Mensalão: quem vai ser condenado e quem vai cumprir pena?

Sabemos que a acusação é fraca, não existem provas, e a alegação do procurador geral da república, feita hoje, de que em grandes casos de corrupção os lideres não participam diretamente, então os testemunhos passam a ser tão importantes quanto as provas é absolutamente risível. Se essa afirmação realmente procede, então qualquer um que for acusado de um crime, em que três ou quatro pessoas afirmem que ele é culpado está condenado. Mesmo que estes acusadores tenham alguma participação no mesmo crime, ou interesses paralelos, o importante é o seu testemunho, que vale como prova cabal.

Fiquei sabendo do “mensalão” pela minha esposa. Quando cheguei em casa à noite ela resumiu para mim o que tinha ouvido nos jornais, que o PT tinha pago uma taxa mensal para os deputados da base aliada para a aprovação dos projetos no congresso. Já acostumado à truculência da imprensa brasileira, descartei imediatamente a questão, dizendo que era uma besteira e que iriam esquecer logo, e fui tomar meu banho. Para mim, não fazia o menor sentido, pois um partido só faz parte da base aliada se vota com o governo. Se não, deixa de ser base aliada. Comprar votos da base aliada é algo como contratar uma secretária para a sua casa, e ter que pagar por cada cafezinho que ela fizer.

Porém, a imprensa brasileira conseguiu fazer com que uma acusação dessas tomasse vulto, e hoje, para qualquer um que você perguntar nas ruas, vai ouvir que a compra de votos existiu, e foi feita com dinheiro público. Lembro até hoje de uma entrevista que assisti, com o senador Álvaro Dias, ao término da CPI do correios, onde a repórter perguntou a ele: “Senador, o mensalão existiu?”, e ele respondeu prontamente: “claro que sim, não conseguimos vincular os pagamentos às votações, nem descobrir de onde foi desviado o dinheiro, mas é claro que o mensalão existiu”.

Mas o mais engraçado é que, na população em geral, ninguém parece dar a mínima para isso. Apesar de toda a propaganda negativa, o presidente Lula conseguiu se reeleger, e em seguida a presidenta Dilma foi eleita, e se não houver um tsunami na economia, vai conseguir se reeleger também sem nenhuma dificuldade, como indicam as pesquisas divulgadas hoje.

Mas então por que toda essa pressão da mídia sobre o Supremo, exigindo uma condenação? Por que o que está em jogo não é a condenação ou não, mas a capacidade deles de influenciar as instituições para atingir os seus objetivos. Essa capacidade vem sendo deteriorada de diversas formas, e a última grande vitória deles foi a eleição e cassação do ex-presidente Collor. De lá para cá, sua influência vem decaindo, então esse é o último esforço deles para provar essa influência, o que deixa para os ministros do Supremo uma escolha extremamente difícil.

O problema é que se forem avaliadas somente as provas, teriam que absolver a todos, e nesse caso vão ser largamente acusados pela mídia de terem patrocinado uma grande “pizza”, e eles sabem o estrago que isso pode causar. Se fizerem uma condenação geral, estarão cedendo às pressões da mídia, condenando pessoas sem provas, e ficarão à mercê dela em outras situações futuras.

Outro ponto importante, é que eu concordo que crimes foram cometidos. Ficou claro que ocorreu um bocado de tráfico de influências para levantar o dinheiro, e a distribuição dele como caixa dois. Então seria correto que algumas pessoas fossem condenadas, porém elas não foram acusadas dos crimes que cometeram, e sim dos crimes que interessavam à mídia e à oposição para gerar uma situação política propícia para eles.

Por tudo que eu já vi acontecer nesse país, acho que no final vamos ter uma das famosas “soluções de contorno”. Vão ocorrer algumas condenações, mas de acusações menores, que signifiquem penas pequenas, numa tentativa de chegar a um meio termo que agrade a todos, e que não vai agradar a ninguém. E quem vai acabar cumprindo pena será o Poder Judiciário, já bastante desgastado, a democracia e a sociedade brasileira, que vão ter que continuar aguentando um Supremo com alguns ministros mais preocupados com sua imagem na mídia do que com as leis, e uma imprensa que acha que é o quarto poder da república.

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