O terraplanismo com notas de rodapé de Terra-Magnolli e o álibi da Nova Cepa, por Luis Nassif

Há dois tipos de terraplanismo. O mais tosco é o da fake news inverossímil. O mais perigoso é o das fake news com notas de rodapé

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Há dois tipos de terraplanismo. O mais tosco é o da fake news inverossímil. O mais perigoso é o das fake news com notas de rodapé.

O modelo é simples. O terraplanista junta um conjunto de informações verdadeiras e desenvolve um raciocínio falso. Monta um bolo típico, um monte de merda coberta pelo creme de leite de termos técnicos e conclusões supostamente científicas.

Os dois principais seguidores do terraplanismo com notas de rodapé são o deputado gaúcho Osmar Terra e o geógrafo paulista Demétrio Magnolli. Esposam todas as teses terraplanistas-trumpistas-bolsonaristas e desenvolvem um conjunto de argumentos extravagantes, mas que iludem pessoas de baixa informação.

Confira os argumentos inacreditáveis de Osmar Terra contra o confinamento.

1.        O contágio é pelas gotas de saliva.

2.        Quando há isolamento, as pessoas de setores essenciais vão para o trabalho e voltam contaminadas.

3.        Como os familiares estão aglomerados em casa, eles passam o virus para a família. Portanto, o maior risco não são as aglomerações públicas, mas as “aglomerações” caseiras.

Sem isolamento, não apenas as pessoas de serviços essenciais, mas todas os jovens e adultos de casa iriam para o trabalho e voltariam contaminados e contaminando, pela significativa razão de que todas as famílias se “aglomeram” nas respectivas casas.

Terra se vale de um princípio tosco do manual da manipulação do discurso: como o isolamento não elimina todas as possibilidades de contágio, logo ele não elimina nenhuma. Simples assim. Quem quiser que conte outra. Foi com raciocínios desse nível que ele conseguiu provar que não passariam de 4 mil mortos pela Covid-19.

Felizmente parou de ser ouvido pela mídia, a pretexto de dar a palavra ao “outro lado”.

O terraplanismo de Magnolli

Outro terraplanista com notas de rodapé é Demétrio Magnolli, a revanche do terraplanismo na mídia.

Recentemente, chamou a atenção geral com sua defesa do não isolamento nas festas de fim de ano. Seu raciocínio demonstrava uma sensibilidade inédita (da parte dele) pelos direitos do trabalhador.

1.        Os trabalhadores se infectam no transporte coletivo e na ida ao trabalho.

2.        Se não impedem que se infectem trabalhando, porque vão impedir de se divertir nas festas de final de ano.

Bolsonaro não diria melhor.

Aí vem o réveillon e explodem os novos casos e novos óbitos. Mas, em seu auxílio, vem o colega Osmar Terra sustentando que o aumento de casos começou em dezembro, logo foi resultado das novas cepas, e não das aglomerações do fim de ano. Mentira pura, mas que engana os incautos.O salto em novos casos começa no dia 6 de janeiro, logo após as festas de fim de ano.

A “nova cepa” se torna, assim, o novo álibi dos terraplanistas, depois do fracasso de todas suas apostas.

O último feito de Magnolli – o artigo “A biopolítica da pandemia” – é campeão. Como um guerreiro indomável do grande centro de pensamento conservador profundo, chamado de Instituto Millenium, Magnolli investe contra a versão de que a China foi mais eficaz para dominar a pandemia do que as democracias ocidentais.

Acompanhe o raciocínio:

  • •        A missão da Organização Mundial da Saúde na China constatou que em dezembro de 2019 já circulavam 13 variantes da cepas A do novo coronavirus na cidade.
  • •        Três meses depois explodiu a pandemia na Lombardia, Itália, com uma avalanche de óbitos.
  • •        A pronta ação da China, resultando em poucas mortes, contrastando com a tragédia na Itália, passou a impressão de que o regime chinês era mais eficiente que as democracias ocidentais.
  • Ledo engano. A diferença foi a Nova Cepa.

Magnalli é um dos principais guerreiros da grande batalha mundial da Star Wars, do bem contra o mal, dos  Cruzados contra os infiéis.

Nessa condição, na campanha do impeachment aceitou ser o segurança da blogueira cubana, a versão de Svetlana Stalin, inspiração que o Milleniun foi buscar no IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) de 1964.

Sua batalha atual é demonstrar que as poucas mortes na China não se deveram à ação do Estado, mas a uma conjugação de fatores, a maior dos quais foi o que ele chama de “coincidências biológicas” – uma forma disfarçada de endossar o discurso de Donald Trump, sobre o papel da China na disseminação da doença.

Segundo Magnolli, “o coronavírus da cepa “original” (A) era menos transmissível que o B.1, difundido fora da China. Não é preciso ser um Estado totalitário para impor um lockdown decisivo. A diferença entre a China e a Itália situou-se na esfera da biologia. Mas o fenômeno desvenda a escala das responsabilidades políticas da China”.

A partir dai, endossa totalmente a versão trumpiana:

“A árvore de mutações virais não tinha sido desenhada em meados de 2019. Naquele ponto, diante do chocante contraste entre a taxa de óbitos em Wuhan e na Lombardia, analistas suspeitaram que a China escondia pilhas de cadáveres. Sabe-se, agora, que isso não ocorreu.

Obcecado pelo segredo, hipnotizado por cálculos de prestígio, o regime chinês suprimiu a notícia dos primeiros casos detectados e ocultou a extensão dos contágios. O tempo perdido propiciou a disseminação subterrânea do vírus fora da China e a eclosão das variantes que vergaram o mundo inteiro”.

Entenderam? Com a menção ao desenho das “arvores das mutações virais” Magnolli dá sua carteirada acadêmica. Só um especialista para dominar um conceito pictóricamente tão forte.

Portanto, houve uma pandemia branda na China e 13 mutações. A China não informou a extensão dos contágios e, com isso, permitiu “a disseminação subterrânea do virus fora da China”. Por culpa da China, floresceu a tal “árvore das mutações virais”.

Fantástico! Pelo seu raciocínio, a China deixou as 13 mutações incubadas, para que ganhassem musculatura e pudessem apanhar os países europeus desprevenidos.

Um livre pensador submeteria as afirmações de Magnolli a dúvidas da seguinte ordem:

Por que as 13 mutações não se espalharam pela China? Obviamente, porque aos primeiros sinais da pandemia, em Wuhan, a China atuou rapidamente, com lockdown e ação decisiva contra o Covid-19. E os demais países, especialmente os EUA de Donald Trump, só agiram depois do desastre consumado.

Outro ponto: se a “árvore das mutações virais” só se manifestou meses depois, porque a China continuou imune a ela? Para que a premissa fosse correta, as novas cepas saíram em bloco da China, e não encontraram o caminho de volta.

Provavelmente porque, com o 5G, a China desenvolveu um algoritmo que cria uma barreira microbiológica na fronteira, impedindo a entrada das cepas que saíram. E os algoritmos certamente foram criados em parceria com Bill Gates.

Simples assim.

A partir daí, a conclusão exaltação de Magnolli, de que os Cruzados vencerão os infiéis:

“2021, Ano 2 da pandemia, abre a etapa da imunização. A China, triunfante no Ano 1, vacina em ritmo lento, enquanto EUA, Reino Unido e, logo, União Europeia, protegerão antes suas populações. A balança geopolítica tende a se inclinar para o lado das sociedades imunizadas, que poderão reabrir com segurança suas economias e suas fronteiras”.

A nova geopolítica, segundo a China

Ao cadáver dissecado da guerra fria, valem as palavras de Wang Yi, Conselheiro de Estado e Ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, durante uma entrevista coletiva em Pequim. O artigo acaba de me ser repassado pelo José Luiz Fiori:

“A escolha do sistema deve ser feita sob medida, em vez de aparar os pés para caber nos sapatos”, disse Wang a repórteres. “Se um caminho funciona para um país depende de como ele se encaixa nas condições do país.”

Manchar ou atacar os outros por seus sistemas diferentes ou mesmo reivindicar superioridade é, em essência, “hegemonia do sistema”, acrescentou.

Muitos expressaram preocupação com a possibilidade de que a competição da China com o mundo ocidental liderado pelos Estados Unidos deixe o globo dividido. Mas aos olhos de Wang, essa não é a maneira certa de ver a situação.

“A pandemia COVID-19 … nos lembra novamente que a humanidade é uma comunidade com um futuro compartilhado”, explicou Wang. “Nosso mundo não pode se dar ao luxo de desmoronar.”

Em vez de competir entre si, Wang recomendou que países em todo o mundo trocassem e aprendessem uns com os outros, dizendo que “esta é a maneira de impulsionar o progresso comum”.

“Na China, os cavalheiros buscam harmonia sem uniformidade”, disse Wang, citando um antigo provérbio chinês. “Enquanto no Ocidente, o respeito é uma qualidade dos cavalheiros.”

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