PF não tem provas e não explica como indicou ex-reitor como ‘sustentador’ de ‘quadrilha’


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Jornal GGN – O relatório final da Polícia Federal (PF) sobre a Operação Ouvidos Moucos indicia 23 pessoas em apuração de desvios de verbas do ensino a distância da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E em mais de 800 páginas do documento, não há uma prova contra o ex-reitor Luiz Carlos Cancellier, mas pelo menos seis delas se dedicam a indicá-lo como aquele que “respaldou” e “sustentou” a quadrilha.
 
O ex-reitor cometeu suicídio em um shopping de Florianópolis, no dia 2 de outubro do ano passado, 18 dias após ser preso na Operação da PF. O primeiro veículo a ter acesso ao relatório final da PF foi a Rede Globo, por meio de sua filial NSC TV.
 
Na última semana de abril, a TV expôs que a quadrilha teria desviado mais de R$ 3 milhões, cometendo crimes como concussão, peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa, violação de sigilo funcional e falsidade ideológica. Documentos, conversas entre os investigados por e-mails, mensagens de whatsapp e depoimentos foram usados pelos investigadores, que acabaram indiciando 23 pessoas.
 
Um deles é nada menos que o filho do ex-reitor da UFSC, Mikhail Vieira de Lorenzi Cancellier, acusado no documento simplesmente porque “não soube explicar a origem de R$ 7.102 transferidos para sua conta por Gilberto Moritz, recursos que foram oriundos do projeto Especialização Gestão Organizacional e Administração em RH, que era coordenado por Luis Carlos Cancellier de Olivo, que também ordenou a despesa do projeto”.
 
Mais de sete meses desde que teve início a Operação e o suicídio de seu pai, o filho de Cancellier agora aparece como um dos indiciados no caso. Em termos jurídicos, o indiciamento não tem valor processual. É um documento preparado pela PF com base nas investigações e supostas provas que é remetido ao Ministério Público, a quem compete pedir a denúncia ou não.
 
A filiada da rede Globo em Santa Catarina divulgou no dia 25 de abril trechos do relatório, em reportagem que tratou de enaltecer os investigadores [relembre], que contaram com o apoio de técnicos da Corregedoria-Geral da União (CGU) e do Tribunal de Contas da União (TCU).
 
 
Também foram apontados pela PF como culpados no caso outras 22 pessoas: Gilberto de Oliveira Moritz, Gabriela Gonçalves Silveira Fiates, André Luis da Silva Leite, Rogério da Silva Nunes, Roberto Moritz da Nova, Denise Aparecida Bunn, Leandro Silva Coelho, Alexandre Marino Costa, Maurício Fernandes Pereira, Marcos Baptista Lopez Dalmau, Eduardo Lobo, Marilda Todescat, Márcio Santos, Sônia Maria Silva Correa de Souza Cruz, Murilo da Costa Silva, Lúcia Beatriz Fernandes, Aurélio Justino Cordeiro, Luciano Acácio Bento, Maria Bernardete dos Santos Miguez, Erves Ducati, Eleonora Milano Falcão e Roseli Zen Cerny.
 
Agora, quem teve acesso ao inquérito da PF foi a Folha de S.Paulo, que publicou o grave erro dos investigadores [acompanhe]: “Apesar das acusações de que estaria no comando de uma suposta quadrilha, o relatório da PF não apresenta provas de que o ex-reitor teria se beneficiado financeiramente por essa participação.”
 
São 817 páginas que narram que o ex-reitor “nomeou e manteve em posição de destaque” professores que abasteciam “a política de desvios e direcionamento nos pagamentos das bolsas” do programa investigado. Nenhuma prova de crime por Cancellier foi trazida pelos delegados, e seu filho aparece na lista de um dos indiciados.
 
 
O ex-reitor se jogou de um shopping de Florianópolis, após entrar para a mira das investigações. À revista Forum [leia aqui], o irmão do ex-reitor elencou os motivos para a tragédia: “Primeiro, ser detido e interrogado durante seis horas por policiais sobre a legalidade de um ato jurídico. Em seguida, foi encaminhado para um presídio comum, já como prisioneiro. A suspensão de seu mandato de reitor foi outro golpe que o dilacerou; acrescido de requintes de crueldade, como a proibição de entrar na UFSC e se comunicar com integrantes da universidade”.
 
“Como esses fatos devem ter doído, haja vista que a UFSC era tudo para ele, a sua vida, seu orgulho”, concluiu o irmão.
 
A Folha, de porte das 817 páginas do relatório, decidiu questionar, então, a Polícia Federal como Cancellier é apontado como o suposto comandante da suposta quadrilha se nenhuma prova aparece no documento. “[O jornal] obteve como resposta apenas que a investigação está finalizada”, divulgou.
 
 
O filho de Cancellier, que à época tinha 25 anos e se mantinha às custas financeiras do pai, disse não ter se lembrado porque havia R$ 7 mil em sua conta, fruto de uma transferência do professor Gilberto Moritz, em três partes.
 
“Comenta-se que os recursos transferidos para Gilberto Moritz foram oriundos do projeto de Especialização Gestão Organizacional e Administração em RH (TJ), coordenado por Luiz Carlos Cancellier, sendo este o ordenador de despesa do referido projeto. Após o recebimento dos recursos, Gilberto Mortiz transferiu para Mikhail Vieira de Lorenzi Cancellier (filho do ex-reitor Cancellier) o valor de R$ 7.102,00”, é a única conclusão da PF, ainda sem provas de relações.
 
Mas a lógica foi considerada suficiente pelos delegados da Polícia Federal para indiciar Mikhail, juntamente com Moritz. O indiciamento foi remetido ao MPF, que decidirá se denuncia ou não os apontados pela PF.
 

Fotos: Reprodução
 

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