Socorro, Rosangela Moro incorporou o inspetor Javert

Lula segue sendo perseguido pelo MPF, pela Justiça e pela imprensa. Apesar de acusada de desviar dinheiro da APAE https://www.youtube.com/watch?v=5FQZmKTFcPk, a esposa de Sérgio Moro aproveitou o fim do ano de 2017 para criar o mantra “Seu candidato é réu? Fuja”.

A frase já é repetida à exaustão na internet. O Google apresenta 48,9 mil resultados para a expressão “Seu candidato é réu? Fuja” e 5,32 mil para “Teu candidato é réu? Fuja”. As notícias de jornal relacionadas às duas expressões são respectivamente 6,85 mil e 2,45 mil. A velocidade da propagação do mantra pode ser creditada a duas causas: a visibilidade que Rosangela Moro ganhou; a oportunidade que ela criou para os inimigos de Lula atacarem o ex-presidente.

Seu candidato é réu? Ok. Você deve mesmo fugir dele? Não necessariamente. 

Quando se tornou chanceler da Alemanha, Adolf Hitler não era réu. Pouco tempo depois, ele foi considerado homem do ano pela revista Times http://content.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,2019712_2019694_2019588,00.html.

Manuel Noriega não era réu quando chegou ao poder no Panamá. Em 1983 ele também ganhou destaque positivo na imprensa norte-americana, tendo sido fotografado tranquilamente ao lado do presidente dos EUA https://www.theguardian.com/world/2010/apr/27/manuel-noriega-us-friend-foe.

Quando se tornou “garoto propaganda” da guerra contra patrocinada pelos EUA contra os soviéticos no Afeganistão, Osama Bin Laden também não era considerado criminoso. Muito pelo contrário, ao fim da guerra a imprensa o retratava como herói http://www.independent.co.uk/news/world/anti-soviet-warrior-puts-his-army-on-the-road-to-peace-the-saudi-businessman-who-recruited-mujahedin-1465715.html.

Lula é réu. Fato. Mas ao contrário de Adolf Hitler, Manuel Noriega e Osama Bin Laden o ex-presidente brasileiro não provocou nenhuma guerra interna ou externa. Durante 8 anos ele governou o Brasil de maneira pacífica e sua política externa tinha como eixo central a dissolução diplomática dos conflitos e a minimização dos danos que eles poderiam provocar. Administrado por Lula, o Brasil cresceu de maneira consistente e distribuiu renda e até aqueles que hoje rejeitam seu retorno ao poder (como os empresários de comunicação) tiveram mais lucros naquela época do que estão tendo hoje.

Apesar de não ser réu, Hitler produziu uma catástrofe na Europa. Ser considerado “amigo dos EUA” não evitou que Bin Laden e Noriega se comportassem como criminosos. O ex-líder da Al-Qaeda foi morto o outro está preso nos EUA. Lula é réu no Brasil, mas nesse momento a imprensa norte-americana tem mais razões para se preocupar com os abusos cometidos pelo usurpador do que com o retorno do petista ao poder https://www.nytimes.com/2017/06/20/world/americas/cia-officer-exposed-brazil-.html.

Michel Temer não era réu quando chegou ao poder. Empossado, o usurpador usou o cargo e administrou o orçamento de forma a impedir a Câmara dos Deputados de autorizar o MPF a iniciar processos criminais por causa dos crimes que ele cometeu. Durante seu governo o desemprego aumentou, dezenas de milhões de brasileiros empobreceram no PIB declinou e o comércio e a indústria seguem sendo sufocados pela combinação explosiva de juros altos e redução de demanda. A única coisa que Michel Temer fez com sucesso foi garantir a impunidade dos principais membros de sua quadrilha nomeando-os para que eles tivessem foro privilegiado.

É impossível entender porque Michel Temer não se tornou réu antes de chegar ao poder para espalhar sofrimento, suor e lágrimas. Também é incompreensível porque a esposa de Sérgio Moro prefere demonstrar mais preocupação com Lula (cuja candidatura é apenas uma possibilidade e a eleição incerta) do que com o usurpador que deveria ser réu e não é.

O mantra criado por Rosangela Moro também é ilógico. Ela sugere que os eleitores devem fugir de Lula porque ele é réu, como se esse fato (ser réu) desempenhasse a mesma importância para todos os cidadãos. É evidente que no imaginário dela todos são iguais, muito embora apenas ela, seu esposo e os membros da classe social dela não tenham sido afetados pela crise. Eles não precisam fugir da realidade em que a esmagadora maioria dos brasileiros foram condenados a viver por um usurpador que ela mesmo não faz questão que se torne réu.

Os eleitores do PT não podem fugir, mas eles podem lembrar que quando ele foi presidente a situação do país e deles mesmos estava melhor. Isso explica porque tantas pessoas querem votar em Lula sendo ele réu ou não. Para essas pessoas o argumento de Rosangela Moro é irrelevante.

Tudo bem pesado, a mim parece que a esposa de Sérgio Moro esconde seus reais interesses ao desautorizar a candidatura de Lula porque ele é réu. De fato, a frase que ela criou apenas e tão comente prova uma coisa: o preconceito de classe que ela nutre em relação ao ex-presidente provavelmente porque ele não tem diploma. Ela é advogada e, portanto, diplomada. Mesmo assim, Rosangela Moro parece não ser capaz de se pautar pelo que existe de melhor na literatura ocidental.

Jean Valjean, o personagem inesquecível de Victor Hugo, não era apenas réu. Ele era um fugitivo da polícia. Usando nome falso (Madelaine) ele se torna empresário e, depois, prefeito de Montreuil-sur-Mer. À frente dos negócios privados e públicos, o criminoso arrependido resgata as pessoas da miséria proporcionando-lhes emprego, renda e serviços públicos. Mas sua carreira é interrompida quando Javert o reconhece obrigando-o a fugir.

Rosangela Moro é refinada o suficiente para conhecer Os Miseráveis. A julgar pelo mantra que criou (Seu candidato é réu? Fuja), ela não recomendaria às personagens secundárias da obra de Victor Hugo a votar em Jean Valjean-Madelaine. Muito pelo contrário, ao atacar ferozmente Lula porque ele é réu a esposa de Moro parece se identificar mais com o implacável policial que se suicida no Rio Sena ao fim da obra. Portanto, não ficaremos surpresos se ela pular no Rio Tietê ao ser confrontada com os benefícios proporcionados ao país e aos mais pobres por um novo governo Lula. 

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