frente ao Palácio do Planalto para protestar contra o governo. Paralela à revolta popular, deputados da oposição pediam a renúncia de Dilma no plenário da Câmara, levando a um encerramento tumultuado da sessão naquele dia.

O diálogo grampeado foi divulgado ilegalmente pela Lava Jato, como mostram as mensagens entregues por uma fonte anônima ao Intercept comprovando, portanto, a ação política do Ministério Público e do Judiciário, representado nesse caso pelo então juiz Sergio Moro, outro beneficiado com a queda de Dilma e desprestígio político do PT e Lula, se tornando Ministro da Justiça no governo Jair Bolsonaro (PSL).

“A avaliação de Temer no “Roda Viva” tem credibilidade porque ele foi o principal beneficiário da queda de Dilma e conversou com Lula, tendo sido grampeado pela Lava Jato, que escondeu deliberadamente a gravação que enfraquecia a tese de que o ex-presidente queria ser ministro para obter foro no STF e fugir de Curitiba”, pondera Kennedy.

“Temer restabeleceu a verdade histórica. Fica claro que houve, sim, golpe parlamentar, expressão que sempre foi usada neste blog e nos comentários na rádio CBN em relação ao impedimento”, reforça o comentarista completando que torna-se cada vez mais evidente “o papel de Moro e da Lava Jato na derrubada de Dilma, o que foi uma interferência política ilegal do Judiciário no Executivo”. “Numa democracia plena, isso não poderia ter ocorrido”, prossegue.

“O relato de Temer ao programa apresentado pela jornalista Daniela Lima tem forte peso histórico. Ele deixa claro que o motivo para Lula ser indicado para a Casa Civil destrói o argumento da Lava Jato, de Moro e também do STF (Supremo Tribunal Federal) para impedir que o petista assumisse o posto”, conclui.

O mesmo pacote de conversas divulgados dia 8 de setembro pela Folha em parceria com o Intercept mostra que os procuradores da Lava Jato de Curitiba demonstraram preocupação com as consequências que sobrevieram sobre o então juiz Sérgio Moro, responsável por permitir a divulgação do pacote de grampos de conversas entre Lula e pessoas próximas.

A hipótese de que Lula aceitava a nomeação como ministro para travar as investigações contra ele foi usada pelo então juiz da Lava Jato para justificar o ato de tornar público o diálogo entre Dilma e o petista.

“A Lava Jato manipulou a opinião pública e a imprensa no episódio do grampo de Lula-Dilma. Mudou a História do Brasil, abrindo caminho para um desarranjo institucional que jogou o país nas mãos de Jair Bolsonaro. Moro e cia têm essa responsabilidade histórica que nunca será apagada”, ressalta Kennedy.

Na coluna de hoje ele destaca ainda outra revelação: a de que os procuradores Deltan Dallagnol e Thaméa Danelon ofereceram ajudar o advogado Modesto Carvalhosa no pedido de impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.

“Imagine um cidadão ser processado e o Ministério Público se dispor a redigir peças de um advogado de acusação. Mais: Dallagnol diz no Telegram que ninguém pode saber sobre o que ele e Danelon planejavam fazer. Ora, esconderam porque era ilegal o que discutiam no aplicativo. Trataram de processo penal no Telegram, fora dos autos, para tramar contra um ministro do Supremo”.

*Clique aqui para ler a coluna de Kennedy Alencar na íntegra.

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