Especialistas desmistificam a Operação Carne Fraca

 
Jornal GGN – Em meio à deflagração da Operação Carne Fraca, muitas informações sobre o que foi usado nas carnes brasileiras para burlar o sistema e cometer irregularidades, como o uso de papelão e vitamina C cancerígena, foram exageradas. A análise é de especialistas em carnes e engenheiros de alimentos, consultados por reportagem da BBC Brasil.
 
Pedro Eduardo de Felício, médico veterinário e especialista em carnes da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, considerou prejudicial a forma como os dados foram noticiados, “exagerada”, descreveu.
 
“A polícia agiu mal com a maneira como divulgaram tudo. Acho que houve um certo exagero, para precipitar a loucura que foi na imprensa ontem”, afirmou.
 
A engenheira de alimentos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ – USP), Carmen Castillo, desmistificou, por exemplo, o fato de substâncias usadas em carnes embutidas serem de fato tão ruins como se noticiou.
 
 
Ela explicou que o ácido ascórbico, que é a vitamina C, por exemplo, é inclusive necessário para o processamento de alimentos, assim como outras substâncias, e que é preciso ter o cuidado de não “demonizá-las”.
 
“Não é problema usar esses ingredientes (em alimentos processados e embutidos), o problema é não respeitar os níveis permitidos na lei”, enfatizou.
 
Para o dono do restaurante Varanda Grill, em São Paulo, Sylvio Lazzarini, a divulgação da Operação foi “muito sensacionalista”. “Essa é uma questão pontual. Estou nesse mercado, estudando e trabalhando, há 30 anos. Uma das empresas que dirijo importava carne do Uruguai e da Argentinos até 2012. Hoje, 100% da carne que usamos é produzida no Brasil porque melhorou muito a qualidade”, destacou.
 
Apesar de os especialistas ressaltaram a importância da investigação, lembraram que a Polícia Federal não conseguiu explicitar quais foram as infrações cometidas pelas empresas, e que a situação generalizou como se as irregularidades fossem cometidas em todas as empresas nacionais.
 
Ao divulgar a Operação, o delegado Maurício Moscardi Grillo, disse em entrevista coletiva na última sexta-feira (17), que as empresas usavam até “papelão para fazer enlatados”. Entretanto, a única suspeita sobre o caso não comprova a acusação.
 
Foi um áudio capturado pela Polícia, em que um funcionário da BRF disse que “o problema é colocar papelão lá dentro do CMS”. Para os investigadores, tratava-se de uma manipulação da carne. Para especialistas da área, os investigadores fizeram confusão e o áudio significava que não se poderia entrar com embalagens de papelão dentro do setor.
 
Outra acusação do delegado é que o uso de ácido ascórbico, a chamada vitamina C, era cancerígeno. Entretanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não indica câncer, mas efeitos colaterais como distúrbios gastrointestinais e cálculos renais com o consumo excessivo da substância.
 
“O uso dele tem benefícios e não é para mascarar carne adulterada. Ele tem uma função nas carnes processadas como antioxidante, ajuda a melhorar a estabilidade do sabor e reduzir o teor de nitrito residual. O nitrito é um aditivo para realizar a cura, que é uma etapa importante no processamento da maior parte dos produtos processados. Todo ingrediente não cárneo tem função a cumprir no processamento de alimentos”, disse Carmen Castilho.
 
Por outro lado, Felício ressaltou que o ácido só pode ser usado em carnes embutidas, como as salsichas, por exemplo, e não em carnes vendidas em mercado. “A carne usada como matéria-prima não deve ter qualquer aditivo, nem o ácido ascórbico. Se a Polícia achou isso, não deveria acontecer”, destacou.
 
A questão de que salsichas de peru não continham carnes de peru, mas proteínas de soja, fécula de mandioca e carne de frango, também foi divulgada com exageros. Os especialistas afirmaram que o uso desses outros alimentos no produto são comuns em todo o mundo, devendo apenas respeitar as quantidades determinadas pela lei.
 
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