Temer discutiu divisão de R$ 10 milhões com Marcelo Odebrecht, diz delator

Delator da Lava Jato diz ao TSE que, ao contrário do que afirmou Marcelo Odebrecht, Temer presenciou, sim, discussão sobre doação de R$ 10 milhões ao PMDB, e ainda agiu para evitar que todo o recurso fosse destinado apenas a Paulo Skaf. Parte do montante solicitado por Temer bancou o ex-deputado Eduardo Cunha
 
Foto: Agência Senado
 
Jornal GGN – O Estadão publicou, nesta terça (11), a íntegra do depoimento do executivo da Cláudio Melo Filho, colaborador da Lava Jato, ao Tribunal Superior Eleitoral, no qual ele desmente dois pontos das acusações que Marcelo Odebrecht fez na ação que visa a cassação da chapa Dilma/Temer.
 
Segundo Melo, Marcelo Odebrecht mentiu em pelo menos dois momentos: primeiro, quando afirmou que ambos acertaram com Eliseu Padilha o repasse de R$ 10 milhões ao PMDB durante a eleição de 2014. Depois, quando disse que Temer não presenciou a negociação.
 
Além disso, o depoimento – que deveria estar sob sigilo, assim como a delação da Odebrecht no Supremo Tribunal Federal – mostra que parte dos recurssos solicitados por Temer como doação à Odebrecht foram usados para bancar o deputado cassado Eduardo Cunha.
 
Quando as primeiras informações sobre o encontro entre Odebrecht e Temer no Jaburu vieram à tona, o presidente primeiro negou que tenha discutido doações e, depois, já encurralado pelo caso José Yunes (que ajudou a operacionalizar pagamentos ao PMDB), voltou atrás e admitiu que “solicitou ajuda financeira”, mas negou que tenha discutido valores.a
 
O depoimento de Melo mostra que Temer pode não ter tentando negociar os R$ 10 milhões, mas certamente disputou a maneira como ele seria dividido entre aliados.
 
O ENCONTRO NO JABURU
 
Melo relatou ao TSE que Marcelo Odebrecht disse a ele, por telefone, que ouviu um apelo de Paulo Skaf, seu “amigo pessoal”, para “fazer além do que estava fazendo” pela campanha do então candidato ao governo de São Paulo. Ou seja, Skaf teria pedido mais recursos a Marcelo.
 
O presidente da Fies, um dos patrocinadores do impeachment de Dilma Rousseff, também teria avisado a Marcelo que Temer e Eliseu Padilha queriam conversar sobre as doações da empreiteira ao PMDB, no Palácio do Jaburu.
 
Na mesma ligação, Marcelo pediu a Melo para que verificasse se a reunião já estava agendada. Era 28 de abril ou maio [o delator não soube precisar a data ao TSE] de 2014.
 
Confirmada a reunião no Jaburu para o dia seguinte ao da ligação, Marcelo viajou a Brasília. 
 
No encontro na residência oficial do vice-presidente da República estavam Marcelo, Temer, Padilha e Melo, apenas.
 
Em certo ponto, Padilha e Temer começaram a falar das “dificuldades” da campanha de 2014 com o crescimento “da oposição” e solicitou uma “contribuição”. 
 
Marcelo, que já havia definido por conta própria, após conversa com Skaf, investir “o limite de R$ 10 milhões”, falou do montante a Padilha e Temer e observou que gostaria de destinar todo o recurso à campanha do homem do pato de borracha.
 
Melo disse que, neste momento, houve uma “reação” de Temer e Padilha, que brigaram para evitar que Skaf ficasse com os R$ 10 milhões.
 
 
Na sequência, o juiz auxiliar eleitoral perguntou a Melo se quando Marcelo discutiu o valor, Temer estava presente. O delator respondeu:
 
“Primeiro, não houve discussão, houve uma solicitação e uma determinação de Marcelo, vamos dizer assim, porque essa tomada de decisão é unicamente dele. Então, não houve negociação. Houve solitiação de apoio à campanha, e Marcelo assentiu e determinou que poderia ajudar naquele limite de 10 milhões de reais.”
 
Depois, o juiz voltou a perguntar se todos estavam presente quando Marcelo falou de valores, ao que Melo rebateu: “Sim, todos estavam.”
 
Ao TSE, Marcelo disse que Temer saiu por um momento, dando um álibe ao presidente no que tange a discussão de valores.
 
 
 
Marcelo, ainda de acordo com Melo, acertou de pagar R$ 6 milhões a Skaf e R$ 4 milhões ao PMDB. O depoimento ao TSE não deixa claro se isso foi discutido no Jaburu ou posteriormente, com Eliseu Padilha.
 
Melo também disse que, no final, Marcelo se encarregou pessoalmente da distribuição dos R$ 6 milhões a Skaf, e destacou outro funcionário da Odebrecht, José Carvalho Filho, para entregar os R$ 4 milhões a Padilha, que deveriam ser divididos entre aliados do PMDB.
 
REPASSES A CUNHA
 
Nesse momento, o delator afirmou que ficou sabendo por meio de Filho que, um dia, Eduardo Cunha ligou, nervoso, reclamando da falta de pagamento em dia. Foi quando Melo descobriu, e confirmou depois, em encontro com Padilha, que Cunha era o destinatário de parte dos R$ 4 milhões que Temer solicitou ao PMDB.
 
Melo disse que não sabe se o pagamento a Skaf foi via caixa 2 ou doação oficial, mas que “certamente foram em espécie” os pagamentos feitos por Carvalho, com destino a Cunha e outros. Talvez não em sua “integralidade”, mas isso poderia ser confirmado com a delação de Carvalho, que também colabora com a Lava Jato.
 
Depois, respondendo a uma pergunta da defesa de Dilma, Melo foi confrontado sobre outra informação de Odebrecht: a de que os R$ 10 milhões foram acertados com Padilha antes do encontro com Temer no Jaburu.
 
 
 

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