Fotos de Sejumoro e Carminha no bordel simbolizam a moral do golpe, por Armando Coelho Neto

Fotos de Sejumoro e Carminha no bordel simbolizam a moral do golpe

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Gosto de ter os pés no chão, ainda que nem sempre consiga isso. Não gosto da expressão “Lula Inocente”, por pressupor uma pureza dentro de um mundo sujeito a maldades, mutretas e seduções. Ser “inocente” dá uma conotação de pureza que a gente não encontra sequer dentro do Vaticano. Nem sempre a ideia de inocente tem como objetiva contraposição a palavra “culpado”. Sim, Lula é inocente sob o ponto de vista da objetividade material que o mundo do Direito exige. Mas é a narrativa de pano de fundo que alimenta o imaginário da condenação. Mas a inocência vem associada a um purismo angelical exigível onde ele não existe. Esse político puro e santo só existe no ódio de Sejumoro contra Lula.

Fui, durante um ano, chefe da unidade de segurança privada em São Paulo. Se tivesse acolhido todos os convites para almoços e jantares estaria obeso e mal falado. Afinal, qualquer pleito legal reconhecido por mim seria lido como favor, no mínimo em troca de comida, se fosse julgado por Sejumoro. O guardanapo das comilanças e a falta de comprovante de que não paguei minha parte seria a prova de que sou corrupto. Não haveria diálogo civilizado, busca por soluções. Tudo seria conchavo ou barganha, e eventual sucesso de uma daquelas empresas me converteria “proprietário atribuído”. Depois de inventar o “Crime do Ia”, a Farsa Jato inventou a ”propriedade atribuída”.

Ao assumir aquela delegacia, havia uma norma invisível: “sentou do outro lado da mesa é bandido”. Eu queria quebrar essa regra, pois para mim empresário é investidor, dá emprego e os sérios, quando errados, querem orientação para se corrigirem. Conquistei respeito do setor empresarial, mas internamente, de soslaio e quase como censura, diziam que eu costumava “fazer de graça aquilo que qualquer um venderia”. Portanto, se eu estivesse sob as garras de Sejumoro, certamente “teria levado algum”, por algum “ato inespecífico”, em troca de contraprestação “difusa, futura e indefinida”.

Conversei, de forma indistinta, de empresário a vigilante, da pequena à grande empresa. Como falei com muitos, qualquer proposta de algum favorecimento que pretensamente alguém me tivesse feito, mesmo não aceita, confirmada por algum garçom que serviu minha mesa, seria prova de meu envolvimento em falcatrua. Eu era chefe e tinha domínio do fato.

Confesso ter sido imprudente num mundo no qual não se pode ser inocente. Sofri até tentativas de assédio impublicáveis. Presentes enviados para minha casa foram recusados na portaria de meu prédio e perdi as contas das chácaras, sítios, stand de tiro colocados à minha disposição a “hora que o senhor quiser”. Fui sondado para camarotes em desfile de Carnaval em São Paulo, Rio de Janeiro, Galo da Madrugada (Recife)… (Tudo recusado)

Alguns assédios tiveram requintes de individualização, pois até as letras da placa de meu carro foram ridiculamente personalizada. Então eu, para ser honesto, deveria ir correndo ao Detran e mudar tudo. E foi assim que quebrei a regra da mulher de César. Se meu juiz fosse “aquele um”, meus atos de “improbidade” seriam elencados para o Jornal Nacional, de forma a criar a mostrar a convicção, preferencialmente num “poipont” (Lula).

Inocência. Quantos delegados não são ou foram assediados? Quantos, para conseguir pontuação em cursos de especialização, trabalhos de mestrado ou doutorado não mendigaram ou foram assediados para publicação de seus artigos? O que dizer de participações em seminários no Brasil e no exterior, com tudo pago “pelo além”? Ah! Um ex-correspondente da Folha de S. Paulo, em Nova York, me confidenciou um convescote para onze juízes, patrocinado por um doleiro paulista, com direito a visita ao Condomínio Biscayne (Miame/USA), de propriedade de um polêmico juiz federal já afastado.

Se um delegadinho chinfrim como eu fui assediado, por quê  juizeco (de Curitiba ou não) não o seriam? Por que procuradores da República iriam fazer jejum para não ceder a essa tentação? Por que Lula não seria assediado? Soa natural que parentes e aderentes de Lula possam ter se dado bem. Qual o empreendedor com algum recurso que não gostaria de ter como sócio um parente de Lula, mesmo que esse parente só tivesse 1% do capital? Quantos caminhos preferenciais não se abririam para empresas e profissionais nessas condições? Quantos empresários não colocaram bens à disposição de uso de um presidente da República? Posso presumir que por imprudência e ou negligência, aqui ou ali algo possa ter transposto limites da ética, mas muito longe da corrupção no sentido legal absoluto.

Eis a hipocrisia em sentido máximo. Ela é pano de fundo na sacramentação do Poder Judiciário. Qualquer sindicância mal feita derrubaria mais da metade do Poder Judiciário brasileiro (Com a palavra a ex-ministra Eliana Calmon, para quem é impossível acabar com a corrupção no Poder Judiciário).

Quando alguém arrota a condenação do Lula e sua manutenção pelos seus pares, não consigo me desvencilhar desse pano de fundo. Falam como se juizeco, desembargador, ministro viessem de outro planeta. Santa hipocrisia. Vi, recentemente uma nota da Associação de Juizes “absurdados” por que jogaram tinta vermelha no prédio da Madre Superiora. Ficaria mais feliz se tivessem se posicionado sobre o encontro secreto dela com Fora Temer, na calada da noite.

Sacramentação do Judiciário? Vamos lembrar da desembargadora tresloucada que ofendeu a memória de Mariella; o juiz que usou o carro apreendido de Eike Batista; outro que disparou tiros num supermercado na região Nordeste; o juiz condenado na Operação Anaconda, Nicolau dos Santos Neto. Tem aquele que prendeu por desacato uma fiscal de trânsito e outro que processou o porteiro porque queria ser tratado por “dotô”. Tem a desembargadora que mandou soltar o filho envolvido em tráfico. Finalmente, aquele das prisões ilegais, sentenças ocas, que vazou conversas entre Dilma e Lula. Isso não é corrupção?

Estava escrevendo esse texto, quando vi um certo vídeo. Nele, um velhote ensandecido, se declarando rico e proprietário de um prostíbulo, despiu uma funcionária como símbolo de seu sucesso. Na fachada do bordel colocou as fotos de Moro e de Carminha, para comemorar a prisão de Lula. Não vi nenhuma nota da associação dos juízes sobre isso. Afinal, mais que extensão da unanimidade condenatória de Lula, as fotos de Sejumoro e Carminha no puteiro simbolizam a moral do golpe…

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

 

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15 comentários

  1. A imagem que ilustra o post

    A imagem que ilustra o post me lembra o filme Barrabás (1961) comemorando a própria libertação em troca de outro condenado…

    No filme ele comemora num puteiro…..há no youtube…

  2. Veja que isso é a cara do
    Veja que isso é a cara do golpe o cafetão sonegador fiscal tem como ídolos o Suju Morro e a Carmén Bruxa Cobra Venenosa.

  3. Gosto Não se Discute

    Nassif: nessa o Armando foi injusto. Se o velhote tem preferências por coisas semelhantes, que mal há se dentre elas encaixar a imagem de Sejumoro e Carminha?  Quer maior que esses dois “poderes” nacionais? Só espero que haja circundado as fotos símbolos com uma tarja verde-oliva. Aí o quadro taria completo.

  4. Foto muito boa

    Foi a mais ilustrativa destes episódios. À esquerda um ladrão do bom Direito e do outro lado uma Justiça que se vende como uma puta de bordel; os dois juntinhos.

  5. Carmem Lúcia e Sérgio Moro

    Carmem Lúcia e Sérgio Moro tiveram que prostituir a Constituição Federal para poder mandar prender Lula. Portanto, não deve causar estranhamento o fato de ambos terem se transformado em heróis de um famoso cafetão. 

  6. vale-tudo

    Armando,

    Comentário mais que perfeito.

    Além de vulgarizar os atos de delação e traição explícita ( aquele que ajudar alguém será o primeiro a ser massacrado pelo beneficiado, como exemplo JBarbosa e JDirceu), toda esta impressionante patranha também mostrou que o Judiciário pode tudo, e tanto pode que sacou da cartola a ridícula ” propriedade atribuída”, teoria curitibana que passou batida e pronto, nada aconteceu, nenhuma reação por parte da “crasse dos adevogados”.

    Hoje, qualquer pessoa pode ser presa sem que tenha feito coisa alguma, pois basta o testemunho de um fulano qualquer para sacramentar o destino de um cidadão que, se for o caso, nem ficará sabendo sobre o motivo de seu encarceramento.Como se vive em uma republiqueta de bananas que tem mais de 40% de seus 730 mil encarcerados sem que tenham sido julgados, o tal cidadão terá as grades como horizonte até o momento de seu último suspiro.

    O vale-tudo está instalado, e daqui prá frente as mazelas do cotidiano da turma da justicia só poderão piorar, é a partir desta percepção pavorosa que se brota uma greve de juízes por auxílio-moradia e tudo bem.

    Em minha opinião, este qui si dane geral e irrestrito difilcutará bastante a liberdade de Lulalá, sem dúvida o troféu do golpe. A justicia de hoje, inteiramente entregue ao competente e barra-pesada domínio golpista, dificilmente permitirá que o mito volte a incomodar o comando central, CIA e mercado, que não gastou bastante $$$ para, mais adiante, entregar o trono de mão beijada para o adversário – o comando central não é estúpido.

  7. Resumo de uma época

    Esta imagem passará a História como resumo de uma  época :  A moralização do país sendo comemorada num puteiro, de forma escrachada sob os posters de sejumoro e carminha.  Vale por  1 zilhão de análises sociológicas.

    Há pouco tempo houve aquele convescote da IstoÉ, onde sejumore e mineirinho foram flagrados em puro divertimento,  num tete-a-tete obsceno, enquanto mixéu esfrega as mãozinhas ( igual as moscas esfregam as patinhas ), pensativo….

    Tem também aquela da tucanhêde e mixéu, em total descontração,  debochando dos recém golpeados….

    Ou aquela do MBL , cunha e quadrilheiros saudando com uma faixa o combate a corrupçâo…

     Como esquecer a  cartinha do mixéu , recheada de citações em latim…

    Os juizecos sejumoro e bretas degustando pipoquinhas na estréia do  filme de propagando do golpe ( A lei é para todos ) ,  sem se importarem com o empurrãozinho que o auxílio-moradia lhes dá   todo mês….

    O japonês comedor de bola da federal, alçado a símbolo da nova moralidade….

    Enfim,

    São centenas de imagens, significativas, e  que precisam ser imortalizadas numa obra,  com textos apurados e com boa diagramação.

    Com o saldo financeiro   das vendas revertendo para a Revolução Democrática ( ou defesa do presidente Lula ) que tanto precisamos neste país….

    Nassif, fica a sugestão…

  8. Retorno do escravismo latente nos herdeiros da Casa Grande?

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    O caso Lula revela a recidiva de uma doença gravíssima no corpo social brasileiro. Chamemos as coisas por seus nomes: trata-se do gozo perverso na prerrogativa de dispor do outro como objeto, como escravo, sem limites.

    Lula tem a origem e os traços dos subalternos típicos no Brasil. “Paraíba” (termo empregável para qualquer nordestino) é gíria que designa trabalhador braçal disponível para uso e abuso em trabalhos insalubres, pesados e mal remunerados.

    Não devemos esquecer: fomos o último país ocidental a abolir a escravidão.

    Nossas elites resistiram muito a abandonar o gozo em dispor do outro como objeto, na condição extrema de escravo, em favor de formas de produção mais lucrativas e mais racionais. A história do Barão de Mauá é um contra-exemplo bastante ilustrativo neste ponto.

    Esse gozo perverso, aliás, não se restringe às elites. Recorde-se que, nos tempos da escravidão, até escravos podiam ter escravos. E alguns tinham. Não deviam ser menos cruéis com seus cativos que seus donos eram com eles.

    Isso pode ajudar a explicar o enigmático fenômeno dos “pobres de direita”. E, mais ainda, o dos “ex-pobres de direita”. Seriam herdeiros espirituais da Casa Grande, mesmo não sendo herdeiros materiais da mesma.

    O mito legitimador da “meritocracia” pode racionalizar o gozo escravista. Permite a um “winner”  afirmar seu “direito” de tratar o subalterno como objeto de uso, abuso e descarte – sem limites, nem inibições.

    Domingo, Lula foi preso – num processo que, segundo o N. York Times, não seria levado a sério pelo Judiciário de nenhum país civilizado deste mundo (grife-se a palavra “civilizado”!).

    Em comemoração a esse magno evento, um cafetão paulista promoveu uma orgia em seu bordel.  Ofereceu prêmios a quem matasse Lula na cadeia. Realizou uma “performance” num palco, sob os olhares extasiados dos presentes, humilhando publicamente uma mulher nua, “empregada” do seu estabelecimento. Graças a moralistas sem moral como Carmem Lúcia e Sérgio Moro – cujas fotos estavam expostas no cenário, como patronos do espetáculo – é assim que os herdeiros da Casa Grande reafirmam que podem, querem e vão tratar os subalternos: como se tratam as putas. Como objetos de uso, abuso e esculacho. Não é por outro motivo que chamam os petistas de “vagabundos” – “vagabundas” é outra designação para “putas”.

    O orgasmo coletivo semimaníaco que saudou a prisão de Lula encontrou nessa cena digna de Genet e do Marquês de Sade sua expressão mais crua, mais ostensiva – e mais sintomática.

    Depois do golpeachment – Cazuza foi profético – transformou-se o país inteiro num puteiro, ou em algo mais próximo disso do que antes. A prisão de Lula representou um “esforço a mais”, um passo a mais nesse sentido.

    Nos dois últimos anos, efetivamente, alguns estão ganhando muito dinheiro – em “temerosas” transações. Mas não a esmagadora maioria dos que se regozijaram com a prisão de Lula; mesmo estando, hoje, mais pobres que nos tempos de governos petistas.

    Muitos dos que estão tendo orgasmo múltiplo com a prisão de Lula foram empobrecidos por Temer & Quadrilha. Mas parecem conformados com o colapso da economia, a baixa nos seus negócios, sob o desgoverno golpista. Estão tendo outro tipo de ganho. Lula preso significa a promessa de retorno aos “bons tempos”, quando se podia esculachar impunemente os subalternos – tratá-los como o dono do bordel paulista fez com a “sua” puta.

    Aquela performance do cafetão foi a mostração didática do que está em jogo, hoje, no Brasil. Foi a leitura dramatizada da verdadeira carta de intenções dos herdeiros, materiais e espirituais, da nossa Casa Grande.

    A Rede Globo não teria conseguido suscitar tanto ódio, de tantos brasileiros, a quem deixou o governo com 85% de aprovação, se não tivesse reativado algo latente; algo que estivesse, apenas, esperando a melhor oportunidade para irromper. O câncer do gozo escravista voltou, e com força total. Esperemos que, desta vez, não leve o Brasil ao cemitério da civilização.

    • Bom post

      Muito bom post original e seu comentário, nada tenho a acrescentar.

      Falando de corrupção me lembro de uma frase de um ex governador de SP (esqueci o nome, dos anos 60-70). Ele dizia: É quase impossivel escapar dos “agrados” que recebe quando se em esse cargo.

      Me lembro também a afirmação do Jessé Souza quando diz que que o Mercado quer crer que a corrupção está no Estado, quando na verdade está no Mercado. Mas isso não vem ao caso, como bem sabemos!

  9. O Golpe é pornográfico

    É um grande estupro do Brasil pelos EUA. As elites nativas, e os que se identificam com elas, estão gozando com as migalhas; ou gozando com a genitália alheia, por “espelho” e procuração.

  10. Carmen Lucia, quem diria, foi acabar no bordel!

    Nem nos sonhos do Wilson Ferreira ele poderia ter encontado imagem melhor para ilustrar o que Sergio Moro, Carmen Lucia e associados fizeram com o Brasil e com Lula. Esta ai registrada para a historia.

  11. O Brasil é famoso pelas suas dançarianas, não por seus juristas

    De acordo com um político italiano, o Brasil é conhecido internacionalmente pelas suas jaboticabas e pelas suas ‘daçarinas’, não por nossos juristas. Não é à toa que a Prisidenta do $TF e o Sejumoro sejam os heróis do Cafetão Oscar Maroni

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