PSOL anuncia que polícia investiga ataques a vereadoras trans como crime político

Erika Hilton, Carol Iara e Samara Sosthenes, vereadoras do PSOL, foram alvo de ataques na última semana

Os casos de atentados contra as vereadoras aconteceram todos na semana que visibilidade trans - Divulgação

do Brasil de Fato

PSOL anuncia que polícia investiga ataques a vereadoras trans como crime político

Vanessa Nicolav
Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

Após sequência de atentados contra vereadoras trans do PSOL, o partido se pronunciou em coletiva de imprensa na tarde desta quinta-feira (4), declarando que já existe uma linha de investigação aberta que apura a relação entre os três casos e apontam transfobia e motivação política nesses crimes.

“Eu cheguei a conversar com um dos peritos  que foram em casa fazer a perícia e ele disse que existe essa linha de investigação. Existem outras, mas essa linha está sendo assumida pela Polícia Civil, pelo DHPP [Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa]”, explicou Carol Iara, co-vereadora do PSOL e uma das vítimas de violência.

Os casos de atentados contra as vereadoras aconteceram todos na semana que visibilidade trans, que ocorre desde 2004 para demarcar a luta contra a transfobia no Brasil.

Erika Hilton, foi a primeira a ser ameaçada. Seu gabinete foi invadido no dia 26 por um homem que afirmava ser responsável por ataques virtuais feitos à vereadora. Hilton foi a parlamentar mais votada nas últimas eleições.

Os outros dois atos foram mais graves e configuraram atentado contra a vida. Dois tiros foram disparados contra a casa de Carol Iara, co-vereadora da chapa coletiva Bancada Feminista. Iara estava com a mãe e o irmão no momento do ataque, no dia 27.

O último ataque foi feito contra Samara Sosthenes, integrante do Quilombo Periférico, chapa coletiva também eleita nas últimas eleições. Ela conta que um motoqueiro fez um disparo em frente a sua casa e partiu em disparada, na madrugada do dia 31.

Após fazer boletim de ocorrência, Sosthenes foi transferida para um local seguro, onde permanece atualmente. Ela acredita que os alvos terem sido corpos trans, pretos e periféricos não foi por acaso. Segundo a covereadora, a motivação teria sido política, com objetivo de tirar dessas pessoas o direito de participar dos espaços tradicionais de poder.

“Ontem começou a sessão plenária na Câmara e, para mim e para o movimento, seria importante eu estar lá presente. Um corpo trans que está circulando, que está sendo visto. Durante essa semana estou impedida disso. Então eles conseguiram algo com isso”, afirmou Samara.

No ano passado, o Brasil registrou um aumento de 41% no número de assassinatos de pessoas trans. Ao mesmo tempo, nunca tantos cargos de poder foram ocupados por essa população. As eleições municipais de 2020 representaram um aumento de 300% de pessoas trans eleitas. Para Samara, essa tomada de poder é um dos motivos por trás dos ataques.

“A mensagem que eles querem passar é o medo que eles próprios têm da potência que é ter travestis, corpos pretos, mulheres de luta e resistência. Eles têm medo disso. E como eles são covardes, eles agem da forma mais truculenta, que é o que eles sabem fazer, usar da bala, da intimidação e da transfobia”, declara Samara.

Após os casos de violência, a Mesa Diretora da Câmara dos Vereadores de São Paulo decidiu reforçar a segurança das parlamentares. Porém, Samara e Iara não teriam esse direito, já que são covereadoras e não possuem o nome registrado oficialmente no legislativo.

O motivo seria que não há número suficiente de guardas para fornecer segurança a todos os funcionários da Casa que eventualmente registrem boletins de ocorrência por ameaça.

Para Fabiana Pinto, pesquisadora do Instituto Marielle Franco, tal ação configura uma outra forma de violência: a institucional, já que reforça as vulnerabilidades e a impossibilidade das mulheres, trans, negras e periféricas exercerem o direito de fazer política.

A pesquisadora ressalta que a vulnerabilidade dessas pessoas, já existente em um contexto normal, aumenta em um espaço institucional.

“Foi o que aconteceu com a Marielle.  Vai fazer três anos que a gente não sabe quem mandou matar. A gente sabe que a chance de investigação não dar em nada é grande. Por isso a gente atua para que tenha investigação e que as instâncias possam garantir a proteção imediata para essas mulheres”, afirma a pesquisadora.

Uma das ações coordenadas pelo Instituto é a campanha “Não Seremos Interrompidas”, que mobiliza pedidos direcionados aos órgãos públicos como o Ministério Público e Conselho Nacional de Direitos Humanos, pedindo maior atenção na investigação desses casos. Até agora quase 10 mil pessoas já registraram sua denúncia.

Edição: Leandro Melito

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