Sejumoro, um conto de Natal em terras onde trenó não passa, por Armando Coelho Neto

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Sejumoro, um conto de Natal em terras onde trenó não passa

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Para ele todo mundo era tio. Jeito sedutor, conseguia arrancar dos mais duros corações algumas moedas. “Contrariando meus princípios, toma lá”. E lá se ia Marquinho, levando algumas moedas até de quem é contra a esse tipo de “caridade”. Como saber sua idade, se a cada hora arriscava um número? Mas, num certo dia, encontrei o garoto na rua, num misto de dor de ouvidos e crise de convulsão pelo crack. Sim, inevitavelmente, todo dinheiro arrecadado ou parte dele, acabava alimentando o tráfico. Se contorcendo na rua, sem camisa, a ausência de pelo nas axilas denunciava a idade mais tenra. Recolhi Jubinha pelos braços, para afastá-lo do meio da rua, longe do perigo do trânsito, até que finalmente apareceram as assistentes sociais da Prefeitura.

Jubinha sumiu uma, duas, mais vezes. Perdi a conta, até que na semana do Natal, ao sair de casa, o reencontrei.  Mesmo sujo, rosto judiado e mais maduro deu pra ver que era ele. O cabelo, antes liso e castanho, virou um rastafári engordurado, o que acentuava o desconforto do senso comum. “Jubinha! É você, Jubinha?”. Num breve diálogo, perguntei a razão do sumiço, por onde teria andado. “Cadeia, tio. Tráfico. Já paguei tudo e agora tô limpo…”. Apressado, tentei seguir meu caminho, quando ele me segurou pelo braço e disse: vai assim? Sem me dar um abraço, uma moeda… É Natal!

Por instantes, me ocorrera o menino do filme “Abril Despedaçado”, que não tinha nome. Tinha um quê de anjo, sem se chamar Querubim, um rol de medo que até os anjos da guarda o assustavam e a ideia de que Deus tudo via e o apavorava. Mesmo assim, Deus o protegia. Uma história de amor, traição, vigança e covardia. Enquanto divagava sobre o garoto do filme, na minha cabeça voltou a cena do passado: os gritos e delírios de Marquinho foram transformados em crônica: “A maioridade penal e os meninos de rua”.

Criei imagens e falas sore o delírios de Jubinha…

Depois da alegria, excitação, euforia, é como se eu estivesse triste, mas ao mesmo tempo é como se eu estivesse deprimido. Como se algo de muito bom ou muito ruim estivesse prestes a acontecer. É como se fosse tudo isso junto e meu anjo de guarda estivesse cochilando, quando de repente, não mais que de repente, acordasse com minhas loucuras. É como se meu anjo de guarda estivesse acordado e vigilante, mas de repente me abandonasse a minha própria sorte ou quem sabe ao próprio azar e as coisas estivessem acontecendo, ou simplesmente desacontecendo. É como se fosse dor, como se fosse sonho, como se fosse uma dura realidade. É como se fosse, se fosse, se fosse, mas não é.

Tudo é muito confuso, amorfo, difuso, insípido e inodoro, algo parecido com… como se eu tivesse acabado de entrar no inferno, como um Deus. Mas seu fosse Deus, eu atrapalharia as maldades do Diabo. Não, não, não! Eu era o Diabo mesmo, invadindo o céu e, como tal, é ou seria como se eu começasse a atrapalhar os milagres de Deus e Deus achasse graça de tudo isso, e sorrisse de mim ou para mim. Mas se Deus achasse graça seria essa a tal graça divina?

Mas ao mesmo tempo, era como se eu fosse Ele, mas não era. Tenho certeza ou muitas dúvidas sobre isso, porque se eu fosse mesmo Deus, eu cuidaria de mim. Eu me poria no colo, me protegia do frio, do relento e do desalento do corpo e da alma. Então, já que eu não era Deus, eu era mesmo o Diabo, mas também eu não era bem o satã. Se eu fosse ele, faria comigo a maldade fatal – seria presenteado com a morte. Se eu morresse, eu não sentiria mais dor nem aflição. Se eu não sentisse nada disso, eu não sofreria e se eu não sofresse isso seria muito bom.

Mas se isso fosse bom, será que o diabo me faria essa bondade? Então, eu não era ele. Acho que agora sei. Acho que eu era Deus, mas se eu fosse Deus eu seria bonzinho comigo e se eu não me tirei da angústia eu não era Deus. E assim, depois de ser tanto, eu era ou seria simplesmente nada. Tão nada que me relegaram ao abandono, que me perdi nas ruas, perambulei por sinais e meus pés se tornaram uma casca grossa.

Eu vi vivi a chuva, eu vi e vive o sol, vi e vivi olhares assustados, das senhoras escondendo bolsas, dos senhores levantando os vidros dos carros… Ah! Os carros! Como são lindos! De noite então, aqueles painéis coloridos, aqueles rádios… Os carros… Ah! Os carros! Os poucos que conheci entrei pelas portas dos fundos, quase jogados depois de tapas e safanões. Os carros e os seus cantares de pneus e minha mão estendida…

Ter  minha mão estendida é a única coisa que aprendi a fazer na vida – estender a mão. Minha mão. Mão? Lembro, penso que lembro ou me contaram sobre as palmadas das mãos da preta velha me puxando de um ventre escuro, o mesmo ventre de onde não deveria ter saído. Sem entender muito bem, ouvi ou teria ouvido, ou quem sabe alguém disse, se é que disse a palavra amor. Amor? Ou teria sido aborto? E o pai? Quem será o pai?

Agora, agora que passou o efeito do crack, sou um recém-nascido, mas também  é possível que eu tenha apenas dez ou treze anos… talvez mais, talvez menos, eu não sei. Mas, o delegado de polícia diz que sou “de maior”…

-Maior em que?

Ele diz que sou delinquente…

– “Deli” o que?

Acabou o delírio de Jubinha e agora me deparo com os meus. Presumo que “Sejumoro”, na semana em que encontrei Jubinha, nunca tenha tido acesso a alguém assim. Hoje, mergulhado na obsessão por prender Lula, pode ter feito uma trégua para entrar no Espírito do Natal. Deve ter feito sacolinhas, contribuições generosas para cestinhas de Natal de famílias carentes. Valores classe média a todo vapor, não viu a cara para quem pode mandado brinquedo ou panetone, mas é certo que por “ter feito o bem”, comeu sem culpa sua farta ceia de Natal. Deliciou-se muito aquém da realidade, num País que ajudou a destruir, muito aquém dos garotos que inspiram contos de Natal, em terras que trenós não passa.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo

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