Lula sabia… José Dirceu sabe, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Lula sabia… José Dirceu sabe, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Sim. É verdade. Lula sabia que ia ser preso. Juca Kfouri perguntou se o ex-presidente admitia a hipótese de ser preso e estava preparado. A resposta que ele deu a pergunta é absolutamente clara.

“Estou. O que eu não estou é preparado para a resistência armada, nem tenho mais idade. Como sou um democrata, nem aprender a atirar eu aprendi. Então, isso tá fora. O PT não nasceu para ser um partido revolucionário, nasceu para ser um partido democrático e levar a democracia até suas últimas consequências.” (A verdade vencerá, o povo sabe porque me condenam, entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva aos jornalistas Ivana Jinkings, Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, Boitempo, São Paulo, 2018, p. 124).

Um pouco mais adiante, ao responder a jornalista Ivana Jinkings, Lula foi ainda mais preciso.

“Eu não acho que o mais importante seja impedir minha prisão. Deixa eu fazer uma imagem: se o Getúlio Vargas tivesse tido em vida um terço das pessoas que foram ao velório dele na rua, ele não teria se matado. Então, não quero confundir comoção com conscientização política. Não quero.

Eu já me dou por satisfeito se, depois de doze anos de porrada, sem poder falar na imprensa com destaque, apenas com minhas caravanazinhas, as minhas reuniõezinhas com o povo, apareço nas pesquisas todas da forma como apareço; tenho que ser grato a Deus e grato a tudo. A coisa de que mais tenho orgulho não é ter sido um presidente popular, eu tenho mais orgulho é do fato de ter mudado a relação do Estado com a sociedade e do governo com a sociedade. O que eu quis como presidente foi fazer com que os mais pobres deste país se se imaginassem no meu lugar. E isso foi conseguido.” (A verdade vencerá, o povo sabe porque me condenam, entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva aos jornalistas Ivana Jinkings, Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, Boitempo, São Paulo, 2018, p. 141).

Mas ele sabia muito mais.

“O que é preciso deixar claro: a gente não poderia viver o que está vivendo. Eles não estão julgando o Lula, estão julgando o governo do Lula, o período do PT no governo. Eu tenho alertado os companheiros do PT que eles criaram a nave mãe, que é o power point, para dizer que o PT é uma organização criminosa. É só olhar as peças dos processos.” (A verdade vencerá, o povo sabe porque me condenam, entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva aos jornalistas Ivana Jinkings, Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, Boitempo, São Paulo, 2018, p. 46)

“É importante prestar atenção numa coisa: eles estão julgando doze anos de PT no governo. Eles querem mostrar que não é possível governar como nós governamos. Estou alertando para isso há muito tempo. Eles não estão me julgando, estão julgando um modelo de governo. E por que o Lula é a vítima? Porque o Lula é a pessoa mais importante. Você pega a história do PT, eu sou o mais importante; você pera a história do governo, eu sou o mais importante. Então, quem é o desgraçado que tem que ser condenado? O Lula.” (A verdade vencerá, o povo sabe porque me condenam, entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva aos jornalistas Ivana Jinkings, Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, Boitempo, São Paulo, 2018, p. 48)

Ele também sabia da sua fragilidade. Mais do que isso, Lula sabia que nessa fragilidade reside a verdadeira fonte da autoridade que ele conquistou e continuará exercendo dentro ou fora da prisão.

“O que eu compreendo, o que eu aprendi? Que chegar ao governo é diferente de chegar ao poder. Agora, é importante você levar em conta que muitas vezes, essa compreensão da chegada ao poder… Você começa a virar um pouco ditador. Não quero controlar o Poder Judiciário. Não quero que o Poder Judiciário seja bom para mim. Quando indiquei ministros para o Supremo, não indiquei pensando em fazerem favor para mim. Meu desejo era que eles fossem coerentes com a nossa Constituição e que cumprissem aquilo que estava na Constituição.” (A verdade vencerá, o povo sabe porque me condenam, entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva aos jornalistas Ivana Jinkings, Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, Boitempo, São Paulo, 2018, p. 104)

Sérgio Moro usou a imprensa e atropelou a legislação para prender Lula porque imaginava que prevaleceria no conflito entre o juiz/poder de julgar/justiça e o político/réu/operário. Lula sabia que ia ser preso e pacificamente se submeteu à ordem injusta de prisão. Ao fazer isso, Lula redefiniu os termos do conflito. No exato momento em que ele foi preso a controvérsia deixou de ser jurídica e passou a ser essencialmente política, arena em que o que está em disputa não é o poder e sim a autoridade.

Portanto, o ex-presidente petista também sabia que a autoridade que ele conquistou não poderia ser destruída mediante uma ordem prisão. Muito pelo contrário, Lula foi capaz de imaginar que sua autoridade pessoal cresceria em virtude do encarceramento injusto (o que de fato está ocorrendo) na exata proporção em que o poder abusivamente exercido pelo juiz iria se esvaziar (o que também está ocorrendo).

Lula sabia algo que Sérgio Moro não foi capaz de saber: que a autoridade política não pode ser contornada, disciplinada ou controlada através de fraudes processuais. O encarceramento de Lula virou um tormento para seu inimigo togado. O desespero de Sérgio Moro para continuar perseguindo Lula – apesar da decisão do STF que o julgou incompetente para conduzir o caso do sítio em Atibaia – demonstra claramente que o juiz lavajateiro perdeu a disputa. Portanto, a libertação do ex-presidente se tornou irrelevante. Ela será apenas um bônus e não precisará ser negociada como querem alguns juízes e barões da mídia.

Isso talvez explique porque José Dirceu se recusa a fugir. Ele sabe que a fuga dele, intensamente desejada pelos inimigos do PT, seria uma bomba atômica no futuro do PT.

 

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3 comentários

  1. Texto elucidativo.

    O texto é a confirmação de tudo aquilo que qualquer pessoa com um mínimo de controle emocional e capacidade analítica sabe:

    – Lula entende que seu papel é manter a luta política dentro dos limites da institucionalidade consentida, naquilo que ele chama de Democracia, quando ele se autodenomina um democrata.

    – De quebra, Lula traça um perfil do PT que, dito por outra pessoa, poderia ser considerado uma arrogância, mas não é o caso: O PT não é um partido revolucionário.

    A fala de Lula sobre Vargas é tão horrível que só pode ser crediata a confusão mental do cárcere e do isolamento.

    Ora, pilordas, Vargas se matou justamente por não imaginar que tinha saída, porque preferiu manter os milhões que poderiam tê-lo seguido a espera de um gesto dramático, ao invés de mobilizá-los.

    Mais ou menos como Lula faz com sua prisão.

    Afinal, são millhões que votam nele (de acordo com as pesquisas), e pouquíssimos os que se manifestaram nas ruas contra sua prisão.

    Tavez se as elites e seus juizecos de coleira imaginassem que milhões protestariam nas ruas contra o sequestro de Lula, nunca ousassem deixar o processo chegar a tal termo!

    Ok, tudo bem, tudo está nos seus lugares, graças a deus (?), inclusive ele na prisão, haja vista que dentro dos limites que a realidade lhe impôs, ressalvado seu capital político apesar do assédio que sofre desde 1980, ele nunca se rebelaria contra a ordem instituída.

    O autor concorda com isso. Direito dele.

    Mas é isso mesmo: A História será aquilo que Lula imagina dela, incluindo aí o espólio de seu governo, de sua trajetória e do partido que apenas ela presenta como ninguém, embora seja muito maior que ele?

    Vamos ao trecho final do texto:

    “(…)Portanto, o ex-presidente petista também sabia que a autoridade que ele conquistou não poderia ser destruída mediante uma ordem prisão. Muito pelo contrário, Lula foi capaz de imaginar que sua autoridade pessoal cresceria em virtude do encarceramento injusto (o que de fato está ocorrendo) na exata proporção em que o poder abusivamente exercido pelo juiz iria se esvaziar (o que também está ocorrendo).

    Comentário: E daí? Olha se o que justificava para, de certa forma, para o chamado sacrifício de fazer alianças com o prior espectro político do país se justificava pelo enorme legado de mobilidade e inclusão sociais proporcionado em seu governo e de Dilma, e que mantinha o PT dentro das rédeas do “paz e amor”, o que justifica essa postura bovina de hoje (eu nunca achei que fosse sacrifício, porque Lula gosta de transitar nessas zonas cinzentas)?

    Nos basta a autoridade de Lula para conter o avanço sobre os parcos e pálidos direitos conquistados?

    É isso mesmo? Nos bastará a lembrança do que foi e do que poderia ter sido?

    (…) Lula sabia algo que Sérgio Moro não foi capaz de saber: que a autoridade política não pode ser contornada, disciplinada ou controlada através de fraudes processuais. O encarceramento de Lula virou um tormento para seu inimigo togado. O desespero de Sérgio Moro para continuar perseguindo Lula – apesar da decisão do STF que o julgou incompetente para conduzir o caso do sítio em Atibaia – demonstra claramente que o juiz lavajateiro perdeu a disputa. Portanto, a libertação do ex-presidente se tornou irrelevante. Ela será apenas um bônus e não precisará ser negociada como querem alguns juízes e barões da mídia.

    Isso talvez explique porque José Dirceu se recusa a fugir. Ele sabe que a fuga dele, intensamente desejada pelos inimigos do PT, seria uma bomba atômica no futuro do PT.”

    Comentário: Ah, bom, a mera especulação sobre um possível “desespero” do juiz inquisidor nos acalma. Viu? Lula tinha razão e não perdeu a fleuma. Perdeu a liberdade, seu projeto político, e ficou com intenções de voto em eleições que não sabemos se haverão! Ótimo, estamos todos resolvidos, e fica assim: Se não houver eleições, continuamos a nos contentar com a memorabília de Lula e o PT, envernizados pela sua enorme autoridade moral e política frente os caras maus. Se houver, com Lula preso, negociamos uma saída menos traumática, e esperamos o próximo golpe!

    Mais ou menos como o 7 a zero da Alemanha. Saimos todos f*didos, mas estávamos competindo, e não é isso que importa?

    Arf!

    Zé e Lula não fogem porque nem essa alternativa política eles construíram. Como mitos que se (auto) consideram, só lhes resta o martírio.

    Autoridade política sem resultado prático é como uma Ferraria sem rodas ou pneus.

     

  2. Eis a análise de um advogado que entende de Política e Poder

    Muito interessante a análise. Em poucas linhas Fábio de Oliveira Ribeiro conseguiu resumir a superiodade do Ex-Presidente Lula em realção a seu principal algoz. Imaginem se o torquemada das araucárias resolvesse entrar na arena política e debater com o ex-Presidente Lula. Quantos minutos o togado resistiria? Mas ele covarde, golpista, oligarca, plutocrata, cleptocrata, privatista e entreguista; ele só faz o que os chefes mandam, embora tente posar de “duce” e “führer”.

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